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Mulheres com deficiência relatam vulnerabilidade e dificuldades enfrentadas

16:15 | 08/03/2017
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[FOTO1]O machismo, as dificuldades cotidianas e as agressões que atingem as mulheres de uma forma geral, ainda se revelam com cores mais fortes entre as que têm alguma deficiência. O POVO traz a história de Leila Soares, cega, e Bruna Miranda, diagnosticada com autismo na adolescência.

Mãe de quatro filhos, Leila Soares fala do despreparo dos serviços de saúde para atender a uma mulher com deficiência. Problema que se evidencia ainda mais durante o pré-natal e parto. “Em um dos meus partos, no hospital sentindo dores, uma enfermeira ficou dizendo ‘vamos aqui, vamos,’ e eu estava andando no corredor apenas com roupas íntimas. Quando ela mandou eu deitar na cama, foi que percebeu que sou cega”, lembra.

Em sua experiência, Leila acredita que a sociedade vem entendendo mais que um deficiente tem vida sexual ativa como qualquer outra pessoa. “Desde o início dos anos dois mil venho observando que as pessoas encaram com maior naturalidade o fato. Mas ainda tem muita gente que acha estranho o fato de um cego namorar e ter filhos”, afirma.

Para Bruna Miranda uma mulher com deficiência está mais exposta a riscos. “Por termos uma deficiência, é mais fácil sermos enganadas por alguém e acabarmos sofrendo algum tipo de violência”, explica.

Relacionamentos amorosos sempre foram uma barreira para ela. “Quando tinha 16 anos, decidi não mais esperar por um garoto. Tinha um menino de quem gostava, e resolvi tomar a iniciativa. Nosso relacionamento durou apenas um mês. Ele terminou porque me achou muito criança. Disse que era melhor que fôssemos apenas amigos. Só depois fui diagnosticada com autismo”, diz.
Bruna considera que falar sobre sexo com uma mulher com deficiência é tabu. “Depois que fui diagnosticada com autismo, minha mãe nunca quis falar comigo sobre sexo. Toda vez que tocava no assunto ela ficava calada”, declara.

Juliana Marques, doutoranda em enfermagem pela Universidade Federal do Ceará (UFC,) pesquisou a sexualidade e a violência sofrida por mulheres cegas. Na teoria, ela confirma a tese de Bruna: a deficiência torna mulheres mais vulneráveis. “No decorrer de minha pesquisa conheci várias histórias de abusos sofridos. Uma que me chamou atenção foi de uma jovem relatando que um cobrador pegou em suas partes íntimas dentro de um ônibus”, diz.

Para ela, a sociedade precisa entender que uma mulher com deficiência tem vida sexual como as demais. “As pessoas precisam entender que uma mulher com deficiência tem vida sexual ativa, libido e desejo como qualquer mulher sem deficiência. Não é o fato de ser deficiente que a torna assexuada”, disse.

Para Juliana, o que falta é um trabalho de prevenção, principalmente no combate a DST e uso do preservativo. “Muitas mulheres cegas, por terem nascido sem enxergar, nunca viram uma camisinha e não sabem como devem colocá-la. Elas precisam de uma orientação específica”, explica.

A pesquisa de Juliana foi realizada com 35 mulheres cegas e com baixa visão, atendidas pela Associação de Cegos do Estado do Ceará. Nos quatro encontros que tiveram, elas discutiram a violência sexual sofrida e como combatê-la. “Durante as entrevistas percebi que a maioria não sabia como denunciar a violência que sofreram. Muitas falavam apenas das delegacias, mas ignoravam o procedimento”, explica.

Diante desse fato, a pesquisadora decidiu criar uma cartilha online, falando sobre a violência sexual contra a mulher com deficiência. “A cartilha deverá ser disponibilizada ainda este ano. Estou finalizando o texto e logo depois o disponibilizarei na internet, com recursos de acessibilidade”, explica.

Durante a pesquisa, um fato que chamou a atenção de Juliana foi a falta de dados sobre violência sexual contra mulheres com deficiência. “Quando a vítima vai a uma delegacia prestar queixa, há um campo na ficha que pergunta se ela tem deficiência, mas não encontrei nenhum dado em todo País que informe quantas cegas sofrem violência sexual. Só encontrei esses números em outros países”, esclarece.

Para ela, os cursos na área de saúde precisam discutir mais a saúde da mulher com deficiência. “O curso de enfermagem da UFC é o único que conheço que tem uma cadeira voltada para a saúde do deficiente. E mesmo assim essa cadeira é optativa. Os cursos de saúde precisam aprender a tratar um paciente com deficiência”, afirma.

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