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Fortaleza
NOTÍCIA

Adoção tardia: história de cearenses que adotaram adolescente mostra a importância do gesto

Gabriel teve a vida "resgatada" por Ana Paula e Tadeu, que foram contra as estatísticas ao buscarem por uma criança mais velha e abrirem seus corações para acolherem quem, mesmo tão novo, já sofreu tanto

Gabriela Almeida
15:02 | 26/08/2020
Gabriel em meio a sua nova família (Foto: ARQUIVO PESSOAL)
Gabriel em meio a sua nova família (Foto: ARQUIVO PESSOAL)

“Quem diz que adotar adolescente não é satisfatório, não sabe o que é amar”. Essa é a lição que a comerciante Ana Paula Menezes, de 42 anos, residente do bairro Antônio Bezerra, em Fortaleza, tira dos quatro meses em que convive com o filho Gabriel, de 13. Depois de passar quase uma década em abrigos de Quixeramobim, a 184 quilômetros da Capital, a adoção tardia permitiu que o garoto "nascesse"  novamente não de uma barriga - mais de um coração.

O sonho de adotar uma criança existia em Ana Paula antes mesmo de Gabriel existir. No seu primeiro casamento, a comerciante engravidou três vezes e teve duas filhas, mas isso não impediu a vontade de dar entrada em um processo de adoção - que só não foi para frente devido a falta de "conhecimento" do assunto que a comerciária tinha à época.

Anos depois, no segundo casamento, Paula se deparou com o sentimento mais maduro e sentiu que era a hora de realizar o sonho. Junto a Tadeu, seu companheiro que não tem filhos biológicos, procurou a Vara da Infância e Juventude da Comarca de Fortaleza e deu, finalmente, entrada no pedido de adoção.

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O casal, que há mais de oito anos vive junto, foi na contramão da maioria dos adotantes e optou pela adoção tardia. Esse foi o passo fundamental para que o destino de Gabriel, junto da irmã biológica Gabriele - mais velha quatro anos e que vivia sob o mesmo abrigo que ele, se entrelaçasse de vez com o da família de Ana - que considera esse encontro como "um sinal de Deus".

Religiosa, a comerciante conta que ficou sabendo sobre os dois irmãos e, na mesma hora, sentiu que eles seriam seus filhos, mas apenas Gabriel teve interesse em se vincular ao casal - pois sua irmã desistiu do processo. Passando para a etapa de ligações, foi preciso três dessas para que o garoto chamasse pela primeira vez Ana e Tadeu de mãe e pai, respectivamente.

"Foi aquela paixão. Não tem como explicar (...) A nossa família é baseada em conversa, em sentimentos, em respeito e em carinho. O Gabriel veio para somar tudo isso. Parece que ele foi feito para a gente”, emociona-se Ana ao relatar convivência que mantém com o adolescente, afirmando ainda que ganhou - além de um filho, um novo amigo.

Mas até que o processo fosse oficializado, foram três meses entre ligações, período de convivência e guarda provisória do casal. Somente nessa última semana, a Defensoria Pública do Estado (DPCE), em Quixeramobim, ajuizou ação e tornou real o sonho de Ana, permitindo que o garoto assumisse o sobrenome dela e do marido.

O preconceito por trás da adoção tardia

Com duração de três meses, o processo de adoção tramitou de forma rápida quando em comparação a outros casos. De acordo com o defensor público Jefferson Leite Dias, que deu entrada na ação, isso ocorreu devido ao fato de que os adotantes desejaram um perfil "fora da faixa preferencial" ao optar por uma adoção tardia.

O termo se refere a crianças ou adolescentes, entre 6 e 17 anos, que estão disponíveis para a doação. Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça, até maio deste ano existiam 898 crianças acolhidas em instituições somente no Ceará, a maioria (220)  maiores de 15 anos.

De acordo com o defensor, dentro dessa faixa, os adolescentes são os que menos "interessam" adotantes. "Existe um receio porque no período da adolescência a pessoa já tem um certo hábito. Quem entra com o processo de adoção teme que, quanto mais velha a criança seja, mais se torne difícil adequar ela ao ambiente familiar", pontua.

Por esse motivo, Jefferson explica que os adotantes geralmente buscam por crianças de um ou dois anos,  pois eles ainda não tem “lembranças” do pai e da mãe”. Dessa maneira, o sonho de começar uma nova vida fica cada vez mais distante para quem não se enquadra no perfil majoritariamente procurado.

O defensor lamenta essa realidade, uma vez que acredita que basta ter "vontade de amar, de dar carinho e de dar uma nova chance" para que adoção aconteça. "Esse grupo tardio é o que mais precisa ser adotado pois é o que mais sofreu. Apesar de ter uma breve vida, já carrega experiências de uma vida toda. Adotem eles, pois com certeza vão responder com muito carinho e amor, como o Gabriel está respondendo agora", faz ainda um apelo.

