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Mulheres lutam para manter família fora das ruas e acessar serviços básicos

Desde medo de violências até as dificuldades de encontrar banheiros disponíveis, mulheres em situação de rua debatem necessidade de políticas públicas voltadas ao grupo
19:49 | Set. 14, 2021
Autor Alexia Vieira
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Alexia Vieira Jornal
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Ana Cristina Santos da Silva, 43, mudou-se para Fortaleza em 5 de agosto de 2020. A mulher veio da Paraíba com o marido, uma filha de 15 anos e um filho de 11 anos devido a problemas pessoais. Chegando aqui sem lugar para ficar, mas com o telefone do coordenador do Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop) do bairro Centro, Elias Figueiredo, ela conseguiu uma vaga em um dos abrigos da Capital para ir com a família.

Desde então, Ana Cristina busca maneiras de não voltar para a situação de rua que vivia no estado natal. Há seis meses, ela conseguiu ser contemplada pelo programa de aluguel social oferecido pela Prefeitura, que consiste em um auxílio financeiro de R$ 420 destinado para o pagamento de aluguéis. O cadastro é válido por dois anos e pode ser renovado. Pelo menos 336 pessoas foram contempladas com o benefício em julho de 2021.

Apesar da ajuda para não ficar na rua com os filhos e o marido, Cristina ainda procura os Centros Pop e outros equipamentos voltados para a população em situação de rua para se alimentar. “Lá em casa tá tanto eu como meu esposo desempregados e a gente tá se mantendo pela Bolsa Família. Graças a Deus conseguimos o aluguel social e as refeições tanto pega ou aqui no Pop, nos Contêineres ou na Praça do Ferreira”, explica.

Ainda esperando ser atendida pelo Programa de Locação Social (PLS) que concede o auxílio para o aluguel, a artista Mayre Uchôa, 35, teme precisar voltar para a rua. Atualmente, com a ajuda de conhecidos e com o dinheiro que ganha dançando na Praça do Ferreira e se vestindo como a personagem de quadrinhos Mulher-Maravilha, Mayre consegue pagar o aluguel para ela e sua filha de 18 anos.

Mayre Uchôa, 35, se veste de Mulher-Maravilha para conseguir pagar as contas e não voltar para a situação de rua
Mayre Uchôa, 35, se veste de Mulher-Maravilha para conseguir pagar as contas e não voltar para a situação de rua (Foto: Barbara Moira)

“Eu tô lutando pra não voltar pra rua, tô atrás do meu aluguel social. Tô conseguindo pagar agora porque tem umas pessoas que me ajudam. Mas é hoje, amanhã pode não ter”, diz. Antes de participar da segunda edição do curso Novos Caminhos, que promoveu a capacitação de pessoas em situação de rua para o mercado de trabalho e deu auxílio em dinheiro para os participantes, Mayre dormia na rodoviária com a filha.

“Por mais que eu estivesse na rua, eu podia até passar fome, mas ela não passava. Se eu dissesse ‘Bia, só tenho um biscoito’, ela dizia ‘divide, mãe’. Se só tivesse um almoço, dividia com ela. Nunca deixei passar fome”, relata. Durante a pandemia, Mayre ficou sem renda novamente e teve de voltar para a casa da mãe, com quem não tem uma boa relação. Foi depois disso que conseguiu alugar o local em que mora agora.

“Quero conquistar meu espaço de artista e meu lar. Não quero brigar por parede. Quero brigar, batalhar, pra conquistar meu canto, meu larzinho. Um apartamento do meu jeito”, diz.

Mulheres procuram serviços para pessoas em situação de rua com famílias inteiras

O Centro Pop do bairro Centro, em Fortaleza, atende em média 500 a 700 mulheres em situação de rua por mês, de acordo com o coordenador, Elias Figueiredo. Ele conta que na pandemia o número de mulheres que passaram a frequentar o centro com as famílias inteiras cresceu. O Centro atende ainda aquelas que conseguiram sair da situação de rua, mas que ainda enfrentam dificuldades socioeconômicas. 

“Mulheres fazem parte de um público que vem em uma crescente, porque um número maior de famílias chegaram à situação de rua, muitas mulheres com crianças. No contexto de desemprego, algumas não conseguem pagar os aluguéis e acabaram vivendo em situação de rua”, explica.

