Câmeras compactas dos anos 2000 são tendência entre geração Z
A estética dos anos 2000 popularizada por fotos de celebridades e influenciadores nas redes sociais tornaram as câmeras compactas um símbolo desse período
Os sistemas de fotografia dos smartphones que permitem imagens cada vez mais nítidas não impediram que as câmeras compactas dos anos 2000 virassem moda entre a geração Z (nascidos entre 1995 e 2010) ao redor do mundo.
No panorama cearense, essa tendência pode ser dimensionada pelo aumento de clientes na loja “SOS Câmeras”, que existe desde o ano 2000, vendendo e consertando máquinas fotográficas, no Centro de Fortaleza.
Atualmente, o estabelecimento repleto de câmeras antigas atende uma média de 10 pessoas por dia, segundo o proprietário da loja, José Cardoso, 60, um técnico com mais de 30 anos de experiência em conserto de câmeras fotográficas.
José Cardoso diz que o público que frequenta sua assistência técnica mudou drasticamente: “antes (os clientes) eram os fotógrafos. Geralmente o fotógrafo tem 30, 40, 50 anos. Mas hoje a média (de idade dos clientes) está mais para 24 (anos) e tem adolescente, também”.
A estética dos anos 2000 popularizada por fotos de celebridades e influenciadores nas redes sociais tornaram as câmeras compactas um símbolo desse período. Motivado pelo modismo dos mais jovens, José começou a vender essas máquinas fotográficas há pelo menos três anos.
Uma das clientes da “SOS Câmeras” é a estudante Amanda Gomes,17, que foi ao lugar para comprar a câmera Sony Cyber-shot, impulsionada pela nostalgia estética e pela redescoberta de tendências do passado por meio das redes sociais.
“Eu comecei a ver muitas fotos vintage. Eu estou pesquisando e querendo comprar uma câmera digital assim de presente de aniversário, porque eu sempre quis ter uma. Eu tinha uma quando era criancinha e era muito legal. Eu queria muito agora, já que essas coisas voltaram mais agora”, diz Amanda.
Além dos saudosismo, a proibição do uso de celulares em sala de aula nas escolas e cursinhos pré-vestibulares, faz os estudantes usarem as câmeras fotográficas como o único meio disponível para registrar momentos com os amigos e o cotidiano escolar.
Nesse cenário, a câmera Sony Cyber-shot virou símbolo das fotos vintage, além de outras linhas, como Canon PowerShot, Nikon Coolpix, Kodak EasyShare e Panasonic Lumix, estão entre os equipamentos mais buscados e também marcaram época.
Câmeras como essas deixaram de ser fabricadas e saíram de linha há anos, os interessados em adquirir uma delas costumam recorrer a modelos usados de segunda mão, que custam a partir de R$ 600 em lojas físicas ou plataformas online.
Para Amanda, essa “tendência retrô” faz parte de um ciclo natural de valorização cultural, que resgata tecnologias antes comuns para oferecer uma conexão mais autêntica e sentimental com as memórias vividas.
“Eu acredito que as coisas sempre voltam. O que antes a gente não dava tanto valor, agora a gente passa a dar. Talvez no futuro, vamos dar valor a uma coisa que hoje em dia é muito normal. Talvez no futuro vamos ver as fotos que a gente tirou no celular e vamos pensar: nossa, como a gente era feliz nesse tempo”, opina a estudante.
O desejo de fazer foto em câmeras compactas está associado “à satisfação de trazer de volta uma estética que é impactada também pelo saudosismo”, conforme Sidney Simplicio, professor de fotografia do curso de Cinema da Universidade Federal do Ceará (UFC).
“Existe um resgate das décadas passadas que acho normal e recorrente em todas as gerações. Existe um saudosismo natural por um tempo que não existe e as pessoas que viveram contam com tanta paixão que contaminam as novas gerações”, afirma Sidney. “Eu mesmo dei de presente minha antiga cybershot para o meu filho usar”, afirma.
