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Fortaleza
Análise

Quando o transporte público vira risco de vida

Opinião do jornalista Érico Firmo, editor do O POVO Online

20:53 | 12/01/2018

Foto do ônibus no qual ocorreu o crime
Ônibus no qual ocorreu o crime

Os dois assassinatos dentro de um ônibus foram o ápice da rotina de violência que é cotidiana dentro dos transportes coletivos em Fortaleza – e, de resto, da Cidade toda. A tragédia desta quinta-feira, 12, podia ter sido muito maior. Foram dez disparos dentro do veículo, pelo menos. Conforme o motorista, o ônibus estava lotado. Morreram duas pessoas e muitas mais podiam ter sido atingidas. É um drama humano e um problema também urbano, para além da segurança pública.

 

De formas mais brandas, essa violência é rotineira. No primeiro semestre do ano passado, houve mais de 1,5 mil roubos a coletivos na Capital. Mais de 200 por mês. Esses são casos episódicos. Há as situações orquestradas: em abril do ano passado, em dois dias, 26 ônibus foram incendiados em Fortaleza, em ataques ordenados de dentro de presídios. Um cobrador de um dos coletivos, cadeirante, não conseguiu sair do veículo. Sofreu queimaduras graves e acabou morrendo.

Mais de 20 milhões de pessoas usam transporte coletivo por mês. É como se quase dez cidades do tamanho de Fortaleza passassem pelos ônibus todos os meses. É dessa maneira que o fortalezense se desloca.

O sistema de transporte não é apartado da Cidade. Não é ele que é perigoso: Fortaleza é. Os coletivos são parte intrínseca da Capital e potencializam vários dos problemas e muitas das virtudes. O ônibus não é tão diferente da praça, da rua.

É dramática essa situação tão generalizada de violência. É lamentável que nenhum espaço público esteja seguro. Há, claro, o problema de segurança pública, as vidas afetadas, situação mais grave do que qualquer outra. Mas, as consequências vão além.

A Cidade se torna mais reclusa. Alguém vítima de roubo no ônibus - ou mesmo quem toma conhecimento das ocorrências - pensa algumas vezes antes de se deslocar de coletivo. Se tiver alternativa, mesmo que seja não sair de casa, muita gente fará essa opção. Daí também se compreender que quase todo mundo que pode procure escapar do transporte coletivo: compra carro, moto, desloca-se de Uber.

 
 

É insustentável para a Cidade a quantidade crescente de veículos. O desejo e a generalização do uso do transporte individual é sintoma do atraso de uma sociedade. É uma lástima, mas não dá para dizer que não é compreensível.

As tentativas mais estapafúrdias já foram pensadas e algumas efetivamente praticadas na tentativa de dar segurança ao transporte público. Na campanha de 2016, Capitão Wagner (PR), por exemplo, propôs colocar homens armados nos ônibus. Tivemos mostra de qual pode ser o resultado. No auge da crise de abril do ano passado, os veículos passaram a circular sob escolta policial para evitar novos ataques. Obviamente, não é algo sustentável, não resolve o problema. Ao longo do ano passado, a Polícia passou a ampliar enormemente a quantidade de "baculejos". Em geral, funciona assim: ônibus são parados, homens jovens - pretos ou pardos como regra - são obrigados a descer e são revistados. É invasivo, humilhante, ineficaz.

As autoridades estão perdidas e insistem em fórmulas fracassadas. O resultado não tem como ser outro. Além das vidas perdidas, há o saldo de uma Cidade mais reclusa e uma sociedade com medo de usar sua principal forma de deslocamento.

ÉRICO FIRMO