Elias afirma que o número de pessoas atendidas pelo Centro Pop que coordena praticamente dobrou de 2019 até 2021. “Nesse equipamento, a gente atende de 2.300 a 3.000 pessoas por mês. No contexto da pandemia a gente teve um aumento das pessoas em situação de rua na cidade de Fortaleza como um todo. Antes da pandemia, a gente tinha uma média de 1.700 a 1.900 pessoas em situação de rua atendidas”.

Apesar do perfil da maioria dos atendidos serem de homens de até 45 anos e solteiros, mulheres com crianças e adolescentes estão cada vez mais presentes no centro de referência. Elias explica que elas costumam agregar a família ao cotidiano, levando os filhos para onde precisam ir no dia a dia.

Devido a restrições de aglomeração, o Centro ainda não oferece atividades para famílias inteiras, mas aos poucos volta a ofertar espaços de convivência, rodas de conversa e outras atividades que contemplem também esse novo público.

Vivência na rua é diferenciada para mulheres

A educadora social Daniela Ximenes conversou com as mulheres atendidas pelo Centro Pop sobre direitos e acesso a serviços
A educadora social Daniela Ximenes conversou com as mulheres atendidas pelo Centro Pop sobre direitos e acesso a serviços (Foto: Barbara Moira)

“A gente sabe que a vivência das mulheres é mais vulnerabilizada, está suscetível a sofrer maiores violações. Então a gente desenvolve atividades sobre prevenção a gravidez indesejada, planejamento familiar, prevenção de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs), temas de fortalecimento de vínculos entre as mulheres da rede de apoio”, diz Elias.

Nesta terça-feira, 14, mulheres atendidas pelo Centro se reuniram para discutir cidadania e direitos da população em situação de rua durante uma edição da roda de conversa promovida quinzenalmente no equipamento. Outras edições já tiveram temas relacionados ao ciclo menstrual e higiene pessoal da mulher. O momento deixou de acontecer durante a pandemia, mas voltou a ser realizado em agosto de 2021.

Uma das principais reclamações das onze mulheres que participavam da roda de conversa foi a falta de banheiros que atendessem suas necessidades. “De noite você não tem um banheiro pra tomar um banho. De dia tem os Centro Pops, tem os locais de tomar banho. Mas e a noite?”, reclamou Mayre. Outras mulheres reclamaram da falta de privacidade e do medo de sofrerem violências sexuais em locais que precisam dividir banheiros com homens.

“É uma marca das pessoas que estão em situação de rua o desejo de falar, de ter alguém ali que escute suas dores, que dê importância para aquilo que elas estão sentindo. E a mulher principalmente, pelas várias necessidades que elas enfrentam. Elas têm seus ciclos menstruais e necessidades físicas próprias da mulher e às vezes não tem políticas que atendam essa demanda que é tão específica desse público”, diz a facilitadora da roda de conversa, Daniela Ximenes.

A educadora social afirmou também que os encontros servem para explicar os direitos das mulheres, informar quais equipamentos públicos podem procurar em caso de problemas como violência sexual ou doméstica e questões de saúde.

Censo da população de rua deve ser divulgado até o fim de 2021

Licitado e com contrato assinado desde 2020, o censo que deve contabilizar a população em situação de rua em Fortaleza deve ser finalizado até o fim de 2021, de acordo com o secretário municipal de Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SDHDS), Cláudio Pinho.

A previsão da secretaria dada em janeiro de 2020 era que o censo fosse iniciado ainda em fevereiro daquele ano. No entanto, com a situação da pandemia, as pesquisas nas ruas só puderam ser iniciadas em junho de 2021. “Nós não recebemos ainda o resultado, mas até o final do ano nós teremos toda essa pesquisa para podermos planejar as ações da Prefeitura com a população de rua”, disse Cláudio ao O POVO.

“Nós temos que descobrir por que a pessoa está na rua. Se é só a dificuldade econômica, se é a pandemia, se é a questão de drogas, tudo isso tá sendo levantado nesse censo”, explica.

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Grupo de voluntários atende população em situação de rua em Fortaleza

Shalom Amigo dos Pobres
05:28 | Ago. 27, 2021
Autor Marília Serpa
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Sem acesso à saúde ou higiene básica, pessoas em situação de rua recebem, desde o início da pandemia, serviços gratuitos no centro da cidade de Fortaleza. O projeto da Comunidade Católica Shalom, chamado "Amigo dos Pobres", oferta serviços nas segundas, quartas e sábados para quem desejar cortar os cabelos, e de segunda a sábado para quem precisar se consultar com um profissional de saúde, ambos em horários da manhã. Os voluntários do projeto realizam uma triagem de quem vai ser atendido, de forma identificar o público com mais necessidades.

