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Fortaleza
NOTÍCIA

A fotografia pode salvar alguém?

Análise da editora de Fotografia do O POVO, Iana Soares

10:49 | 05/01/2018
Foto da criança com frio, no mar de Copacabana, com pessoas de branco ao fundo, durante festa de Réveillon (Foto: )
Foto da criança com frio, no mar de Copacabana, com pessoas de branco ao fundo, durante festa de Réveillon (Foto: )

"É porque a foto cala que eu me obrigo a dizê-la, que eu insisto em traduzir sua retórica, em capturar sua tortuosa sentença”. No momento em que leio esse trecho de A Resistência, de Julián Fuks, o menino permanece nas águas de Copacabana, com o olhar para o infinito, iluminado pela explosão dos fogos e das opiniões sobre a fotografia feita por Lucas Landau, na virada do ano. Em uma polarização veloz, muitos falaram que a imagem dizia do Brasil desigual, das injustiças sociais, das crianças negras nas grandes cidades, da indiferença das elites brancas; outros denunciaram o racismo estrutural do país que etiqueta crianças negras como pobres ou abandonadas, sem saber se o menino estava acompanhado, com seus familiares bem ali, fora do quadro.


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Do lado de cá da imagem, investigo o instante em que o menino contempla o céu e se abraça por frio ou em um gesto singular, só seu, que repetiria em um dia qualquer, ainda que no ano velho, quando algo lhe suspende o fôlego. Em tempos de overdose visual, em que acumulamos milhares de fotografias que nunca serão vistas, é emocionante encontrar uma imagem como a de Landau, independente de uma legenda que ensaie qualquer verdade. Ainda que alguns tenham feito tratados e manifestos, a certeza escapa em cada postagem.
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Em Como pensam as imagens, o pesquisador Etienne Samain pontua que “toda imagem é uma memória de memórias, um grande jardim de arquivos declaradamente vivo. Mais do que isso: uma sobrevivência, uma supervivência”. Além de resistentes na História, elas existem com cada vez mais intensidade nos dias comuns, sem um aprisionamento temporal ou espacial. Ainda que funcionem como documentos, “a prova de que algo aconteceu”, não se conformam apenas com o testemunho. O menino, o mar e a multidão existem com força e se misturam às narrativas de quem observa. São vivas e é por “superviverem” que as imagens criam seu próprio tempo, pois são capazes de metamorfoses e novos entendimentos. Samain acrescenta que é necessário declarar sem medo: “As imagens são polissêmicas porque elas nos obrigam a percursos temporais que não são apenas lineares e determinados. São caminhos e trajetos circulares, indefinidos e infinitos, policrônicos, transitórios e transterritoriais”. Reconhecer a multiplicidade de sentidos talvez seja um caminho de aprendizado que pode ser mais interessante sem a urgência da postagem que caça cliques.

É possível essa imagem ter uma verdade única? Qual seria a fabulação mais próxima da realidade? O catalão Joan Fontcuberta, importante referência no pensamento visual, afirma em O Beijo de Judas que, na contemporaneidade, “o real se funde com a ficção e a fotografia pode fechar um ciclo: devolver o ilusório e o prodigioso às tramas do simbólico, que costumam ser finalmente as verdadeiras caldeiras onde se cozinha a interpretação de nossa experiência, isto é, a produção de realidade”. Falei com Lucas Landau e ele disse que só dará entrevista quando encontrar o menino, quando souber quem ele é. Na imagem, o menino sempre será muitos e terá mais força nas ambiguidades do que em um programa de auditório qualquer. Até tenho curiosidade sobre o que esse garoto diria ao ver-se na imagem, mas lembro de Jorge Luis Borges quando diz que “a solução do mistério sempre é inferior ao mistério”.

Neste intervalo, houve também quem julgasse o fotógrafo, que ficou rotulado como “o herói que enxergou em terra de cegos” ou “um explorador mercenário de crianças vulneráveis”. Lembrei que, em 1993, o fotógrafo Kevin Carter registrou o instante em que um abutre espreitava um menino negro no Sudão. A foto, síntese de um continente que agonizava, foi ganhadora do prêmio Pulitzer e tornou-se uma das imagens mais icônicas do fotojornalismo mundial. Depois de publicada no The New York Times, viralizou quando ainda nem existia Facebook. Além de funcionar como denúncia, serviu para mobilizar a opinião pública e dar visibilidade ao drama que ultrapassava o indivíduo. Teve aplauso, mas também dedos apontados: por que o fotógrafo não salvou o menino em vez de clicar?

Durante um debate ao vivo no Facebook do O POVO Online sobre a foto, uma moça disse: “Quem sabe essa foto não vai ajudar essa criança”. A fotografia pode ajudar alguém? Essa criança precisa ser salva? É missão do fotógrafo salvar alguém? O observador também pode ser salvo? A humanidade tem salvação? Não sei. A fotografia é capaz de iluminar nossas mais profundas escuridões. Nossos preconceitos, nossos medos, nossos fracassos. É também responsável por produzir clarões de esperanças e belezas. Entre a euforia, a explosão e o ruído, podemos investigar encantamentos, surpresas, mistérios, revoluções. Sigamos atentos às imagens e aos meninos.

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