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O grito de resistência de Shalon Israel

O cantor de 34 anos é o último entrevistado da série Safra 2017 - Música CE. Shalon Israel se prepara para lançar 'Fonte em Terra Sagrada Nunca Seca', seu primeiro álbum oficial

20:31 | 03/02/2017
Cantor Shalon Israel concede entrevista no píer do Rio Ceará, na Barra do Ceará
Cantor Shalon Israel concede entrevista no píer do Rio Ceará, na Barra do Ceará
[FOTO1]Encontro marcado. A equipe de reportagem do O POVO Online se deslocou até o Cuca Barra, ponto de convergência e aprendizado da juventude local, para encontrar o cantor Shalon Israel às 16 horas da última quinta-feira, 2. Ele chegou com alguns minutos de atraso, boné, óculos vermelhos e um pouco de timidez. Da pista de skate do Cuca, atravessamos a av. José Lima Verde e já estávamos à margem do Rio Ceará, coração da comunidade. 

Emblemático, o mais antigo bairro de Fortaleza guarda suas memórias no encontro do rio com o mar. Filho da Barra do Ceará, o cantor, nascido Shalon Inácio da Silva, entende bem a importância do berço histórico do Estado para sua trajetória artística. Adentramos o píer, onde já estavam alguns jovens.  

"Eu nunca me canso de ver isso aqui", disparou. "Sempre me impressiono". Foi na Barra que o cantor de 34 anos cresceu e se encantou pela música. Aos 13 anos, se viu tirando um samba de mesa e quando percebeu já estava em uma banda de baile. Tocava o samba na escola, em aniversários, batizados e casamentos, mas diz que cresceu mesmo foi ouvindo heavy metal por causa do pai. Até o ano de 2005 o samba foi presente. "Mas o meu negócio era reggae".

Shalon começou no reggae fazendo backing vocal para a banda até então conhecida como Profetas da Babilônia, hoje Mentalize. Depois, ele cantou nos grupos Filosofia Rasta e Irmandade Raiz, com quem gravou três discos.
 
"De repente cheguei cantando um Bob Marley, um Peter Tosh. Aí o pessoal estranha, né", brinca. "Me identifiquei muito". Ele conta que a reação da família não foi boa. O problema, contudo, não era a música. Era o reggae. "Para uma família de militares, artista era vagabundo. Era aquele cara que não queria estudar e escolheu fazer música", lembra. O lado materno da família é cearense e o pai chegou do Piauí quando o avô veio servir ao Exército no Ceará e trouxe a família. 
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"Fui vítima do preconceito dentro da minha própria família. Eles queriam que eu fosse militar", conta. "Essa coisa negativa foi superada porque o amor atrai tudo. O que é feito com amor resiste", continua. "No reggae é assim: resistindo e insistindo".
 
Mas nem sempre o reggae foi um porto seguro. Há cinco anos, Shalon parou. "É muito difícil fazer reggae em Fortaleza, cara. Sempre foi. Há discriminação. E tem o problema do espaço". Em seus primeiros anos no reggae, Dona Leda e Rebel Lions eram as bandas que já tinham força na cidade. 

"Continua muito difícil. Aqui na Barra, por exemplo, tem várias bandas boas com ideias massa, mas ainda falta investimento", avalia. Israel conta que já viu artistas talentosos deixarem a música pela falta de oportunidade. Na época, falta de espaço foi o que fez ele parar. "O público ainda precisa aprender muito. Fui a Alagoas e ao Pará e lá o público é muito forte. É preciso instigar e incentivar a galera a continuar". 

Dos cearenses que ainda resistem, Shalon lembra os cantores Andread Jó (ex-Donaleda) e Carlinhos Nação e a banda Irmandade Raiz. "São as colunas do reggae em Fortaleza".
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Cabeça de Gelo

Uma das coisas que manteve o compositor na música foi o hit Cabeça de Gelo, inspirado no popular Riddim jamaicano. "Começou de uma brincadeira. Eu trabalhava em uma lavanderia como auxiliar de produção e cantava minha própria versão em cima do Riddim". Ele conta que o verso "esse bicho tá desconsiderando o nego" já surgiu como crítica à falta de espaço para o gênero na cidade.
 
'Cabeça de Gelo' virou hit quando o DJ Cleiton Rasta, de Alagoas, passou a tocá-la em seus shows. Foi quando o hit composto em 2011 ganhou o Brasil. No Carnaval do ano passado, o cantor dividiu o palco com a banda Cidadão Instigado, no Aterrinho da Praia de Iracema. E não deu outra: 'Cabeça de Gelo' animou o público. Ele também cantou com a banda Selvagens à Procura de Lei e até o rapper paulistano Criolo pediu permissão para cantar a música em seus shows. 

O sucesso, ele atribui à letra que se comunica com o discurso de protesto. "O 'fogo na Babilônia' é algo que se fala até hoje quando as pessoas 'torram um', só que é mais uma manifestação de colocar fogo nas ideias que nos impedem de progredir", explica. 
 
Completamente a favor da regulamentação de drogas leves como a maconha, afirma que a proibição é uma das causas do crescimento do tráfico e a popularização de drogas mais pesadas. "É difícil, mas a gente tenta desassociar a imagem do reggae às drogas. (O gênero) é religioso. Traz a mensagem de paz, união e esperança", continua. "O reggae fala muito de amor e de Deus, bate no mesmo compasso do coração".
 
Fonte em terra sagrada nunca seca 
 
Mas a música não trouxe só coisas boas. Shalon Israel já chegou a ser impedido de cantar seu maior sucesso quando foi vítima do que chama de "golpe". "Foi um susto. Santo de casa não faz milagre, mas faz um movimento grande. Na época recebi muito apoio da Barra". Foi quando ele começou a compor para o que será seu primeiro disco oficial, intitulado 'Fonte em Terra Sagrada Nunca Seca'. 
 
Com previsão de lançamento no fim deste mês de fevereiro, o disco, que vem depois de dois EPs promocionais, é produzido por Moisés Veloso. Nas guitarras, uma colaboração de peso: Fernando Catatau, líder do Cidadão Instigado. Com mais de 40 canções compostas ao longo dos anos, Shalon reconhece que 'Cabeça de Gelo' é a responsável por arrastar o público para seu novo trabalho. Além do hit, entra a também conhecida 'Da Favela'. Dentre as oito canções inéditas estão 'Não Sofro Mais' e 'Tudo Fica Mais Bonito'.
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"O novo álbum é uma resposta do que tentaram fazer comigo. Tentaram acabar com a minha carreira, né?" Ele diz que a música 'Vítima do Sistema', do novo disco, narra o caso que corre na Justiça. O registro também traz músicas inspiradas nos últimos relacionamentos: "tô mais romântico".
 
Com uma sonoridade mais voltada para as referências na soul music, Shalon mistura reggae com funk e promete músicas mais "elétricas". "Venho para mostrar que o cearense também sabe fazer reggae, mas o que eu estou fazendo é algo diferente. Estou resgatando as raízes da música negra, do gueto".
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