Em parceria com profissionais e alunos do curso de medicina do Centro Universitário Christus (Unichristus), o projeto também oferece serviços de orientação social, encaminhamentos para comunidades terapêuticas, higienização, distribuição de roupas e fomenta o empreendedorismo social. Além disso, o programa também se reúne semanalmente em grupos de orações e para a venda de camisetas temáticas visando auxiliar na manutenção das atividades.

De acordo com a coordenadora do projeto, Adalgisa Sá, a escolha dos atendimentos se dá por meio da equipe de triagem, que realiza marcações de forma a decidir quem vai ser atendido pelos profissionais. Ela explica que, por já conhecerem as pessoas atendidas pelo projeto, é possível identificar mais facilmente aqueles que possuem mais necessidade de receber os serviços.

Criado em 2020, no início da pandemia pelo novo coronavírus, o projeto é sustentado por meio de parcerias com empresas e doações. Os pontos de entrega e as formas de doação estão disponíveis no site do programa. São necessárias, de forma contínua, de doações de alimentos, roupas, produtos de higiene em geral e pessoal, além de cobertores, toalhas, máscaras, luvas e medicações. É possível também se cadastrar para ser um voluntário da iniciativa clicando neste link.

Mais informações podem ser encontradas no site do projeto: amigodospobres.org

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Pandemia aumenta número de moradores em situação de rua no Rio

Geral
20:29 | Ago. 19, 2021
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Perda de emprego e de moradia e a queda de renda na pandemia levaram muitas pessoas a aumentar o contingente de população de rua na cidade do Rio de Janeiro.

De acordo com a Secretaria Municipal de Assistência Social, o Censo de População em Situação de Rua da Cidade do Rio de Janeiro 2020, que teve o levantamento dos dados no período de 26 a 29 de outubro de 2020, identificou 7.272 pessoas em situação de rua na cidade. Entre elas, 75,2% (5.469) estavam nas ruas e 24,8% (1.803) em unidades de acolhimento e comunidades terapêuticas.

Segundo a secretaria, o Censo mostrou que na população nessa condição, 752 pessoas responderam ter ido para as ruas depois do início da pandemia provocada pela covid-19, aproximadamente 20% do total de pessoas recenseadas. Para a pasta, isso significa que a pandemia levou a um aumento do número de pessoas nas ruas do Rio. O Censo é realizado de dois em dois anos.

O perfil predominante é de homens, negros, com idade entre 18 e 49 anos, e um grande percentual (40,1%) de nascidos fora do Rio. Ainda conforme a secretaria, a maior parte se encontrava efetivamente nas ruas, concentrada em bairros do Centro, Copacabana e Lapa. Os principais motivos que levaram essas pessoas a dormir nas ruas/unidades de acolhimento são: conflitos familiares, incluindo separação; alcoolismo e/ou uso de drogas; demissão do trabalho/desemprego ou perda da renda.

Capacitação

A secretária de Assistência Social, Laura Carneiro, informou que o Senai e o Senac têm apoiado projetos de capacitação com a intenção de preparar as pessoas acolhidas para a volta ao mercado de trabalho. “Não adianta só empregar se a gente não capacitar e tem alguns empresários ajudando”, pontuou.

“O que a gente está vendo nas ruas são as pessoas absolutamente sem dinheiro porque perderam seus empregos. Muitos conflitos familiares. É assustador o número e é um público diferente do público de sempre. É um público que não era e ficou vulnerável”, contou a secretária à Agência Brasil, acrescentando que muitos moradores são de outros municípios do estado e também de Minas Gerais e de São Paulo.

Ações

A atuação de coletivos, de organizações não governamentais e projetos de administrações públicas busca identificar onde estão essas pessoas e levar até elas ações para melhorar a condição de vida. A advogada Pamella Oliveira, uma das fundadoras do coletivo Pretas Ruas, de atendimento a mulheres e homens trans em situação de rua, disse tem notado a presença de muitas famílias nas ruas.

“Muitas pessoas não tiveram mais condições de pagar aluguéis, então, a gente hoje vê muitas famílias nas ruas. As pessoas ficaram sem opção. No Centro [da cidade] a gente tem cinco ocupações na Praça Tiradentes de famílias que saíram de suas casas”, afirmou.

