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Fortaleza
Ataques em Fortaleza

Seis perguntas ainda não respondidas sobre a chacina do Benfica

Série de atentados no bairro deixou sete pessoas mortas na noite de sexta-feira, 9

16:22 | 12/03/2018
(Foto: O POVO Online)
 
A quarta chacina registrada no Ceará neste ano foi também a que mais se aproximou do Centro da Capital. A ação foi testemunhada por multidão que estava no local das mortes. Além dos relatos, as investigações devem avançar com a prisão do primeiro suspeito de participar dos ataques no Benfica. Contudo, algumas perguntas ainda deixam dúvidas sobre o que aconteceu na noite da última sexta-feira, 9, na Praça da Gentilândia e em ruas próximas, por onde o crime se estendeu.

Ao todo, sete pessoas morreram. Três foram na praça, próximo a bares da área. Separados por minutos de diferença, no segundo front do massacre, outro grupo de suspeitos chegou à Vila Demétrios, onde está localizada a sede da Torcida Uniformizada do Fortaleza (TUF). Lá, uma pessoa foi morta. 

Quando os autores da matança saíam do reduto tricolor, dois outros membros da organizada, vestidos com camisetas do time, chegaram em uma motocicleta, um deles foi assassinado. Dois homens ficaram gravemente feridos e faleceram no Instituto Doutor José Frota (IJF).

O POVO Online já mostrou tudo que se sabe sobre o massacre. Agora, a reportagem listou algumas perguntas ainda sem resposta sobre a chacina do Benfica.
(Foto: O POVO Online)

1. Qual a motivação do crime?
O secretário da Segurança Pública e Defesa Social André Costa informou que as polícias trabalham com várias linhas de investigações. Contudo, segundo ele, um dos suspeitos identificados — ainda não há a confirmação se é o mesmo que foi preso — estaria envolvido na briga de torcida que ocorreu no último jogo entre Fortaleza e Ceará, no domingo, 4. À época, duas pessoas ficaram gravemente feridas no confronto que ocorreu no bairro Henrique Jorge. 

A tese do titular da Pasta é reforçada pela apuração de que os homicidas que agiram na sede da TUF atiraram aleatoriamente, sem alvo definido. E, quando eles saiam do local, mataram também um jovem que estava com a camiseta da equipe de futebol na rua Joaquim Magalhães. 

Já as organizadas do Ceará e do Fortaleza negam essa hipótese. A Torcida Organizada Cearamor (TOC) lançou nota lamentando a matança e se solidarizando aos familiares das vítimas. Um dos dirigentes da TUF classificou o ato como “terrorista”. “É ato aleatório. Não tem explicação, não foi vingança (de uma torcida rival)”, ressaltou. 
 
Por outro lado, tanto o homem preso quanto os outros dois com com prisão preventiva determinada são membros da facção Guardiões do Estado (GDE). Uma das prováveis motivações da chacina seria a briga por território na venda de drogas. A outra teria sido por conta da apreensão recente de armas de um traficante. 
(Foto: O POVO Online)

2. Quantas pessoas participaram da ação? 
Segundo o secretário da Segurança Pública, no caso da Gentilândia, pelo menos três pessoas atuaram no crime. Eles estavam em um carro Honda Civic. Nas proximidades da sede da TUF, seriam outras duas pessoas promovendo as mortes. Ainda há divergências sobre o veículo que eles usavam. Segundo a SSPDS, o modelo flagrado pelas câmeras de vigilância é diferente do relatado por testemunhas.

Neste domingo, 11, os investigadores localizaram um fiat Punto em um prédio no Meireles. Segundo a Pasta, o carro foi filmado passando pela região do massacre. Por meio do rastreamento, os policiais chegaram até o primeiro suspeito, que foi preso. Na chacina, existiria ainda uma pessoa em cada carro de apoio, segundo o secretário. A quantidade de pessoas no interior de cada veículo não foi informada. As testemunhas ouvidas pelo O POVO Online também não conseguiram estimar a quantidade de autores da ação.
(Foto: O POVO Online)

3. As mortes na Praça da Gentilândia e na TUF foram coordenadas pelo mesmo grupo?
Apesar de as mortes nas duas frentes de ataques terem ocorrido quase que simultaneamente, o secretário da Segurança Pública não descartou que elas poderiam não ter ligação. O argumento que reforça essa teoria é que houve diferença no modus operandi dos ataques. Conforme revelou André Costa, na Praça, os alvos foram previamente definidos, o que não ocorreu na TUF, segundo o titular da Pasta. 

4. O Comando Vermelho (CV) foi o responsável pela chacina?
Na manhã seguinte à chacina, um vídeo divulgado em redes sociais atribui ao Comando Vermelho (CV) a autoria dos ataques. A gravação mostra os momentos seguintes à série de crimes. As imagens foram gravadas por pessoas que estavam no local. Contudo, o material foi editado e é possível ouvir músicas exaltando a organização criminosa e comemorando a morte das pessoas. 

No mesmo dia, André Costa comentou o vídeo quando falava dos responsáveis pelo crime. Para ele, a intenção da facção foi desviar a atenção dos verdadeiros autores da ação. 
(Foto: O POVO Online)

5. Afinal, foram quantos feridos?
De acordo com o número oficial divulgado pela SSPDS, até sábado, duas pessoas estavam internadas no Instituto Doutor José Frota (IJF). Contudo, conforme O POVO Online apurou na unidade de saúde ainda na manhã do dia seguinte ao massacre, pelo menos três pessoas estavam internadas. Além de um homem de 22 anos baleado no pé, havia ainda uma mulher de 25 anos atingida no braço e na barriga e um rapaz, de idade não informada, baleado na cabeça. 

Há ainda feridos não contabilizados pela contagem oficial, com escoriações leves, como o rapaz que relatou ter sido atingido de raspão por bala na perna. Ele foi atendido e liberado. "Um dos caras caiu morto em cima de mim e uma bala pegou na minha perna", contou. 
(Foto: O POVO Online)

6. O massacre teve relação com outras chacinas ocorridas neste ano?
A chacina do Benfica foi a quarta registrada neste ano no Ceará. Até então, todas tiveram relação com briga entre facções criminosas. No caso de Maranguape, quatro homens foram mortos enquanto dormiam em uma casa no alto da serra, em 7 de janeiro. No caso da maior matança registrada no Ceará, quando 14 pessoas foram mortas em 27 de janeiro no bairro Cajazeiras, a autoria é atribuída ao grupo Guardiões do Estado (GDE), a quem também é responsabilizado o primeiro massacre. 
 
Os dois grupos voltaram a brigar na Cadeia Pública de Itapajé, em 29 de janeiro deste ano. Dessa vez, os dez mortos foram da GDE. Ainda sem motivação revelada, uma das linhas de investigação da polícia considera a hipótese de o crime ter sido praticado por facção criminosa. O que reforça essa linha é que materiais entorpecentes foram encontrados com algumas vítimas da chacina do Benfica. A SSPDS não informou a quantidade do material.
 
Com o homem preso também foram encontradas armas e munição, o que indica que ele poderia pertencer a alguma organização criminosa. Ele o os outros dois já identificados e com mandado de prisão expedido seriam integrantes do GDE, conforme apurou O POVO Online.

Clique na imagem para abrir a galeria (Fotos: O POVO)
Locais onde ocorreram ataques no bairro Benfica

IGOR CAVALCANTE