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Fortaleza
NOTÍCIA

A realidade da educação nas comunidades de Fortaleza durante a pandemia

Salas vazias e dificuldade no acesso ao ensino a distância pode facilitar recrutamentos de adolescentes em facções criminosas. Relatos de moradores mostram experiências da pandemia

Júlia Duarte
15:34 | 17/07/2020
A pandemia gerou impactos que não são sentidos da mesma forma nas diferentes partes da cidade, entre eles, a suspensão das atividades presenciais nas escolas, o que "não é o mesmo que educação a distância (EAD)" (Foto: Fabio Lima)
A pandemia gerou impactos que não são sentidos da mesma forma nas diferentes partes da cidade, entre eles, a suspensão das atividades presenciais nas escolas, o que "não é o mesmo que educação a distância (EAD)" (Foto: Fabio Lima)

Esvaziamento de escolas, cursos complementares com portas fechadas, polos de lazer sem funcionar, dificuldades em acompanhar o ensino à distância. O período de isolamento social impacta diretamente na juventude, principalmente em relação à educação, dinâmicas sociais e violência. A escola, aliada das famílias, hoje funciona de forma remota, mas não consegue alcançar a todos. E os problemas históricos se acentuam, com crianças e adolescentes mais expostos.

Números da Superintendência do Sistema Estadual de Atendimento Socioeducativo (Seas) mostram que, entre março e junho deste ano, 465 adolescentes ingressaram no Sistema. Foram 225 a menos do que no mesmo período de 2019. Outras estatísticas dão conta de que, entre janeiro e maio, 798 jovens entre 12 e 24 anos foram assassinados no Ceará. O dado foi divulgado em nota pública pelo Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca) do Ceará com o Fórum Popular de Segurança Pública do Ceará (FPSP) e a Plataforma de Direitos Humanos – Dhesca.

Entre março e junho de 2020, o sistema recebeu 225 jovens a menos para cumprir medidas socioeducativas no Ceará que o mesmo período de 2019
Entre março e junho de 2020, o sistema recebeu 225 jovens a menos para cumprir medidas socioeducativas no Ceará que o mesmo período de 2019 (Foto: Mauri Melo)

A compilação foi feita a partir de registros da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) e apontam para o aumento de mais de 100%, na comparação com os cinco primeiros meses de 2019. “Apesar dos dados oficiais não destacarem a questão da raça nos homicídios, sabemos que historicamente são os meninos e meninas das periferias, em sua maioria negros e negras, que têm suas trajetórias de vida interrompidas”, afirmou o assessor jurídico do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca), Bruno de Sousa.

Sousa afirma também que a pandemia gerou impactos que não são sentidos da mesma forma nas diferentes partes da cidade, entre eles, a suspensão das atividades presenciais nas escolas, o que “não é o mesmo que educação a distância (EAD)”. “Sabemos que uma parcela dos estudantes não está tendo acesso à Rede de Ensino e esses processos de exclusão não podem ser invisíveis”, defende.

 

 

O fato sob os olhos de quem sente na pele. A falta que a escola faz

Essa realidade é sentida de perto por quem vê as dificuldades diárias impostas aos jovens após início da pandemia. A coordenadora do movimento de Mulheres Orquídeas, Silvana Vieira, mora há 22 anos no Parque Santana, comunidade situada no Grande Mondubim, e conta que nunca sentiu tanto como agora a “normatização” da violência, com tiros e fogos constantes.

Ela relata o que vê e o que escuta dos depoimentos da rede de mobilização de outras mulheres do bairro: adolescentes envolvidos com drogas, cada vez mais novos sendo abordados. “É muito triste ver meninos com 13 ou 14 anos sendo ‘aviãozinho’ , entrando nos números da drogadição”, reflete. Segundo o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE), o termo “aviãozinho” é usado para se referir a um indivíduo que faz o repasse de drogas, pratica a venda ou apenas transporta droga para alguém.

E a escola, que antes era uma aliada, tem deixado lacunas que modelo de ensino à distância não tem conseguido preencher. O não funcionamento das creches também impacta, porque impede que muitos jovens, que já se tornaram pais e mães, voltem aos estudos. Silvana descreve as pelejas para muitos terem acesso à internet.

De acordo com ela, nem todas as casas têm internet ou condições favoráveis ao ensino à distância, como espaço certo para estudar e a disponibilidade dos pais para conseguir acompanhar as atividades dos filhos. “Não é por maldade ou intenção. Na vida corrida, com muitos já voltando ao trabalho com a reabertura da economia ou com as tarefas domésticas - em maior quantidade com tantas pessoas em casa- fica difícil ter tempo e disposição para cuidar dos trabalhos escolares”, afirma.

