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Opinião: Eles não eram "pirangueiros", senhor Delci

10:40 | 25/03/2018
Nos primeiros meses de 2016, foram registrados ao menos 26 atentados no Ceará contra prédios públicos, ônibus e topiques. Um carro foi encontrado com 13 quilos de explosivos nas proximidades da Assembleia Legislativa. Disparos foram realizados contra delegacias e a sede da Secretaria da Justiça (Sejus). A Câmara Municipal de Sobral foi incendiada. Na época, o então secretário da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), Delci Teixeira, disse se tratar de "pirangueiros", ou seja, de criminosos com menos potencial ofensivo. Teixeira criticou a “glamourização” dos ataques e a ênfase dada a seus autores: “Qualquer pirangueiro que joga uma pedra no vidro da janela de uma delegacia, por exemplo, já é considerado o novo Al Capone. Aí, chega no presídio como se fosse um bandido de extrema periculosidade”.

[SAIBAMAIS]Em uma coluna de julho daquele mesmo ano, escrevi: "Os atentados atribuídos anteriormente aos 'pirangueiros' continuaram a ser realizados e foram se agravando. As pedras deram lugar às pistolas e pela primeira vez o poder público reconheceu tratar-se de uma ação coordenada por lideranças de dentro da cadeia. A arregimentação de pessoas dispostas a enfrentarem o Estado mostra que tais grupos são capazes de atuar com desenvoltura dentro e fora das grades. A atuação mais ostensiva das organizações criminosas no Ceará — cujos efeitos no cotidiano da população eram compreendidos como uma 'brincadeira' pelo governador Camilo Santana em janeiro de 2016 — assumiu uma proporção de desafio aberto, capaz de colocar em xeque a capacidade do Estado de proteger seus agentes.

Após realizar um atentado contra policiais, o status do pirangueiro se modifica entre seus pares. Se isso é resultado de uma 'glamourização', ainda assim tal fenômeno não pode ser desconsiderado. Pelo contrário. Se pessoas envolvidas em crimes de menor potencial ofensivo sentem-se com a disposição necessária para alvejar viaturas e atentar contra a vida de policiais fardados, temos aí um cenário bastante inquietante. São sinais de que o temor e o respeito que havia pelos profissionais de segurança já não é mais o mesmo e de que não se trata apenas de iniciativas isoladas". O problema, ex-secretário, nunca foi o pirangueiro. Na segurança pública, o buraco é sempre mais em cima.
 
Ricardo Moura
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