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Fortaleza
NOTÍCIA

IFCE Fortaleza tem apenas dois intérpretes de libras. Ideal seriam oito

O número ideal de servidores que atendam a alunos surdos no campus do IFCE de Fortaleza é quatro vezes menor que a demanda

16:13 | 17/03/2020
Estudantes surdos do IFCE estiveram reunidos no Ministério Público. Foto: Arquivo pessoal
Estudantes surdos do IFCE estiveram reunidos no Ministério Público. Foto: Arquivo pessoal (Foto: Arquivo pessoal)

O número de intérpretes da língua brasileira de sinais (libras) para estudantes surdos no Instituto Federal do Ceará (IFCE), campus Fortaleza, é quatro vezes menor que a necessidade. A instituição tem dois servidores com a capacitação e um total de quatro estudantes com a deficiência auditiva: dois alunos do curso de Guia de Turismo, um de Licenciatura em Matemática e um de Artes Visuais. Segundo Nádia Ribeiro, vice-coordenadora do Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Específicas (Napne), do IFCE, o número adequado para o cargo é o de dois servidores por estudante.

A quantidade é essa por conta do grau de exigência para o cargo. O servidor se desgasta e é necessário realizar um revezamento da função. A cada 40 minutos, é preciso dar uma pausa e outro tradutor assumir. No campus Fortaleza do IFCE, um dos dois intérpretes está de licença médica. “A contratação via concurso não é mais possível. Então estamos esperando por iniciativa dos superiores. O cargo de intérprete foi extinto, então fica invalidado concurso público. Teria de avaliar a contratação temporária ou a terceirização, que não é a ideal”, informa Nádia.

Libras é a primeira língua dos surdos, e não o português. A falta de tradução pode significar, ainda de acordo com Nádia, um prejuízo não somente linguístico, mas também pedagógico. O IFCE tem um total de 14 intérpretes para atender aos 34 campi e 184 alunos com vários tipos de deficiência. Em todos os campi, o Instituto tem 24 estudantes com deficiência auditiva, 11 estudantes com surdez. “A partir de 20 minutos, o intérprete já sofre sobrecarga no trabalho. O máximo de tempo consecutivo é de 40 minutos”, avisa. Outro ponto importante é que os servidores devam ser formados em áreas afins aos dos alunos para conseguir interpretar corretamente a linguagem do professor para libras.

Cerca de 30 estudantes, entre surdos e ouvintes do IFCE, inclusive, estiveram em uma manifestação no último dia 4 de março, na sede do Ministério Público Federal, em Fortaleza. Os alunos entregaram um documento afirmando que o reitor do IFCE descumpre a legislação federal de acessibilidade.

Segundo o pró-reitor de Gestão de Pessoas do IFCE, Ivam Holanda, um concurso foi realizado no ano de 2016 para a contratação, em 2017, de 12 tradutores de libras. No entanto, o certame teve somente três pessoas aprovadas. “A carência de profissionais é em todos os campi”, informa. Uma possibilidade que foi levantada pelo pró-reitor foi a de realizar o aproveitamento de outros concursos para a área no Nordeste e fazer a redistribuição de vagas. A medida não foi bem-sucedida porque nenhum dos concursos da região teve candidatos classificados disponíveis para assumir as vagas do Ceará.

Não são somente os alunos surdos sofrem prejuízo pelo desrespeito à legislação de acessibilidade. Holanda informa que pessoas com outros tipos de deficiência, como os estudantes cegos, também sofrem com a falta de intérprete. Eles precisam de apoio de tradutores para descrever o que está sendo colocado na sala de aula, na lousa, por exemplo.

Outra possibilidade apontada pelo pró-reitor seria a contratação direta via licitação. Os orçamentos limitados dos IFs no Brasil, no entanto, segundo ele, inviabilizam esse tipo de solução. “A questão do tradutor é um conjunto complexo. Estamos estudando a possibilidade de fazer parcerias com cooperativas ou associações de surdos”, avisa. Holanda deve consultar, nas próximas semanas, a Procuradoria Federal para ver a viabilidade dessa contratação.

Alunos impactados

Henrique Sousa, 26, aluno do primeiro semestre do curso de Artes Visuais do campus do IFCE, em Fortaleza, nasceu surdo. A emoção da possibilidade de cursar uma faculdade para o jovem foi quase perdida quando ele percebeu que não teria intérprete disponível para todas as aulas. “No dia em que não tem intérprete é praticamente uma aula perdida porque ele não entende quase nada”, lamenta a mãe, a dona de casa Maria Sousa, 45.

Weverson Martins, 24, com deficiência audititva, está no 5º semestre de Pedagogia/ Libras, na Universidade Federal do Ceará, e cursa o 2º semestre de turismo no IFCE. "Aqui estamos sendo prejudicados por falta de acessibilidade. Os dois intérpretes estão sobrecarregados. E não conseguem atender todas as demandas", diz. Ele conta que o curso tem muitas viagens técnicas, que são obrigatórias na formação de guia. "Sinto meus direitos de estudante do IFCE serem cerceados devido a falta de acessibilidade", lamenta. "Em sala e em momentos de estudo em grupo não temos intérpretes disponíveis, porque eles já estão em sala com outros alunos. Eles estão tendo que se virar para atender o que podem", lamenta.