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Venezuelanos estão presos no Ceará há quase um mês; defesa alega que Polícia teve conduta abusiva

Luis Felipe Orta Orono e Said Miguel Flores Santana foram autuados por roubo de celular. De acordo com testemunhas, policiais encapuzados invadiram a casa dos acusados mesmo sem mandato de prisão ou evidências de culpa. CGD investiga caso

18:39 | 02/03/2018
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Atualizada às 10h10min do dia 3/3/2018

[FOTO1]Fazia apenas uma semana que os venezuelanos Maria Isabel Rodrigues, 52, Luis Felipe Orta Orono, 29, e Said Miguel Flores Santana, 20, haviam chegado à Capital cearense. A vida da família foi virada de cabeça para baixo com a súbita prisão dos dois homens. O motivo foi o suposto roubo de um celular, que teria sido rastreado pela Polícia até a residência. Apesar dos esforços de familiares e vizinhos que presenciaram o ocorrido e garantem a inocência da dupla, os venezuelanos continuam presos, atualmente no Centro de Triagem, em Itaitinga, mesmo quase um mês depois do ocorrido.

Era uma noite de segunda-feira, dia 5 de fevereiro, por volta das 20h30min, no Papicu, próximo à lagoa que leva o nome do bairro. A técnica de enfermagem Isabel, esposa de um dos acusados, conta que teve duas surpresas: a primeira, um homem que passou correndo com algo nas mãos e jogou por baixo do portão de sua casa. A segunda, policiais que, segundo ela, arrombaram a porta e agrediram ela e os familiares. “A Polícia já chegou quebrando tudo. Eles não queriam saber se tinha sido eles que tinham cometido o crime, já chegaram acusando”, lembra.

A operadora de supermercado Leide Conceição, 38, vizinha da família e locatária da casa onde ela morava, relata que policiais da Polícia Militar e da Força Tática (viaturas 8111 e 8311, respectivamente) chegaram à região encapuzados e com os nomes de identificação escondidos. Ela diz que, quando os oficiais arrombaram a residência, já estariam com o celular roubado, já que este estaria debaixo do portão mas do lado de fora da casa. “Eu tentei falar para eles (os policiais) que a família tinha passado o dia em casa e não era culpada. Eles foram agressivos, me mandaram calar a boca e um deles falou ‘morou em favela é vagabundo’”, conta.

Conforme Isabel, a família inteira foi levada primeiro ao 9º Distrito Policial (DP), mas foram transferidos posteriormente ao 2º DP. Após uma volta para o 9º, a dupla acabou presa no 2º DP no fim da madrugada. Isabel foi liberada pelos policiais com marcas das algemas nas mãos e hematomas pelo corpo devido às agressões que sofreu, segundo relato.

A situação se complica pois a vítima do assalto, que aconteceu na Varjota, reconheceu os venezuelanos, segundo os delegados. Vizinhos que testemunharam o ato da Polícia dizem que tentaram registrar Boletim de Ocorrência sobre o caso, mas não foram escutados, já que a delegacia considerava o caso concluído por se tratar de um flagrante. A defesa dos venezuelanos tenta conseguir acesso a câmeras próximas ao local do crime para tentar provar a inocência dos mesmos.

O advogado de defesa do caso, Renato Portela, revela que já foi feita uma audiência de custódia para permitir que os réus ficassem em liberdade provisória. O pedido foi negado para evitar uma possível fuga e porque os acusados são imigrantes, segundo Renato. Outra dificuldade encontrada é a de convencer outras testemunhas que não são próximas à família a depor. “Teve pessoas que viram a pessoa que passou (o possível assaltante), mas têm medo de falar e serem expulsos de suas casas por questão de facção”, afirma. Foi dada entrada a um pedido de audiência, que ainda não tem data.

“Eles estão equivocados, a gente é de bem, a gente é trabalhador”, suplica Isabel, que menciona que seu marido, Luis, trabalhava como barbeiro e o primo dele, Said, como garçom. Ela também afirma que dinheiro em dólar que a família portava na residência e seu aparelho celular foram apreendidos pelos policiais, mesmo tendo devidas notas fiscais.


A Secretaria da Justiça e Cidadania do Estado do Ceará (Sejus/CE) informou ao O POVO Online que os venezuelanos estão presosm porque a Justiça assim determinou, após passarem pela audiência de custódia. A assessoria acrescentou que, depois da audiência, eles foram encaminhamos ao Centro de Triagem e Observação Criminológica, onde podem ficar por até 45 dias. Portanto, salientou, a situação é regular.

 

O POVO Online também entrou em contato com o delegado responsável pelo 2º DP, onde os venezuelanos ficaram inicialmente presos. O profissional disse que responderia às perguntas por email. Até o fechamento desta matéria, não foram obtidas respostas.

A Controladoria Geral de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública (CGD) também foi consultada em relação ao relato de ação abusiva dos policiais. Em nota, a assessoria informou que “já instaurou procedimento disciplinar para apurar os fatos”.

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