Segundo a advogada foi necessário mudar a forma de trabalhar junto dessa população para poder atender a demanda que cresceu. “A nossa atuação teve que mudar muito, antes a gente fazia um trabalho mais noturno com rondas, mas precisou mudar totalmente e fez parcerias para um coletivo ajudar com banho, outra com lanche, e outra com kit. As ações isoladas que a gente fazia antes da pandemia, hoje não funcionam se a gente não tiver esse trabalho integrado”, revelou.

Entre o dia 1º de janeiro e a terça-feira (17), a Secretaria Municipal de Assistência Social fez 71.664 atendimentos e 6.029 acolhimentos de pessoas em situação de rua na cidade do Rio. Os abrigos da Prefeitura, junto com a rede conveniada, têm 2.600 vagas para atendimento da população em situação de rua. Nesse período de frio intenso foram criadas mais 170 vagas.

Hoje (19), no Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua, a secretaria lançou o Projeto Volta Por Cima, que de forma inédita, é gerenciado por pessoas que estiveram em situação de vulnerabilidade social e tem como objetivo incentivar a reinserção social dos que estão nos abrigos da Prefeitura do Rio.

A data de 19 de agosto foi escolhida em memória do chamado “Massacre da Sé”, em 2004, quando sete pessoas foram assassinadas e oito ficaram gravemente feridas enquanto dormiam na região da Praça da Sé, capital de São Paulo. E foi a partir da tragédia que começou a mobilização de grupos da população em situação de rua para construir o Movimento Nacional da População de Rua, que mantém a luta pela garantia de direitos. Dessa atuação surgiram políticas para esse público.

 

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Rio: ex-morador de rua agora ajuda quem está nesta condição

Geral
19:35 | Ago. 19, 2021
Autor Agência Brasil
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A aproximação de outras pessoas é o que há de mais importante para quem está em situação de rua deixar esta condição de vida. A conclusão é de quem por seis meses teve as ruas da cidade do Rio de Janeiro como casa e superou a dependência química. Léo Motta tem 40 anos e diz que quanto mais cedo alguém aparecer mostrando uma porta de saída, mais fácil fica para a pessoa em situação de rua encontrar outro rumo.

“Quanto mais tempo se passa, mais difícil fica. Infelizmente, a situação de rua adoece mentalmente e as pessoas começam a acreditar que o lugar delas é ali. Quanto mais cedo a gente se aproxima, estende a mão, oferece o acolhimento e a porta de saída, mais há espaço para lidar com essa situação”, explicou em entrevista à Agência Brasil.

Dependente químico e já sem o ofício de garçom que teve por 15 anos, a rua foi o caminho que ele encontrou em dezembro de 2016. O vício em drogas veio antes, após o assassinato de um filho pela esposa em maio de 2003. Aos 35 anos, uma overdose em frente à própria mãe foi o que o fez decidir sair de casa, deixando ainda três filhos, hoje com 23, 15 e 14 anos.

“Por conta própria eu decidi não fazer minha mãe sofrer mais, porque era uma vida de sofrimento. Meus filhos tinham vergonha de mim e minha mãe chorava todos os dias. Então decidi sair de casa e ir morar nas ruas. Fiquei seis meses, depois mais sete meses em uma casa de acolhimento até eu sair de lá trabalhando”, revelou. A casa de acolhimento é Associação Solidários Amigos de Betânia, em Jacarepaguá, na zona oeste da cidade.

Léo Motta contou o número de refeições que fez enquanto estava na casa de acolhimento. Foram 896. O número preciso é resultado de um trauma das ruas. 

“Eu contei as refeições porque na rua fui muito humilhado. Uma vez por sentir fome e outra por sentir sede. Entrei em uma padaria pedi uma senhora para pagar um pão e ela cuspiu no meu rosto. Com sede entrei em um restaurante, o garçom me botou pra fora, perguntou o que eu queria, falei que queria água. Ele voltou com um copo descartável cheio de gelo. Pus na boca e botei tudo para fora. No copo também tinha sal. A instituição foi o único local que me preencheu de novo. Meu nome na rua era vergonha e o sobrenome era derrota”, completou.

Desde janeiro deste ano, Léo Motta é assessor da Coordenação Técnica de Programas para a População de Rua, da Secretaria Municipal de Assistência Social do Rio de Janeiro e é assim que pode ajudar quem passa por uma história que ele conhece bastante.

