PUBLICIDADE
Notícias

Estudantes de Fortaleza encontram escultura escondida em parede de centro universitário

11:10 | 01/11/2017
Estudante retira reboco com bisturi entre os relevos da escultura misteriosa
Estudante retira reboco com bisturi entre os relevos da escultura misteriosa
[VIDEO1] 
O que se esconde nas construções históricas de Fortaleza? Na manhã desta terça-feira, 31, estudantes do Centro Universitário Estácio do Ceará, no Centro de Fortaleza, descobriram uma peça curiosa e, por enquanto, desconhecida. A figura de um homem esculpida na parede da instituição foi encontrada, abaixo do reboco, durante uma oficina de preservação voltada para os alunos do curso de Arquitetura. 

Inscritos na oficina de Introdução ao Restauro, cerca de 20 estudantes participaram diretamente da prática de prospecção, como é chamada a raspagem do reboco para investigar o que havia originalmente na edificação. Ministrada pelo professor do curso de Arquitetura Frederico Barros e a estudante e restauradora Carolina Alves, a ação é parte da Semana de Arquitetura (Semau) da Estácio. 
[FOTO1]
Carolina, que é estudante do 6º semestre de Arquitetura na instituição e tem formação técnica pela Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho, onde ensina a disciplina de Prospecção, afirma que a prática realizada pelos estudantes nesta terça norteia uma das fases do processo de restauração.

Ela explica que a oficina começou por volta das 8 horas e que a ideia inicial era "abrir uma janela" de 30 cm para investigar a pintura artística na camada original da construção. "A proposta era só dar uma noção do que é a restauração e trazer as pessoas para esse universo, quando começamos a encontrar esses baixos relevos", relata. 

"A própria matéria do edifício foi ordenando como a prospecção ia se dar. O reboco pode ter vindo em algum momento de manutenção do prédio", dispara a restauradora. "Compreendemos que falta alguma educação de preservação patrimonial".
 
[FOTO2]
Anjo Gabriel? 

A imagem correu em grupos de ex-alunos e funcionários do antigo Colégio Marista Cearense, que relatam que no exato local onde a escultura foi descoberta havia um painel que tomava toda a extensão da parede. Estudantes e funcionários acreditam que a imagem possa ser de Gabriel, o anjo que anunciou a chegada de Jesus ao mundo, segundo a Bíblia cristã. Não há, contudo, confirmação da origem da escultura.

O prédio foi fundado como Colégio Marista Cearense em 1917, há exatos 100 anos, pelos padres diocesanos Misael Gomes, Climério Chaves e José Quinderé. Curiosamente, o movimento religioso dos Irmãos Maristas surgiu em 1817, na França.

Até as 22 horas dessa terça-feira, a equipe estacionou a remoção do reboco com bisturi em cerca de 1 metro, o suficiente para estabelecer um "testemunho", como chamam os estudantes, do que havia originalmente. 
 
Patrimônio histórico 
 
Em fevereiro deste ano, o prédio foi tombado de forma definitiva e estadual, após projeto da Coordenadoria de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (Cophac), da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult) ao Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio (Coepa).
 
Memória e pertencimento 

Arquiteta e urbanista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Clélia Monasterio, hoje coordenadora do curso de Arquitetura da unidade, afirma que foi feito levantamento arquitetônico, fotográfico e histórico do prédio após o Centro Universitário comprar o empreendimento. Ela lembra que antes da instituição, havia negociação de venda para construir um shopping no lugar do antigo Colégio. O prédio seria demolido.

"A cidade é relativamente nova, não tem essa cultura da preservação. Aqui tudo é transformação, desenvolvimento. E as pessoas não conseguem visualizar desenvolvimento e preservação juntos, e é possível", afirma. "Em Fortaleza, a especulação imobiliária influencia. Há quem pense que um prédio tombado morre. Mas ele tem vida e tem pessoas que fazem uso dele e ampliam sua história".

O próximo passo, diz a coordenadora, é entender até que ponto esse trabalho pode ser continuado no Campus do Centro. "Já entramos em contato com grupos de alunos do Marista para buscar uma referência iconográfica", aponta. "É importante que a gente multiplique o conhecimento e esse sentimento de pertencimento na cidade. Está em falta".
 



TAGS