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Papa defende os esforços da Igreja contra a pedofilia

''Bento XVI foi muito corajoso e abriu um caminho. A Igreja, neste caminho, tem feito muito. Talvez mais que qualquer outro (...) E, no entanto, a Igreja é a única atacada'', disse o Pontífice

11:23 | 05/03/2014
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O Papa Francisco respondeu nesta quarta-feira, 5, a um relatório muito crítico da ONU, defendendo os esforços da Igreja na luta contra a pedofilia e demonstrando uma abertura pragmática em relação a vários assuntos, como o divórcio e a contracepção.

Em uma entrevista ao jornal Corriere della Sera, a poucos dias do primeiro aniversário de seu pontificado, em 13 de março, o Papa falou sobre esta questão muito delicada, afirmando que a "Igreja Católica é talvez a única instituição pública que se movimenta com transparência e responsabilidade" na luta contra a pedofilia.

"Bento XVI foi muito corajoso e abriu um caminho. A Igreja, neste caminho, tem feito muito. Talvez mais que qualquer outro (...) E, no entanto, a Igreja é a única atacada", insistiu.

Milhares de crianças foram abusadas sexualmente por padres em muitos países, particularmente na Irlanda e nos Estados Unidos entre os anos 1960 e 1990.

Este escândalo degradou a imagem da Igreja em todo o mundo.

Questionado pelo jornal Corriere della Sera sobre o balanço de seu primeiro ano de pontificado, o papa argentino afirmou que "as estatísticas sobre o fenômeno da violência contra as crianças são impressionantes, mas também mostram com clareza que a grande maioria dos abusos ocorrem em um ambiente familiar e de vizinhança".

O Comitê de Direitos das Crianças das Nações Unidas divulgou no mês passado um relatório muito crítico sobre a atitude do Vaticano na luta contra os abusos sexuais de menores de idade. O documento reprova a não obrigatoriedade das denúncias à justiça nas dioceses e o fato da igreja ter mantido em sigilo as investigações eclesiásticas.

Segundo especialistas independentes deste comitê, as práticas da Santa Sé contribuíram para "a prática continuada dos abusos de menores e a impunidade dos culpados".

O Vaticano imediatamente denunciou os "graves limites" de um relatório influenciado por "ONGs reconhecidamente hostis à Igreja católica". Ele acusou a ONU de "deformar" os fatos em um documento "preparado antecipadamente".

Vários especialistas revelaram que o relatório em questão não levou em conta os esforços da Igreja neste combate, principalmente nos últimos anos.

Ex-vítimas também argumentam que o Vaticano não foi severo o suficiente, como por exemplo, com a congregação dos Legionários de Cristo, que não foi forçada a dissolver-se, apesar dos crimes de pedofilia de seu fundador, o mexicano Marcial Maciel.

Francisco anunciou em dezembro a criação de uma comissão de especialistas para a proteção das crianças em todas as instituições da Igreja. O anúncio foi recebido com ceticismo por associações de vítimas, e a composição da comissão ainda não foi anunciada.

Ainda na entrevista ao Corriere, o Papa falou sobre vários temas quentes relativos à família, incluindo o acesso dos divorciados à comunhão.
Ele desejou que os sínodos convocados par o final de 2014 e 2015 se comprometam com "uma reflexão profunda sobre a grave crise" que atravessa a família, sem querer "resolver cada problema pela casuística" (com base em exemplos específicos).

"É à luz de uma reflexão profunda que situações específicas podem ser tratadas com seriedade, incluindo as do divórcio", considerou.

O Papa também mencionou a polêmica encíclica "Humanae Vitae" do Papa Paulo VI, em 1968, condenando a contracepção.

Francisco defendeu o Papa italiano que "teve a coragem de se opor ao neo-malthusianismo", mas ressaltou que Paulo VI "recomendou a misericórdia e a atenção à situações concretas".

"A questão não é mudar a doutrina, mas para ir fundo e garantir que a pastoral leve em conta o que é possível fazer para as pessoas", argumenta Francisco.

Sobre o casamento, ele reafirmou que "é entre um homem e uma mulher", mas se mostrou cauteloso sobre as uniões civis. Estas são "justificadas pelos Estados laicos para regularizar aspectos econômicos": "é preciso analisar os diferentes casos e avaliar a sua variedade".

Sobre o fim da vida, outro tema quente, o Papa, firmemente contra a eutanásia, defendeu os "cuidados paliativos" e criticou a obstinação terapêutica: "a doutrina tradicional da Igreja afirma que ninguém é obrigado a usar meios extraordinários, quando sabemos que sua vida está em estado terminal".

Nesta entrevista, a terceira concedida pelo Papa a um jornal italiano, Jorge Bergoglio também protestou contra "a idealização da pessoa". "Representar o Papa como uma espécie de super-homem, uma espécie de estrela, me ofende. Papa é um homem que ri, chora, dorme tranquilamente e que tem amigos. Uma pessoa normal".

Francisco também afirmou na entrevista que não gosta que o idealizem e assegurou que "pintar o Papa como se fosse uma espécie de Superman, uma espécie de astro, soa ofensivo".

Indagado sobre a "franciscomania" que foi desencadeada no mundo após sua eleição, por seu estilo simples e direto, rejeitou a idealização.

"Não gosto das interpretações ideológicas, de uma certa mitologia do papa Francisco(...) Sigmund Freud dizia, se não estou errado, que em toda idealização há uma agressão", afirmou.

"Pintar o Papa como se fosse uma espécie de Superman, uma espécie de astro, é ofensivo. O Papa é um homem que ri, chora, dorme tranquilo e tem amigos como todos. É uma pessoa normal", acrescentou.

AFP

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