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Comoção na despedida à jovem Tuçe

19:57 | 03/12/2014
Estudante foi agredida e morreu após ajudar garotas que eram molestadas por rapazes. Exemplo de coragem cívica comove e é lembrado por pessoas presentes ao funeral. "Tuçe me ensinou a amar alguém que eu nem mesmo conheço", diz uma jovem de cabelos pretos encaracolados e encobertos por um véu islâmico. Com rosas brancas nas mãos, ela caminha pela região industrial da cidade de Wächtersbach, perto de Frankfurt. "Eu amo Tuçe, apesar de não conhecê-la", diz a jovem que, com um sorriso tímido, fecha o último botão de seu casaco de inverno. Só então é possível reconhecer uma foto em preto e branco de Tuçe A., que ela prendeu a seu casaco. O belo e sorridente rosto da foto chama imediatamente a atenção. Abaixo, a data do aniversário de Tuçe, ao lado de um laço preto. "Eu não a conheci. Eu acho respeitoso se Tuçe, por causa de seu ato, receber um adeus digno", afirma um jovem. Ele também traz a foto em seu peito. "Brigas entre garotos são comuns, mas que uma garota seja agredida até a morte...", comenta, balançando a cabeça. "Ela emociona as pessoas" Faz frio nesta manhã de quarta-feira (03/12). Aos poucos, o espaço em frente à mesquita amarela e cinza da Associação Cultural Turco-islamita (Ditib), na calma Wächtersbach, vai se enchendo. O prédio é quase imperceptível, escondido entre um espaço para feiras comerciais e grandes edifícios. Um ambiente sóbrio e desolador. A rua está cheia de pessoas. "Nós queremos prestar uma última homenagem e estamos aqui por todas as pessoas que demonstram coragem cívica", diz uma senhora, moradora da região, que acrescenta nunca ter visto uma multidão tão grande por ali. "Tuçe emociona as pessoas aqui. O que aconteceu com ela é inconcebível." Não somente as pessoas em Wächtersbach acompanham com atenção a despedida da jovem estudante de origem turca. Muitos jornalistas de emissoras de televisão em língua inglesa, turca e alemã se acotovelam numa pequena ponte, de onde é possível ter uma boa visão da cerimônia em frente à mesquita. Após a oração do meio-dia, começa o velório. Dos grandes alto-falantes saem versículos do Alcorão, lidos pelo imã em árabe e em tradução para o alemão. O caixão está sobre uma alta mesa de mármore. Um pano verde-amarelo o cobre. Ao lado estão hasteadas as bandeiras da Turquia e da Alemanha. Centenas de pessoas se reúnem ao redor do caixão família, membros da comunidade, amigos e companheiros. Personalidades também estão presentes: o embaixador da Turquia na Alemanha e o governador de Hessen, Volker Bouffier. Mas nacionalidades e famosos não interessam a ninguém. Exemplo de coragem cívica "Tuçe agiu de forma extremamente exemplar. Nem todos teriam agido como ela, principalmente jovens mulheres", diz uma garota, com lágrimas nos olhos. Ela diz que não quer ser mal interpretada e enfatiza que Tuçe não merecia morrer. "Mas, se ela continuasse em coma, seria apenas a menina corajosa. Sua morte comoveu todos. Ela era uma jovem que só queria ajudar", diz a garota, que conheceu Tuçe rapidamente, por meio de outros amigos. Sua acompanhante está quieta. "Ela mostrou coragem cívica. Ela mostrou o que é possível fazer mesmo estando sozinha. Não se deve simplesmente virar o rosto, é necessário intervir ou buscar ajuda." Após a cerimônia, um comboio com dez ônibus lotados se dirige para o cemitério do vilarejo de Bad Soden-Salmünster, onde Tuçe nasceu e será enterrada. No ônibus, o silêncio predomina. Família, amigos, colegas da escola todos estão sentados, ninguém fala. Uma mulher luta contra as lágrimas e balança a cabeça. Ela ergue o olhar e diz que Tuçe era uma menina "calma, amorosa e cheia de vida". Ela diz ser da Bósnia e afirma, com voz trêmula, que conhece a guerra e sabe o que é perder pessoas amadas mas não esperava que algo tão brutal fosse acontecer na Alemanha. A mulher diz que conhecia Tuçe muito bem e já há vários anos. A filha dela era a melhor amiga de Tuçe. A filha também estava no estacionamento onde Tuçe, naquela noite, foi agredida. Até hoje, ela está em choque e não quer falar sobre o ataque. Despedida em paz No cemitério, apenas a família se reúne em torno da sepultura. O ambiente é calmo e dominado pela emoção. No momento em que o caixão é carregado por entre a multidão, ouvem-se soluços esporádicos. A família deseja privacidade no momento do enterro, para poder se despedir em paz, dentro dos preceitos islâmicos. Ao final do dia, após o enterro, o cemitério está silencioso. Pequenos grupos visitam o túmulo de Tuçe, depositam flores e a homenageiam. Um homem diz que veio de Frankfurt só para a despedida. Ela afirma ter ficado abalado com o que aconteceu. Ele chegou a participar da vigília na frente do hospital de Offenbach, onde Tuçe estava internada. Deixar de vir ao enterro era fora de questão para ele. Tuçe mostrou o que é coragem cívica, mas a violência contra ela continua sendo incompreensível. "Mulheres e crianças não podem ser agredidas. O agressor ultrapassou os limites e tem que ser punido." Na sepultura de Tuçe há um mar de flores. Numa camiseta branca sobre o túmulo está escrita a frase "Você é um anjo que mostrou coragem". A luz das velas cintilam. Tuçe era amada, era jovem e talentosa. Ela queria ser professora. Ela jamais estará diante de uma classe, mas deixou uma corajosa lição de como agir. Autor: Sabrina Pabst (fc)Edição: Alexandre Schossler
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