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A história do Natal contada há 70 anos por dona Mundinha

Aos 92 anos, a aposentada se orgulha da sua dedicação por montar a lapinha de Natal todos os anos para contar a história do nascimento de Jesus Cristo

16:45 | 23/12/2016
Dona Mundinha ao lado de sua lapinha
Dona Mundinha ao lado de sua lapinha

[FOTO1]São 70 anos dedicados para contar a história do menino Jesus. Dona Mundinha, 92 anos, se orgulha por manter firme a sua tradição em montar uma lapinha de Natal na garagem de sua casa, no bairro Mucuripe, em Fortaleza. Rica em detalhes, a cidade em miniatura retrata o dia a dia da cidade de Belém há 2016 anos. Há bonecas capinando, lavando roupa, pescando, cuidando do rebanho, acompanhados por luzes, casas, castelos. Quem visita pela primeira vez se encanta, diante da dimensão e o objetivo do trabalho de Mundinha: contar a história do Natal. “O nascimento de jesus é muito lindo. Para mim, é tudo”, ressalta.



Todos os anos, a lapinha mantém a mesma estrutura por ser uma história que Dona Mundinha não pode mudar. A ideia de montá-la surgiu aos cinco anos, quando conheceu uma senhora que fazia lapinhas de Natal. “Ao chegar lá (na residência da mulher), fiquei olhando o trabalho dela. Eu gostei tanto que disse: ‘Quando eu crescer e me casar, vou construir uma lapinha dessa na minha casa’”, relembra. Por ser filha de comerciantes e ter 11 irmãos, realizar o sonho na casa dos seus pais se tornou inviável. Mundinha teve que esperar 17 anos para poder montar sua primeira lapinha.

 

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Aos 20 anos se casou e construiu sua casa, onde mora até hoje, próximo a avenida da Abolição, mas não pôde construir a sua primeira lapinha no primeiro ano de casamento. O seu sonho foi concretizado aos 22 anos. “Desde lá, não perdi um ano. Todos os meus filhos me ajudam e ajudaram a fazer essa lapinha de Natal. Eles cresceram me vendo fazer”, afirma. Com a ajuda dos 10 filhos, o presépio foi ganhando novos elementos que o tornou mais bonito a cada ano. “Esses bonecos se mexendo foi o meu filho que fez”, aponta.

 


De acordo com Dona Mundinha, para montar sua lapinha de Natal, que tem cerca de três metros de extensão, ela demora em média duas semanas. Um dos seus filhos monta a mesa e forra para colocar por cima uma carrada de areia. Após essa etapa, é a vez de Mundinha colocar em seu devido local, cada boneco, casa, bicho e planta para contar história do nascimento do menino Jesus. A parte da iluminação e eletrônica dos bonecos fica sob responsabilidade de seu outro filho.



[FOTO3]Por vê-la desde criança montando a lapinha com amor e dedicação, os filhos e netos seguiram a tradição implantada pela matriarca. A bacharel em Direito e neta de Dona Mundinha, Laila dos Santos, conta que a lapinha traz também a história da família. “Eu tava comentando com a minha irmã que tem uns brinquedos que eram meus e, agora, estão na lapinha. Todos os brinquedos que estão presentes são da família. Há toda uma simbologia”, afirma Laila. Mas, o presépio não é formado apenas com os brinquedos da família. Há peças que têm quase 100 anos.



“Eu conheci uma senhora que fazia lapinha na Igreja do Mucuripe (Capela de São Pedro - avenida Beira Mar, 4600). Quando eu terminei de fazer, fui em sua casa porque tem que contar a história completa. Aí, ela trouxe para mim um pacote com várias peças e comprei o pacote. As tartarugas, por exemplo, devem ter mais de 100 anos”, afirma Mundinha.

 

Confira a lapinha de Natal de Dona Mundinha:

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Festa de Natal
Além de montar a lapinha de Natal anualmente, Dona Mundinha mantém outra tradição: fazer no dia 25 de dezembro a festa de Natal para as crianças carentes. A preparação começa cedo. No fim de setembro e outubro, a aposentada já se organiza para preparar as roupas das bonecas e para arrecadar as doações de brinquedos para serem distribuídos.

 

 

Para ela, a sua maior satisfação é ver uma criança feliz segurando o seu presente. A demonstração de felicidade dos pequenos é o pagamento do seu esforço e trabalho. “A festa das crianças tem mais de 50 anos”, comentou.

 

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A ideia de fazer esse momento com a criançada do bairro surgiu ao ver as crianças pobres, olhando para os filhos de Mundinha brincando com os presentes de Natal. “Eu disse: ‘Vou esperar só os meus filhos crescerem mais um pouco para eu poder dar presentes a eles também’”, relembra.

 

Alguns anos depois, ela passou de casa em casa convidando cada criança do bairro para comparecer a sua casa no dia de Natal. Comprou um bolo, brinquedos e fez um suco para as crianças. A princípio, a sua casa recebia dezenas de pequenos. Hoje, esse número chega a 300. “Saíram mortos de felizes com os seus presentes. Antes eram só as crianças do bairro, agora elas vêm de toda a cidade”, afirma.



Diferente dos outros anos, neste ano, Dona Mundinha teve que lidar com um imprevisto que a deixou preocupada com os preparativos de Natal. Ela sofreu de uma pneumonia e teve que ficar de repouso, com isso deixar de lado o seu trabalho.

 

 

Mas, Mundinha soube  treinar bem a sua equipe. Os filhos e netos se organizaram para montar a lapinha de Natal e para dar conta dos preparativos da festinha. “Meus filhos fizeram tudo e disseram: ’Mamãe, não se preocupe que a gente faz’. Mas, eu tinha medo de que eles não montassem a lapinha da maneira correta. Quando vi, as casinhas tudo direitinhas”, conta com orgulho.  



Assim como toda família, os filhos e netos se reúnem no dia 24 de dezembro para fazer a sua confraternização. No dia seguinte, é a vez de promover a festa para as crianças. Laila relata que é todo um planejamento para que todas as crianças possam sair satisfeitas com a festa de Natal. Por isso, eles preparam lanches, promovem campanha para a arrecadação de brinquedos e fazem uma lista para ter o controle da quantidade de crianças.

 

 

“É um dia puxado. No dia, tem que ter pessoas na cozinha para organizar os lanches. Tem as pessoas que fazem a encenação do nascimento de cristo e a distribuição dos brinquedos”, detalha o serviço. Mas, apesar de ser um trabalho cansativo, Laila afirma que toda a iniciativa de sua vó traz para a família o verdadeiro significado do Natal: ajudar o próximo por amor, sem esperar nada em troca.

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