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Modelo cearense diz que teve contrato com agência cancelado porque "nunca esteve nas medidas"

Postagem publicada no Facebook recebeu mais de 63 mil curtidas, 6 mil compartilhamentos e mais de 1,6 mil comentários em apenas quatro dias

19:58 | 14/10/2016
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Atualizado em 17/10/2016 às 14h30min 
A jovem modelo cearense Délleny Mourão, de 20 anos, afirma que teve o contrato cancelado com uma grande agência porque "nunca esteve nas medidas". Intitulada 'Desabafo: porque não quero mais ser modelo', a postagem publicada no Facebook recebeu mais de 63 mil curtidas, 6 mil compartilhamentos e mais de 1,6 mil comentários em apenas quatro dias.
 
"Foi um desabafo. Eu vi muitas coisas, mas não fui a única. E saber que meninas e amigas ainda estão sofrendo com essa situação toda, me fez querer falar", conta, em entrevista ao O POVO Online. Ela afirma que começou na profissão em 2014, aos 18 anos, e se mudou para São Paulo em janeiro deste ano. No último dia 7 de junho ela retornou para casa. Délleny preferiu não revelar o nome da empresa que a agenciava.
 
No texto, ela conta que o diretor da agência (scouter/olheiro) propôs a ela passar "um ou dois meses em casa para não acumular mais dívidas". Ela teria esse período para "tentar entrar nas medidas". O diretor prometeu que, ao retornar, ela viajaria para Milão, na Itália, ou Los Angeles, nos Estados Unidos.
 
"Todos os dias me matava em exercícios e, com uma alimentação pobre, fiquei doente, anêmica", relata. Délleny afirma que a experiência trouxe outra visão sobre o mundo da moda. "Todos os dias me perguntava se esse sacrifício valia a pena". Os 20 anos completos em agosto último vieram acompanhados de um período deprimido na vida da fortalezense. "Sabia que essa idade era demais para a moda. Estava além de gorda, velha para eles". Outro problema apontado por ela foi um e-mail avisando sobre contrato em "prazo vencido", algo que, segundo ela, nunca havia sido avisada.
 
A foto que ilustra a publicação foi feita em abril deste ano, época do último São Paulo Fashion Week (SPFW). "É possível ver claramente que eu era/sou uma pessoa bem magra. Pesava quase 50 quilos, porém tenho o quadril 'largo'". Ela diz que suas medidas oscilavam sempre entre 89 e 91 cm de quadril, enquanto modelos de passarela devem ter 87 ou 88 cm.
 
O desabafo contou ainda com uma lista de situações presenciadas por ela, como garotas tomando laxante para emagrecer, vomitando nos banheiros e comendo escondidas. "Vi estilista famoso falar palavras racistas e chulas para modelos em francês em um casting para o SPFW; vi scouter falando que ajudou menina a abortar".
 
Outra consideração feita por Délleny é que, das 44 modelos que ela dividiu apartamento durante os cinco meses que morou em São Paulo, 36 faziam dietas. "Isso é muito mais sofrido, miserável, corrupto, injusto e depressivo do que vocês pensam", escreveu.
 
Ao O POVO Online, ela diz que narrar essa história é importante para servir de alerta para outras garotas e mães de meninas que sonham em ser modelo. "Não é culpa da modelo. Infelizmente, sofri uma lavagem cerebral quando entrei, mas foi preciso me distanciar da situação para enxergar melhor o que vi e vivi".
 
Leia o relato completo:
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A busca pelo 'corpo perfeito'
 
O psicólogo Diego Mendonça Viana, do Conselho Regional de Psicologia, observa que o depoimento chama atenção para o crescimento de situações em que se desenvolvem transtornos alimentares. "É importante que a população saiba que se faz necessário um entendimento de que a busca por um 'corpo perfeito' nos moldes preconizados por padrões de estética incompatíveis com uma vida de fato equilibrada e saudável é fonte de muito sofrimento para os sujeitos", afirma. 

"Ao que parece com as situações relatadas pela jovem, é possível notar que os ambientes de trabalho pelos quais passou são adoecedores no sentido de cobrar a manutenção de padrões de dieta e disciplina para a magreza insustentáveis", continua. Ele diz ainda que esse tipo de contexto contribui diretamente para fatores de adoecimento, "tanto do ponto de vista da segurança alimentar e nutricional quanto do ponto de vista da saúde mental". 

A Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que 1% da população mundial é acometida por problemas relacionados a transtornos e distúrbios alimentares. 
 
O POVO Online tentou contatar o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Ceará (Sated-CE) para falar sobre o caso, mas não houve atendimento. 
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