Por que a geração Z enjoou das câmeras de celular?
Muitos jovens, como Amanda Gomes, sentem que a fotografia feita pelo celular tornou-se algo "normal" e sem o mesmo sentimento das fotos antigas.
Ela argumenta que a textura granulada e as imperfeições das fotos vintage possuem uma carga emocional superior à nitidez dos celulares modernos.
“Eu fiquei um pouco obcecada por esse estilo de foto. (...) Não temos essa qualidade com foto do celular. Acho que não é a mesma coisa. A gente vê naqueles álbuns, que antes a gente tirava essas fotos e imprimia fotos tão bonitas. Acho que passa mais o sentimento da imagem do que o celular”, diz Amanda.
O professor da UFC esclarece que a “sociedade está saturando” das imagens perfeitas e repetidas dos smartphones que “com foco perfeito e as inteligências Artificiais (IAs) integradas aos telefones corrigem a iluminação inadequada e aplicam desfoque simulando câmeras profissionais”
“Tudo isso parece ter um mesmo motivo, as câmeras e lentes estão perfeitas demais, tornando as imagens muito boas, mas sem uma identidade, tudo muito automatizado, com nitidez absurda e tecnicamente ok, mesmo quando o fotógrafo não tem tanta habilidade. Tudo isso acaba ‘saturando’ a sociedade com imagens muito repetidas”, explica Sidney.
Segundo o professor, o sucesso das vendas da Sony Cyber-shot fez com que mais modelos desse tipo estivesse a disposição no mercado atualmente. “Mas acho que as pessoas não estão se apegando tanto no modelo e sim no resultado oferecido”, afirma.
De acordo com Sidney, além do aumento das vendas dessas câmeras "aponta e atira" (point-and-shoot) dos anos 2000, há uma intensa busca por câmeras analógicas.
Tendência que transforma o mercado e a indústria
Em resposta a demanda, há lançamentos de câmera analógicas novas e alta procura para o uso de lentes analógicas adaptadas em câmeras atuais e modernas, principalmente mirrorless.
O professor cita como exemplo o uso de lentes analógicas com mais de 40 anos de idade, como as lentes Russas Helios, que são muito procuradas atualmente.
“Essas lentes tem uma estética diferenciada provocada pela sua construção barata o que faz com que tenham alguns defeitos óticos valorizados atualmente. Seja a falta de nitidez que deixa a imagem suave ou até mesmo o flare charmoso que entra pela lente criando uma imagem que perde contraste, mas que tem um charme peculiar”, afirma Sidney.
Segundo o docente, isso indica uma tendência de mercado atendida pela indústria. Por exemplo, a marca Kodak lançou em 2022, a câmera de filme de meio quadro, Kodak EKTAR H35, que custa em torno de R$ 500 e R$ 600.
A alta tendência da estética "retrô" e do uso das tecnologias antigas, motiva o proprietário da SOS Câmeras a planejar o resgate da revelação química de filme.
“As pessoas estão pedindo, né? Então não custa nada a gente fazer isso, até porque a gente também gosta de revelar. É uma coisa assim muito boa, apesar do cheiro do químico. Se bem que o cheiro do químico, às vezes, até atrai a gente por saudosismo”, comenta José.
José Cardoso se apaixonou pela fotografia desde que um fotógrafo tirou foto dele e da família, enquanto era um menino de 4 ou 5 anos, em Canindé, no Interior do Ceará.
Ele foi a Capital, fez cursos de fotografia e assistência técnica, e após décadas não desistiu da loja nem largou a profissão, apesar do avanço das câmeras dos celulares.
“Não chegamos a sucumbir ou sentir ameaça disso, porque a assistência técnica, não é muito de altos e baixos, ela consegue se manter na média e foi isso que fez a gente estar aqui até hoje”, completa José.
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