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Perdemos o Náutico, mas ganhamos uma roda-gigante

12:41 | 18/01/2018
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A rotina do cearense é de perde e ganha desde que se entende por gente. Perde o Náutico, mas ganha roda-gigante. Perde área verde, mas ganha ciclofaixa. Perde água para o conglomerado do Pecém, mas ganha com os chuviscos que vão chegando ao Castanhão, estirão de secura que lambe o que vai pingando. O açude é hoje bicho em agonia: metade carcaça, metade respiro. O maior do Brasil reduzido a poça.

A polêmica do Náutico espelha outras conhecidas de muito tempo. Como se só tivéssemos direito mesmo à fachada das coisas, reservam a porção da carne para outro. Feito a melhor parte do bife que vamos empurrando com o garfo como último bocado da comida. Até que outro vem e tasca.

É sempre assim, a mão gulosa do poder abocanhando nacos cada vez maiores da mistura. Farinha pouca, meu pirão primeiro. É dito cearense. Nascido e criado aqui. Mais um exemplo da miséria de cultura e aspiração tacanha de povo. Canhões apontados pros de casa, lembra sempre o Gilmar de Carvalho.

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Não é feio sonhar com inteireza, reivindicar um pleno de amor ou de engenho, projetar no mar uma extensão da vida e lá depositar as querências da gente. Ir em procura de molhar os pés na água. Tatear uma vista entre espigões. Por isso é espanto que venham agora falar de dívidas a pretexto de erguer por ali mais um varapau a espichar-se, empatando a visão de Iracema.

Que vendam logo a índia, as estátuas da orla patrocinadas. Sai a Guardiã, entra a Iracema da Pague-Menos. Ou o Dragão do Mar da Extrafarma. Quem sabe a nova Ponte dos Ingleses passe à Drogasil. E o Estoril vire uma Farmácia do Trabalhador Brasileiro.

A gente vive ao avesso. O shopping alarga, a casa encurta. A rua encolhe, a calçada falta. Mas a roda do poder gira em vertigem. Muito se perde numa votação tal. As instituições reunidas em convescote já de muito antes acertadas num resultado de vexame. IAB, Unifor, Setur e outros apêndices da fortuna. Arquitetos e engenheiros de conveniência. Projetos de caber no bolso. Uns até se acanham e botam no saco a viola das vergonhas.

Feito uma Secult, por exemplo. O que dirá Piúba? Não é hora de calar. Dissesse ao menos que o prédio é velharia, que não pode objetar, que é uma saia-justa, que o mais importante do Náutico será preservado (mentira, não será). Mas silêncio.

De fachada também vive o San Pedro, edifício-embarcação, ainda metido nas arengas judiciais de herdeiros e poder público, quase botado abaixo uns dois anos pra trás. E a Casa do Português? Atolada num cipoal de toma lá, dá cá. A Vila do Barão vai levada em sorte de conversa pra boi dormir. O projeto? Ninguém sabe. As aulas? Ninguém viu. Mas é coisa certa, fazem crer. Querela eleitoral.

A gente se fia no quê? Só no humor, que de resto salva tudo. Ou quase tudo. Que mesmo o riso anda em falta, e a gente agora só ri quando convém. No mais das vezes, riso postiço, encomendado e pago a peso de ninharia. A inteligência do nativo se vende por bem pouco. É também ela de fachada.  

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