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De passagem pelo Ceará, casal dá volta pela América do Sul em kombi adaptada

Abrigados em uma oficina no Bairro de Fátima, publicitária e gastrônomo aguardam para retomar a viagem após um caminhão colidir com a traseira da kombi. Eles passaram por oito países vivendo dentro do veículo equipado com cama, torneira, fogão e climatizador

20:30 | 03/11/2017
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Os viajantes Daniela Pregardie, 31 anos, e Rodrigo Matias, 32 anos, já percorreram oito países da América do Sul, mas tiveram que interromper a viagem - toda feita em uma Kombi adaptada- há uma semana. Um caminhão colidiu na traseira do veículo do casal gaúcho, na CE-085, em Icaraí de Amontada, por volta das 14 horas da sexta-feira passada, 27 de outubro. A batida resultou em ferimentos leves nos dois, mas a Kombi, segundo eles, teve perda total. Por enquanto, o casal está abrigado em uma oficina do Bairro de Fátima, em Fortaleza, até a retomada do projeto “Uma Volta de Kombi”.

O motorista do caminhão, logo após o acidente, admitiu estar dormindo no volante, conforme o casal. A Kombi, que também era casa deles, foi arrastada por cerca de 200 metros na pista. Nenhum outro carro vinha pela contramão e eles conseguiram estacionar o veículo no acostamento. "Na hora, eu ouvi uma explosão muito forte, achei que tinha explodido o motor porque vinha um vento atrás. Foi muito rápido, mas lembro que na hora pensei porque ele não parava o carro", diz Daniela, que é publicitária.

Ela machucou o pulso e ficou com hematomas pelo corpo. O companheiro dela, que é gastrônomo, bateu a cabeça, mas também passa bem. Até esta terça-feira, 31, eles ficaram hospedados em um hotel custeado pelo dono do caminhão. O seguro do veículo foi acionado e, enquanto aguardam negociação, os dois dormem na secretaria da oficina.

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Foi o primeiro acidente na estrada desde que os dois saíram de Florianópolis na Kombi, no dia 30 de novembro de 2014. Mesmo com essa parada – a qual eles garantem, é temporária-, esperam retomar a viagem pelo Nordeste do País e não deixar que isso assuste quem planeja também cair na estrada. “A ideia de contar isso não é se fazer de vítima, mas levantar a importância desse tipo de serviço dos caminhoneiros. Existe uma responsabilidade muito grande sobre a vida deles e de outras pessoas. Quanto ao nosso projeto, a gente não vai desistir, não é uma viagem só de duas pessoas, são milhares de pessoas que viajam nessa Kombi conosco e vão continuar viajando independente de como a gente siga viajando", aponta ela.

Para Daniela, o trabalho dos caminhoneiros exige mais fiscalização e regulamentação para evitar acidentes do tipo. A volta pela América do Sul seria finalizada nos próximos seis meses com uma carreata deles e apoiadores de Curitiba até Florianópolis. Na Capital cearense, além da ajuda dos funcionários da oficina, que dão abrigo e alimentação, eles vivem do dinheiro arrecadado em Jericoacoara com a venda de fotografias e artesanato.

Pesquisa do SOS Estradas, divulgada em abril último, mostrou que na maioria dos casos dos acidentes envolvendo caminhões ou carretas, os motoristas estão dirigindo sozinhos, o que aumenta o risco de fadiga. O levantamento analisou mil acidentes que deixaram mortos e foram registrados pela imprensa nacional entre 1º de novembro de 2015 e 11 de fevereiro de 2017.

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Projeto
O projeto Uma Volta de Kombi, documentado em site e redes sociais, completa quatro anos desde que a publicitária e o gastrônomo iniciaram os preparativos para largar a 'vida padrão'. "A gente fez todo aquele ABC da vida, estudou, se formou, trabalhou. Estávamos com uma loja em um shopping de Floripa há cinco anos que a gente amava, mas não era o que a gente amava fazer", conta Daniela, em entrevista ao O POVO Online.

Há 13 anos, quando eles se conheceram em Garopaba, eles chegaram a brincar que quando completassem dez anos de relacionamento venderiam tudo para viajar o mundo. A brincadeira virou plano após a leitura do livro "Mundo Por Terra", de Roy Rudnick e Michelle Weiss - relato de um casal que cruzou cinco continentes de carro. A partir dali, passaram um ano juntando dinheiro para equipar a Kombi com cama, torneira, fogão, climatizador e bateria.

"Pagamos as contas, funcionários, impostos, e com o que sobrou mandamos fazer a Kombi. A gente saiu para um projeto de oito meses e já estamos há quase três", narra Daniela. No segundo mês, percebendo que o dinheiro não seria suficiente, eles já pensaram em como se sustentar no percurso.

Eles possuem uma loja virtual de fotos da Kombi pela América e aprenderam a fazer incensos no Peru com outro viajante. Nas tribos indígenas que conheceram pelo caminho, ainda aprenderam a fazer rendado de miçangas.

"As pessoas falam 'ah, como é que vocês vivem'. Eu falo: a gente vive de fé, porque é ter fé nas pessoas e na boa situação que vai acontecer contigo, porque a gente nunca sabe o que vem atrás da curva. Tem momento que a gente vive de fé", ensina Rodrigo.

O percurso é possível com planejamento, ajuda das pessoas no caminho, e um estilo de vida mais sustentável “pra tudo”, como traça a publicitária. “Sustentabilidade não é só quantidade de coisas que tu tem, mas é o tempo que tu dedica às coisas certas da tua vida. Por exemplo, dedicar todas as horas do teu dia a um trabalho não é sustentável, por mais que tu tenha pouca roupa, por mais que só coma orgânico”, alinha.

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Caminho
O trajeto do casal iniciou pelo Sul de Florianópolis até o Ushuaia, passando pela costa do Uruguai até a Argentina. Descendo novamente até o Ushuaia, o casal entrou no Chile, subiu ao Peru, Bolívia, Equador e Colômbia. Por causa da tensão política, não conseguiram entrar na fronteira da Venezuela, então voltaram à Colômbia, Equador e Peru; a volta ao Brasil foi pelo Acre.

"Foi uma coisa linda, a gente amou o norte do País, somos apaixonados por tudo que é o Acre, Amazonas, Pará. Chegamos em Manaus pela Transamazônica. Foi um trânsito muito difícil com a Kombi, levou 16 dias para fazer 700 quilômetros. A gente é do sul, mas pisou o pé no Acre e sabia que tava em casa. Foi muito emocionante voltar ao meu país de origem, me senti em casa de novo", lembra a viajante.

O trecho na Transamazônica é lembrado por Rodrigo, motorista maior parte do tempo, como um dos mais fortes da viagem. "Foram momentos de muita superação, marcou mesmo. Foi muito especial na nossa vida", diz ele. Com a experiência e documentação da viagem, a ideia do casal é lançar um livro e uma exposição de fotografias tiradas na aventura.

“O mundo é muito melhor do que pior, sempre que alguma coisa pequena aconteceu, como quando nos furtaram, tantas outras mãos boas apareceram e tantas outras coisas boas vieram que a gente não pode dizer que isso vai manchar a imagem que a gente tem do País”, completa a publicitária.

Mais informações sobre o projeto Uma Volta de Kombi: http://umavoltadekombi.com.br/

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