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Opinião: Turquia está entre a pressão e o medo

16:48 | 14/10/2014
Mesmo pressionado pela coalizão internacional, governo de Ancara resiste em aderir de fato à campanha contra o "Estado Islâmico". Com tal posição, o país se expõe, opina o chefe da redação turca da DW, Baha Güngör. Tanques turcos estão alinhados ao longo da fronteira com a Síria e acompanham de uma distância segura os combates no território vizinho. Desde o grande ataque dos terroristas do "Estado Islâmico" (EI) contra o reduto curdo de Kobane, espera-se que a Turquia atravesse a fronteira e, com suas tropas terrestres, coloque um ponto final à ofensiva dos radicais. Mas os críticos da atual política turca não estão pensando de forma suficientemente profunda sobre as consequências de uma eventual intervenção. Há várias questões a serem respondidas. Deveria a Turquia agir como uma potência ocupante na Síria? Que consequências teria uma contraofensiva por parte de milícias terroristas ou do ditador Bashar al-Assad para proteger seu próprio território? Será que simpatizantes sírios, como a Rússia e o Irã, não iriam tentar ajudar Assad? E quem teria que responder pelas consequências, se um país após o outro na região incluindo Israel estivesse exposto a uma guerra em várias frentes? É difícil criticar o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, quando ele recusa uma intervenção solitária e exige uma abordagem coordenada em conjunto com a aliança antiterrorista liderada pelos Estados Unidos. Porém, por trás dessa exigência, Erdogan também esconde o objetivo de derrubar não só a milícia do EI, mas também o déspota sírio. Abrir mão dessa condição está fora de cogitação para Erdogan, pois ele já desafiou excessivamente o ex-amigo Assad. Mas nenhum dos aliados compartilha esse objetivo todos estão se concentrando apenas no EI. E um segundo ponto torna a política de Ancara tão problemática: o medo dos curdos. Por temor de que os curdos da Turquia e da Síria possam se unir após a libertação de Kobane e formar uma coalizão antiturca, o governo Erdogan está dificultando a travessia de fronteira dos curdos e, portanto, enfraquecendo significativamente a luta contra os terroristas. A pressão internacional, de um lado, e o medo de um ressurgimento da luta de militantes curdos turcos contra Ancara, de outro, tornam mais lenta qualquer decisão na Turquia. E complicaria o processo de paz com os curdos. Em vez disso, paira a ameaça de que ocorra um novo surto de violência separatista, revidada com força militar na Turquia. E isso 30 anos depois do início da luta do PKK - uma organização considerada terrorista também pela Alemanha - por um Estado curdo independente, num conflito que custou mais de 40 mil vidas e deslocou milhões de civis. Enquanto a Turquia estiver mais preocupada consigo mesma e com seus problemas internos, em vez de aderir à coalizão antiterrorista, o caos ficará cada dia maior. Por isso, Ancara deveria dar ao menos um pequeno passo e ceder as bases militares em seu território à aliança internacional para que o terrorismo do EI possa ser combatido de forma mais eficiente do ar Há décadas, a Turquia se orgulha de ser considerada um parceiro de confiança da Otan. E esse tratado está agora em jogo 62 anos após a adesão do país à Aliança Atlântica.

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