As primeiras vezes em família

Driblando as estatísticas, Gabriel ganhou uma nova chance de viver e sentir o mundo. De forma divertida e e emocionada, Ana Paula conta que a primeira vez em que o garoto dormiu com os pais e com uma das irmãs, ele não conseguiu fechar os olhos e passou a noite toda "desconfiado", como quem não acredita que finalmente se tornou parte de uma família.

Depois de um tempo, o adolescente foi ficando mais confiante e explorando ambientes junto aos pais e à irmã mais nova, já que a mais velha mora atualmente em outro estado. "As pessoas falam que não querem adotar porque não vão ver o filho sentindo algumas coisas pela primeira vez, mas não é assim", defende a comerciante, mostrando alguns registros que guarda de Gabriel.

Nas gravações, é possível assistir quando o garoto foi ao shopping pela primeira vez e, com ajuda do pai e sob risos da irmã, desceu a escada rolante. Em todos os momentos, seus olhos brilhavam como os de uma criança, grandes de admiração, decifrando cada pedaço daquele prédio enorme e explorando um sentimento já tão conhecido para outros garotos, mas que a sua dura infância em abrigos o roubou.

Antes de entrar, houve ainda um momento mais marcante. Ao pisar no estacionamento do local, Gabriel não se conteve e chorou. Do momento a mãe não tem registro porque se emocionou e chorou junto ao filho, mas conta que não consegue descrever a sensação de estar dando a oportunidade ao garoto de ter uma vida do jeito como ele merece.

Outros momentos assim aconteceram quando Gabriel falou "mãe", foi a primeira vez para serra ao lado dos pais, deu o primeiro abraço na família, experimentou hambúrguer e, o mais especial, passou o primeiro dia dos pais com um pai. Tadeu também nunca havia passado o momento ao lado de um filho, o que tornou tudo ainda mais inesquecível.

"Até o ano passado eu tava em um abrigo. Fiquei muito feliz quando as minhas tias disseram que eu ia ter uma nova família e sou muito grato a essa família (...) É o meu primeiro Dia dos Pais com um pai, sou muito grato a ele e agradeço muito por ele ter me dado amor e carinho. Por ele ter me recebido com amor no coração dele", se declara o garoto em uma gravação caseira, revelando o presente que comprou para Tadeu e completando "é pequeno mas é com amor. Te amo pai. Feliz dia dos pais. Hoje é o seu dia".

Emocionada, Ana conta que "descobrir" o mundo ao lado do filho tem a feito olhar diferente para a vida e viver sentimentos que nunca "imaginou" sentir. “ Adoção tardia é linda. São crianças que tiveram uma vida tão dura que até um simples beijo de boa noite já as transforma", afirma a mãe.

Agora, o casal tenta mais uma vez adotar Gabriele, irmã biológica do garoto que voltou atrás na decisão e também deseja pertencer a família. Em uma das ligações da adolescente, de 17 anos, a garota indagou o motivo de Ana e o Marido não terem desistido dela. Com o amor e a certeza que só o coração materno possui, Ana respondeu: porque uma mãe nunca desiste do seu filho.

Veja as fotos de Gabriel com a nova família:

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Quer dar entrada com um pedido de adoção? Saiba como:

Para mudar a história de outras milhares de crianças e adolescentes que, assim como Gabriel, aguardam por uma nova oportunidade de vida, a DPCE listou os passos que devem ser seguidos. De acordo com órgão, o adotante precisa ser maior de idade e ter no minimo 16 anos de diferença em relação ao adotado.

Não há exigência em relação ao estado civil ou à sexualidade de quem adota, sendo assim possível que pessoas solteiras e homoafetivas realizem esse gesto de amor. Todo processo é gratuito e tramita nas varas da Infância e Juventude.

1: O primeiro passo é procurar o Fórum/Vara mais próximo e levar os seguintes documentos: cópias autenticadas da certidão de nascimento/casamento ou declaração relativa ao período de união estável; cópia do RG; cópia do CPF; comprovante de residência; comprovante de renda; atestados de sanidade física e mental; certidão negativa de distribuição cível e certidão de antecedentes criminais.

2: Em seguida, o candidato vai passar por um processo avaliativo, feito por uma equipe multidisciplinar do Poder Judiciário. Nesse momento, os técnicos buscam entender e analisar aspectos como as motivações por trás do pedido.

3: O candidato passa então por um "programa de preparação". Nessa etapa, ele é submetido a informações sobre o que é adoção, quais as dificuldades que podem ocorrer no período inicial de convivência, como lidar com à criança ou adolescente e tem todo amparo psicológico para dar sequência ao processo.

4: Depois de entrevistar e conhecer o candidato, é enviado um parecer técnico ao Ministério Público, que deve analisar caso e encaminhar processo para que o juiz da Vara decida se o possível adotante está apto para ação. Caso a resposta seja positiva, ele tem o registro realizado no Cadastro Nacional de Adoção (CNA). 

5: É somente ai que começa a busca por uma criança ou adolescente que se enquadre no perfil desejado pelo candidato. Após encontro e uma aproximação gradual, adotante passa por uma fase de convivência (que pode durar até 90 dias) e constrói uma relação de afeto, fundamental para que a nova família se mostre estável e que ação seja, enfim, ajuizada.