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"Chávez Nosso" reacende discussão sobre fronteira entre religião e política

09:56 | 08/09/2014
Oração em homenagem a Hugo Chávez rendeu críticas a partido socialista venezuelano. Mas tentativas de canonizar um regime ou seus líderes não são novidade, aponta teólogo. "Chávez nosso, que estais no céu", assim se inicia a Oração do Delegado, a versão chavista do Pai Nosso apresentada pelo Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) num seminário sobre educação socialista no começo deste mês. A resposta do arcebispo de Caracas não demorou a chegar: a deificação de um ser humano é um pecado, advertiu o cardeal Jorge Urosa. Ao mesmo tempo, o presidente venezuelano e líder partidário, Nicolás Maduro, rebateu críticas à homenagem feita a seu falecido mentor político: a Oração do Delegado seria apenas uma obra lírica, como a poesia do Nobel de Literatura chileno Pablo Neruda, disse Maduro. Não se sabe quantas pessoas o presidente venezuelano conseguiu convencer com essa argumentação. As semelhanças com a mais conhecida e mais antiga oração cristã se arrastam por toda a Oração do Delegado: "Santificado seja o vosso nome", "A tua luz de cada dia nos dai hoje", "E não nos deixeis cair na tentação do capitalismo, mas livrai-nos dos males da oligarquia". Superficialmente, isso pode soar como folclore político ou uma provocação dos adversários. Mas não se deve menosprezar o impacto de longo prazo, afirma Thomas Grossbölting, teólogo e historiador da Universidade de Münster, na Alemanha. "Aqui se ultrapassa deliberadamente um limite para abrir portas para a sacralização de uma determinada política ou de seus líderes", diz. Meios ideológicos Esta não é a primeira vez na história que se tenta santificar regimes ou políticos. O culto à personalidade em torno de Adolf Hitler na Alemanha nazista, entre 1933 e 1945, foi rodeado de elementos religiosos, exemplifica Grossbölting. Isso inclui desde a encenação das reuniões do Partido Nazista em Nurembergue, em que o "Führer" atravessava um arco luminoso, até formas claras de messianismo, segundo o teólogo. "O próprio Hitler falava da providência divina, que proporcionou ao povo alemão a sorte de tê-lo encontrado." As lideranças da antiga Alemanha Oriental também fizeram uso dessa estratégia, porém, de uma forma bem mais tênue, afirma o historiador. Em 1958, Walter Ulbricht, o primeiro dos secretários-gerais do Partido da Unidade Socialista (SED, na sigla em alemão), anunciou os "Dez mandamentos da moral e da ética socialista". "O regime recorre a um padrão conhecido entre a população para conferir um caráter sagrado à sua própria mensagem", diz Grossbölting sobre a aparente contradição entre o regime ateísta e alusões religiosas. Afinal de contas, para o cristianismo, os Dez Mandamentos não são regras quaisquer, mas a palavra divina, explica o teólogo. No entanto, na ex-Alemanha Oriental, isso nunca foi bastante eficaz, mesmo que mais tarde o SED tenha criado uma série de dez mandamentos parte delas em relação a situações bastante profanas, como "viagens e transportes". Posteriormente, a tentativa de conferir um caráter quase sagrado a decretos do governo evoluiu para o ridículo, diz Grossbölting. Distinguir religião e política Hoje, sobretudo na Europa Ocidental, a base religiosa está abalada demais para que a sacralização de uma pessoa ainda pudesse ter algum efeito, afirma o teólogo. Mesmo assim, Grossbölting diz considerar correta a postura da Igreja Católica de se afastar de tais tentativas e de apontar as fronteiras entre política e religião. Isso poderia ser particularmente importante na Venezuela, onde para muitas pessoas a religião ainda exerce um papel importante, mesmo após 15 anos de governo socialista. Depois de ter condenado duramente o "Chávez Nosso", o arcebispo Urosa se mostrou despreocupado. "Todo fiel venezuelano vai entender do que se trata", disse em entrevista ao jornal El Espectador.

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