 

“Sou um homem que usei drogas por 20 anos, morei na rua durante seis meses e hoje sou autor de dois livros. Um eu lancei em 2019 e o outro lanço agora no próximo dia 11, no Museu do Amanhã. Hoje tenho um endereço, a minha casa própria, uma filha de 1 ano e oito meses, conheci o meu pai depois de 38 anos. É até um tema do meu livro, o reencontro. A vida recomeça a partir do momento em que a pessoa aceita passar pelo acolhimento. Na rua ninguém consegue sair só. As pessoas só saem a partir das mãos estendidas”.

Ações

Hoje, no Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua, o Largo da Carioca, no centro do Rio de Janeiro, se transformou em local de diversos atendimentos à população em situação de rua, desde banhos, entregas de kits de higiene, vacinação contra a covid-19, corte de cabelo, almoço, oficinas culturais de cartazes e produção de carta de direitos a ser entregue na Câmara de Vereadores do Rio depois de uma caminhada até a Cinelândia, onde fica o prédio do legislativo municipal e o encerramento com a entrega de lanches. Os organizadores informaram que tudo foi programado com base nos protocolos da covid-19, como distanciamento social, utilização de máscaras e higienização de mãos e superfícies.

Dia Nacional da Luta da População em Situação de Rua
Dia Nacional da Luta da População em Situação de Rua - Tânia Rêgo/Agência Brasil

“Hoje é um dia marcante, um dia em que a gente busca a maior visibilidade para aquelas pessoas que passam invisíveis durante todo o ano. Esse dia hoje tem um símbolo muito especial para quem está lidando com a causa da população em situação de rua e para quem já esteve também em situação de rua. Hoje é um dia nacional em que a população de rua grita. O melhor de tudo é que hoje está sendo um dia de inclusão”, disse o assessor.

As ofertas de serviços foram preparadas por diversas organizações: Porto ComVida, Serviço Franciscano de Solidariedade (SEFRAS), Consultório na Rua, Fundação Leão 13, Projeto Ores, Projeto RUAS – Ronda Urbana de Amigos Solidários, Pastoral do Povo da Rua, Versos & Vozes Projeto Social, Movimento Nacional da População em Situação de Rua (MNPR), coletivos de Educação Popular e Libertária, Geo Sem Fome e Pretas Ruas.

A advogada Pamella Oliveira, uma das fundadoras do Pretas Ruas, disse que o coletivo atua no apoio às mulheres negras e homens trans em situação de rua para combater a pobreza menstrual e ainda com a oferta de kits de higiene e absorventes. “A gente prepara uns mimos para essas mulheres cis e trans e absorventes umedecidos para pessoas que menstruam para que elas tenham um pouco mais de cuidado nesse momento já que é muito difícil encontrar água e local de tomar banho. Ainda mais agora nesse momento de pandemia. Antes tinham alguns lugares para circular e que liberavam acesso aos banhos. Agora ficou mais restrito”, informou.

Data

A data de 19 de agosto foi escolhida em memória do chamado “Massacre da Sé”, em 2004, quando sete pessoas foram assassinadas e oito ficaram gravemente feridas enquanto dormiam na região da Praça da Sé, no centro da capital. E foi a partir da tragédia que começou a mobilização de grupos da população em situação de rua para construir o Movimento Nacional da População de Rua, que mantém a luta pela garantia de direitos. Dessa atuação surgiram políticas para esse público.

A Política Nacional para a População em Situação de Rua, foi instituída por meio de decreto em 2009 e define população de rua como “o grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos e as áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente, bem como as unidades de acolhimento para pernoite temporário ou como moradia provisória”.

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Vaquinha online arrecada dinheiro para mulher em situação de rua que vive na calçada da Uece

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16:13 | Ago. 18, 2021
Autor Alexia Vieira
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Após perder a renda durante a pandemia, Vânia Sousa, 45, acabou precisando deixar a casa em que morava de aluguel no bairro Bom Jardim. Ela passou a viver debaixo de lonas na avenida Luciano Carneiro, no bairro de Fátima. A mulher já está em situação de rua há quatro meses e pede ajuda para custear o valor de entrada em uma casa no antigo bairro.

Fogão, botijão de gás, roupas e até mesmo a alimentação cotidiana são itens conseguidos por doações que recebe de pessoas que passam na rua e decidem ajudá-la. Uma dessas pessoas, Ronner Braga Gondim, 43, resolveu fazer uma vaquinha online para arrecadar R$ 3 mil, que serviriam de entrada para a casa própria de dona Vânia.