Sem Internet

Pais se dividindo em várias funções e casas sem internet são os relatos mais ouvidos pelo graduando em História, Michael Gomes, que nas escolas no Dendê. Ele realiza busca ativas, ligando ou tentado de alguma forma contatar alunos de oito escolas do distrito de educação. No processo, ele conta que, assim como acontece em outros bairros, muitos alunos não conseguem acompanhar as aulas. “O processo de EAD não está rolando. Para o aluno da periferia é outra coisa. Eu tento ligar e, às vezes nem chama, o telefone não existe mais. Quando pergunto aos pais sobre isso, eles falam sobre não ter internet ou não ter tempo, com a rotina apertada”, conta.

Michael, que também é coordenador do Coletivo Dendê de Luta, cresceu no bairro e reflete sobre as trajetórias de vida dos jovens. Colegas da escola, amigos ou alunos que seguiram diferentes caminhos. “Os meninos que eram da escola se colocaram nas facções por vários motivos: na falta do que fazer ou na necessidade de uma causa de pertencimento. Quando eu vejo colegas de infância, tanto do lado quanto do outro, em facções diferentes, sei que a escola perdeu a disputa”, afirma.

Nessa pandemia, o Dendê de Luta tem realizado lives artísticas e oficinas organizadas via redes sociais. O objetivo é se reinventar e manter a “cabeça cheia” e sem aglomerações. A prática, segundo Michael, tem dado certo, apesar de muitos jovens ainda estarem presencialmente em festas, o que não segue as medidas de isolamento social em vigor no Estado.

Uma mão tem lavado outra nas periferias

No Vicente Pinzón, a união foi uma saída para engajar os jovens em atividades. O desejo de ajudar tem aflorado, seja com ações de voluntariado como a entrega de cestas básicas, seja na produção de materiais de higiene como sabão e máscaras. É o que conta Jairo do Morro, articulador comunitário e diretor local de juventude da Federação de Entidades de Bairros e Favelas de Fortaleza (FBFF).

Em meio ao aumento de índices de violência, ele celebra que esse momento foi usado também para que os jovens pudesse se reinventar e permanecer bem emocionalmente. Jairo lembra dos relatos que escutou de jovens extremamente tristes e afetados pelo isolamento e a suspensão, não só das atividades escolares, mas de práticas artísticas e esportivas. Usando a rua como válvula de escape para a pressão, mesmo que desrespeitando as medidas de isolamento.

“Eu vi quatro tipos de jovens: o jovem triste e desmotivado; o jovem da igreja, o jovem que se engajou e o pessoal da rebeldia. Esses se rebelaram e é importante observar que esse jovem já não tem a escola como foco da sua vida, vai por desejo dos pais para que tenham uma vida melhor”, observa.

Os números do ensino remoto

No acompanhamento que o Cedeca tem feito a um Procedimento Administrativo que tramita no Ministério Público Estadual, foi informado em maio, pela Secretaria de Educação (Seduc), que no Estado existiriam mais de 60 mil estudantes da rede estadual totalmente excluídos do processo de ensino e aprendizagem. O motivo seria a falta de acesso à tecnologia de comunicação capaz de proporcionar a interação necessária.

Outros 9,9% do total de alunos da rede estadual teriam acesso a partir da “internet do vizinho”. Em Fortaleza, segundo a Secretaria Municipal de Educação (SME), 3% dos alunos, ou seja, 6.930 alunos, não estão participando das atividades propostas.

Em Fortaleza, a SME monitora diariamente as devolutivas das atividades e a interação dos estudantes. Além disso, em parceria com o Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação (Sindiute) estão disponíveis aos alunos, desde o fim de março, atividades pedagógicas em regime de domicílio.

Através de nota, a Secretaria da Educação do Ceará (Seduc) afirmou que o primeiro semestre foi finalizado. E informou que “as escolas estaduais construíram seus planos de atividades, com alternativas para atender aos que têm acesso às tecnologias e aos que precisam receber atividades impressas, pelo rádio ou pela TV, por exemplo”. A pasta ressaltou ações com a finalidade de manter o vínculo entre escola e alunos, incluindo as famílias.

Informa ainda que, logo que as atividades presenciais voltem, os jovens que não tiveram “a oportunidade de vivenciar essas atividades será acompanhado para que prossiga com sucesso em sua aprendizagem”.

Questionada sobre a frequência dos alunos, a pasta afirmou que “está respeitando o período oficial de férias escolares e voltará a atualizar os dados em agosto. Portanto, não é possível confirmar esse número agora”.

NÚMEROS

- Entre março e junho de 2019, 690 novos adolescentes entraram no sistema socioeducativo no Ceará.

- No mesmo período de 2020, foram 465 novos jovens a entrarem no sistema.

- Entre março e junho de 2019, 89 jovens saíram do sistema, isto é, tiveram medidas extintas.

- Entre março e junho de 2020, 105 jovens saíram do sistema (adolescentes que tiveram as medidas extintas pelo Sistema Judiciário)