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Escolas clandestinas em Aleppo para ajudar crianças a superar a guerra

12:12 | 08/01/2013
AFP
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Em um antigo palácio da era otomana, na cidade velha de Aleppo, a guerra não parece amedrontar um grupo de crianças que vai à escola recém-aberta por um grupo de professores.

"Abrimos este colégio há uma semana; e dentro de poucos dias abriremos outro muito perto para que as meninas do bairro possam ir. Os pais continuam com muito medo de que seus filhos frequentem o colégio; porque estamos na linha de frente de combate, mas temos que recuperar a normalidade. Não podemos viver sempre com medo", afirma Abu Salam Mustafá (27 anos), professor de religião desta escola clandestina.

Na cidade de Aleppo, no norte da Síria, não há uma só escola que não tenha sido atingida por um morteiro ou diretamente reduzida a escombros pela aviação.

A cidade registrou intensos combates entre julho e outubro. Desde então a intensidade dos confrontos caiu, mas a aviação do regime segue bombardeando muitos bairros controlados pelos rebeldes.

"O Exército Sírio Livre (ESL) utilizou as escolas em Aleppo como quartéis-generais e bases para seus combatentes; por esse motivo o regime as bombardeou", comenta este ex-professor de um colégio de Aleppo e agora diretor deste centro clandestino.

Frente a este panorama, Abu Salam Mustafá decidiu abrir uma escola em um antigo palácio otomano de meados do século XIX, que estava trancado.

"É um lugar muito seguro. No andar de baixo temos um refúgio em caso de bombardeio; além disso tem muitos quartos que podemos utilizar como salas de aula", comenta Abu Ahmad, de 23 anos, estudante de Química na universidade de Aleppo.

A escola, uma joia arquitetônica, conta com um pátio central cercado por sete quartos que ainda conservam as portas de madeira da época. Alguns deles estão cobertos de pó; e outros, cheios de carteiras e quadros negros novos esperando a chegada das crianças.

"A área não é muito segura, porque duas ruas depois está a linha de frente, mas o edifício é alto e seus muros bem espessos protegem as crianças dos morteiros e da artilharia", comenta o diretor.

"Há alguns dias, três morteiros caíram nesta área e mataram várias pessoas. Logo depois, três colégios clandestinos fecharam suas portas para sempre porque os pais se negaram a mandar seus filhos", acrescenta.

Cerca de trinta crianças (de 6 a 17 anos) correm atrás de uma bola castigada pelo tempo. Elas brincam alheias ao que ocorre vários metros depois. O barulho dos disparos de armas leves e metralhadoras se mistura aos gritos de alegria das crianças alheias às batalhas, em uma cena que explica a profusão de vítimas inocentes todos os dias na Síria.

"Uma das finalidades que temos é tentar fazer com que superem o que viram nestes últimos meses. Muitos deles perderam algum familiar na guerra ou viram gente morta. Muitos têm problemas psicológicos e começam a chorar sem motivo aparente", relata Abu Salam Mustafá.

Ahmed Saman, um menino de 13 anos fã de Messi e do Barcelona, e que quer ser engenheiro quando crescer, é uma das 100 crianças que frequentam este colégio de 8 às 12 da manhã seis dias por semana.

"Meus pais me estimulam a vir todos os dias ao colégio, têm medo mas algumas coisa pode acontecer comigo em casa também", afirma.

Mohamad Asun, de 16 anos, amante do cinema egípcio e dos filmes de ação, conta que quer "estudar arquitetura para poder ajudar as pessoas do país a ter um lugar para viver quando a guerra acabar".

Em outro bairro de Aleppo, o de Masaki Hanano, os professores começaram a abrir escolas nas mesquitas.

"As crianças não tinham lugar para ir que fosse seguro e, por isso, decidimos habilitar esta mesquita para que pudessem ir ao colégio", afirma Fátima, 23 anos, estudante de filologia árabe na Universidade de Aleppo.

Nós dividimos cerca de 50 crianças em três salas de aula. Elas frequentam as aulas todos os dias. "Este lugar é como um hospital. Aqui as crianças vêm em busca de ajuda e nós tentamos solucionar seus problemas. Elas são o futuro da Síria", diz Mohamad Handu, 24, formado em química.

Cada vez que ocorre um bombardeio na região, os pais vão correndo para a escola para recolher seus filhos e levá-los para casa. "É normal que tenham medo… Nestes últimos seis meses morreram centenas de crianças nos bombardeios", afirma Mohamad.

Esta escola clandestina abriu suas portas há um mês e crianças entre seis e doze anos a frequentam. "Vêm crianças de todos os bairros; porque em muitos outros lugares de Aleppo ainda não começaram a abrir escolas clandestinas por medo dos bombardeois, ou porque estão na linha de frente", explica Fátima, que exibe no punho uma pulseira com a bandeira tricolor da revolução.

Seis professores (quatro mulheres e dois homens) são aulas de inglês, matemática, religião e árabe.

"Ninguém nos paga pelo que fazemos, mas não queremos dinheiro; o grande salário é ver a felicidade nos rostos das crianças", afirma Fátima.

 

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