“Sempre eu botei vendinha dentro de casa. Depois desta pandemia, eu perdi tudo, foi tudo pro aluguel”, relata Vânia. Ela explica que conseguiu fazer negócio com um conhecido que deixará ela parcelar o resto do valor da casa, que no total custa R$ 9 mil. “Se eu conseguir os R$ 3 mil, dou de entrada e vai ficar pra eu ficar pagando o resto. O resto vou ter que me virar, ou comprar uma coisa pra vender no sinal, ou vir pra cá. Eu vou pra dentro de casa só com o bujão e o fogão”, diz.

LEIA MAIS |  Mães do semáforo: a rotina de mulheres que buscam sobrevivência no trânsito

Ronner explica que já conseguiu metade do valor necessário apenas dentro de sua rede de contatos. “Ela fica no caminho do meu trabalho. Eu resolvi fazer alguma coisa. É uma situação muito difícil”, afirma.

Doações são divididas entre familiares

Apesar de ter familiares que têm moradia, Vânia não pode viver com eles, pois a situação de vulnerabilidade econômica afeta a todos, e as doações que consegue no sinal muitas vezes são o que traz alimentação à família.

“Tudo que eu ganho aqui é dividido pra minha família, daqui eu tiro o sustento pra gente comer, pro meu filho e pra minha filha. As doações de roupas eu boto pra minha filha, e ela vende”, conta Vânia. Na mesma calçada em que mora, ficam também uma irmã e o sobrinho.

Até pouco tempo, Vânia dividia a barraca com um irmão. No entanto, ele acabou falecendo por complicações respiratórias após ter tuberculose. “'Tô' sofrendo muito muito, ele era a pessoa que eu era mais apegada na vida. Eu 'tô' com uma depressão grande”.

Os esforços agora são para arrecadar também doações para os filhos que o irmão deixou, uma menina de 8 anos e um menino de 14, que estão sob cuidados de outros familiares. Além disso, Vânia se preocupa com mais duas crianças que vão nascer na família, pois a filha e a nora dela estão grávidas.

Dona Vania, 45 anos, está há três meses em situação de rua em Fortaleza
Dona Vania, 45 anos, está há três meses em situação de rua em Fortaleza (Foto: Thais Mesquita)

“Ninguém dorme sossegado”

A rotina de Vânia na rua é compartilhada com outras pessoas em situação de vulnerabilidade que pedem dinheiro no sinal de trânsito como forma de conseguir sobreviver. William Ananias, 45, é um dos que compartilham o dia a dia na rua com Vânia. Apesar de morar de aluguel em uma casa, William volta ao sinal para pedir doações e assim comprar uma cadeira de rodas, pois o equipamento que usa é alugado.

“Aqui o pessoal já 'tá' começando a falar, pensa que a gente 'tá' aqui porque quer”, reclama Vânia, que diz ter medo de sofrer algum tipo de violência. “Um dia desses, passou um rapaz de madrugada e disse: ‘Acorda, bando de vagabundo’. Isso a gente entra em depressão. Mas não adianta falar, vai que está armado. Ninguém dorme sossegado”.

Vânia conta ainda que pediu auxílio para o Programa Locação Social (PLS) da Prefeitura de Fortaleza em maio, mas até hoje não teve retorno. Quando questionada sobre o que leva um pedido de aluguel social a ser rejeitado, a Secretaria Municipal do Desenvolvimento Habitacional (Habitafor) respondeu por e-mail que “em geral, o auxílio não é negado”, visto que as demandas de pessoas em situação de rua, em situações emergenciais ou famílias impactadas pelos projetos de urbanização do Município são prioridade no programa.

De acordo com a Habitafor, mais de 300 pessoas que estavam em situação de rua recebem o benefício atualmente. De janeiro até julho de 2021, 336 pessoas solicitaram o aluguel social. A Habitafor explicou que existe uma fila de espera, mas não informou a quantidade de pessoas aguardando, disse apenas que o número é “varíavel”.

Para tirar dúvidas e receber informações sobre processos de aluguel social ou outros auxílios específicos para pessoas em situação de rua, a orientação repassada é para que os cidadãos procurem o Centro de Referência Especializado para a População em Situação de Rua (Centro Pop).

Endereço dos Centro Pop:

Centro Pop Centro
Rua Jaime Benévolo, 1059 - José Bonifácio

Centro Pop Benfica
Avenida João Pessoa, 4180 - Damas

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