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Juarez: Fortaleza numa bola de sorvete

Crônica do jornalista Henrique Araújo sobre Juarez

11:22 | 25/01/2018
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Gostava que fosse tardinha e pudesse ir ao Juarez, na Barão de Studart, a avenida que vai ao mar, escorrendo do lombo da cidade, que se encurva bem ali, naquele pedaço da Aldeota.

Na fervura dos dias, tangerina, sempre. O mais famoso. Nunca puxei conversa. Reparava no homem atrás dos bigodes, a expressão severa de quem cuidasse de um arcano. Era a receita. Secreta, cabia unicamente no punhado do pensamento, que levava à cozinha para o preparo das bolas sem coisa que causasse mal às gentes. Juarez era fit antes da modinha. Low profile antes dos endinheirados. E retrô antes das festinhas.  

O ar de bodegueiro lembrava os armarinhos da infância, aonde ia atrás de linha de arraia e papel de seda, mas também de folha de almaço pra rabiscar os amores de menino. Outra época. Ria que pusesse numa placa o que não tinha no sorvete: emulsificante, glucose, fermento sólido, liga especial, xarope, ovo, maisena e a terrificante gordura trans.

[SAIBAMAIS] 

Era como dissesse: coma sem vexame, crente de que emborcar a mistura dulcíssima goela adentro numa terça calorenta é que nem fazer um exercício na academia, tão saudável era. E disso se servia bem a freguesia do Juarez. Do calor e do sabor da Cidade.

Lugar avarandado, aberto, bancos em pedra e telhado de amianto. Lixeira e pia. Maquinário à mostra, vetos poucos: cachorro e cigarro. E os sabores indicados numa placa modesta. Cinquenta ou cem, pouco interessava. Importava o vezo de simpatia ao balcão e a esperteza de olhar e enxergar não o cliente, mas o amigo.

Hoje, quinta, amanheceu escuro na Capital. Tempo bonito pra chover. Gostava agora, só por umas horas, que fosse bem quente, a ponto de largar o trabalho e sair a pé à Barão. Lá encontrar o mesmo homem atrás do bigode. Pedir uma bola de tangerina, ainda que já fosse almoço. E lembrar que Juarez é como uma Fortaleza congelada no tempo.

Mas, hoje, logo hoje, calhou de esfriar na cidade, e todas as sorveterias do mágico nonagenário estão fechadas.

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Juarez: Fortaleza numa bola de sorvete

Crônica do jornalista Henrique Araújo sobre Juarez

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Gostava que fosse tardinha e pudesse ir ao Juarez, na Barão de Studart, a avenida que vai ao mar, escorrendo do lombo da cidade, que se encurva bem ali, naquele pedaço da Aldeota.

Na fervura dos dias, tangerina, sempre. O mais famoso. Nunca puxei conversa. Reparava no homem atrás dos bigodes, a expressão severa de quem cuidasse de um arcano. Era a receita. Secreta, cabia unicamente no punhado do pensamento, que levava à cozinha para o preparo das bolas sem coisa que causasse mal às gentes. Juarez era fit antes da modinha. Low profile antes dos endinheirados. E retrô antes das festinhas.  

O ar de bodegueiro lembrava os armarinhos da infância, aonde ia atrás de linha de arraia e papel de seda, mas também de folha de almaço pra rabiscar os amores de menino. Outra época. Ria que pusesse numa placa o que não tinha no sorvete: emulsificante, glucose, fermento sólido, liga especial, xarope, ovo, maisena e a terrificante gordura trans.

[SAIBAMAIS] 

Era como dissesse: coma sem vexame, crente de que emborcar a mistura dulcíssima goela adentro numa terça calorenta é que nem fazer um exercício na academia, tão saudável era. E disso se servia bem a freguesia do Juarez. Do calor e do sabor da Cidade.

Lugar avarandado, aberto, bancos em pedra e telhado de amianto. Lixeira e pia. Maquinário à mostra, vetos poucos: cachorro e cigarro. E os sabores indicados numa placa modesta. Cinquenta ou cem, pouco interessava. Importava o vezo de simpatia ao balcão e a esperteza de olhar e enxergar não o cliente, mas o amigo.

Hoje, quinta, amanheceu escuro na Capital. Tempo bonito pra chover. Gostava agora, só por umas horas, que fosse bem quente, a ponto de largar o trabalho e sair a pé à Barão. Lá encontrar o mesmo homem atrás do bigode. Pedir uma bola de tangerina, ainda que já fosse almoço. E lembrar que Juarez é como uma Fortaleza congelada no tempo.

Mas, hoje, logo hoje, calhou de esfriar na cidade, e todas as sorveterias do mágico nonagenário estão fechadas.

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