Tarifas nos carros alugados foram recompostas em 2025, aponta Associação

Tarifas nos carros alugados foram recompostas em 2025, aponta Associação

Segundo o vice-presidente da entidade, Paulo Miguel Jr, a virada de chave se dá por duas razões. A primeira foi a Selic alta, que levou os brasileiros a buscar alternativas à aquisição de veículos
Atualizado às Autor Redação DC NEWS Tipo Notícia

O ano de 2025 foi um divisor de águas para o setor de locação de veículos. Pela primeira vez o faturamento do setor deve atingir R$ 60 bilhões, aumento de 12% em comparação à 2024.

A estimativa é da Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (Abla), que representa cerca de 950 empresas do ramo, das pequenas e locais às grandes redes, e detém 70% do share no País.

Segundo o vice-presidente da entidade, Paulo Miguel Jr, a virada de chave se dá por duas razões. A primeira foi a Selic alta, que levou os brasileiros a buscar alternativas à aquisição de veículos.

A segunda foi o reequilíbrio das margens das empresas do setor. “Desde a pandemia estávamos com uma tarifa defasada. 2025 foi um ano de recomposição na tarifa”, afirmou o porta-voz à Agência DC News. 

Após quase quatro anos com a Selic em dois dígitos, e atualmente em 15%, comprar e manter um automóvel no Brasil ficou mais oneroso. Inclusive para as locadoras.

“Muitas locadoras priorizaram renovar em detrimento de aumentar a frota, tentando equilibrar um pouco as contas.”

Apesar disso, a diminuição no poder de compra da população favorece a locação de carro por assinatura, uma tendência crescente conforme a Abla. “Em vez de pagar financiamento, IPVA, seguro, manutenção, paga-se um valor fixo. Com o volume das locadoras, se repassa menos”, afirmou o vice-presidente.

O setor, segundo análise da entidade, continua em fase de desenvolvimento no Brasil, e ainda há ritmo de crescimento na casa dos dois dígitos pela próxima década até a maturação completa.

Isso se explica pela crescente terceirização de frota (que aqui não chega a 25% contra 70% em outros países), pelo aumento do rent a car (aluguel para lazer que deve crescer 10% neste verão) e pelo papel dos aplicativos de transporte. Confira a entrevista.

AGÊNCIA DC NEWS – Quais foram os principais fatores que impulsionaram o crescimento mesmo no momento econômico desfavorável?

PAULO MIGUEL JR – São vários fatores. O primeiro é a tarifa. Antes da pandemia, vínhamos com tarifas equilibradas com o preço do carro. Depois da pandemia, cinco anos atrás, a tarifa de locação não subiu tanto quanto o preço dos carros. Então tivemos um período de tarifas defasadas. 2025 foi ano de recomposição de tarifa, isso também aumentou o faturamento. Outro ponto é o aumento da procura por carros alugados, principalmente carros por assinatura. 

AGÊNCIA DC NEWS – Quais as vantagens do carro por assinatura?

PAULO MIGUEL JR – É o contrato de longo prazo para pessoa física, que vai de 12 a 48 meses. Substitui o financiamento do veículo. No lugar de financiar, pagar IPVA, seguro, manutenção e toda despesa do carro, se paga um valor fixo por mês que já tem tudo isso incluso, em uma condição financeira muito menor. As locadoras têm volume, e com esse volume conseguem diminuir o custo e repassar isso no preço.

AGÊNCIA DC NEWS – Qual é o perfil de quem aluga? Para quais fins os motoristas mais alugam carros?

PAULO MIGUEL JR – O maior volume dos aluguéis ainda é para fins de negócios. Atendimento de empresas, terceirização da frota, deslocamento de funcionários para reuniões… esse é o nosso maior público. Também temos um movimento bem consistente de motoristas de aplicativo. Inclusive vou para a China no ano que vem junto com a 99. Queremos entender exatamente o modelo deles. Lá a maioria dos carros de motoristas de aplicativo são locados. Eles conseguem manter uma fidelidade maior e uma renovação de frota mais contínua. 

AGÊNCIA DC NEWS – E o perfil de veículos mais procurados? Há alguma tendência, como os carros elétricos, por exemplo?

PAULO MIGUEL JR – Essa é uma boa pergunta. Até a pandemia, as locadoras tinham um mix muito variado de frota, inclusive com um grande volume de SUVs. Mas com o aumento do preço do carro e a incapacidade de pagamento, tanto da pessoa jurídica quanto da pessoa física, o mix mudou. Hoje a predominância é de carros de entrada. Reduziu bastante o número de veículos com maior valor agregado. A condição financeira do brasileiro ainda impacta o setor.

AGÊNCIA DC NEWS – Então essa é uma forma do setor se manter mesmo com o próprio poder de compra reduzido.

PAULO MIGUEL JR – Exato. E recentemente li uma matéria efetiva sobre a ideia pré-indústria automotiva para 2026 e eles não esperam um grande crescimento. Vai ser um ano complicado com Copa do Mundo e eleição. Muita instabilidade interna e externa.

AGÊNCIA DC NEWS – E qual é o balanço que a Abla faz da indústria automotiva? A última década não foi fácil para o setor no Brasil.

PAULO MIGUEL JR – Este é um momento de observação. As empresas não deixaram de investir mesmo com esse cenário complicado da indústria. Acreditamos no setor de locação. Sabemos que ainda temos muito para crescer e buscamos as melhores condições para atender a demanda. Eu falo que as locadoras são sensíveis ao momento e têm uma flexibilidade muito grande em se adaptar às situações. Também haverá um grande avanço das montadoras chinesas no Brasil.  Vimos no salão do automóvel. Mas o mercado de veículos para o setor de locação continua sendo da indústria nacional. As locadoras compram em torno de 25% dos emplacamentos no Brasil, sendo que 99% desses carros são da indústria nacional.

AGÊNCIA DC NEWS – E como esses eventos, Copa e eleições, podem afetar o setor?

PAULO MIGUEL JR – Copa do Mundo nós vemos como um fator que pode atrapalhar o comércio em geral. Já durante as campanhas eleitorais, os candidatos viajam e buscam locação. Isso tende a movimentar o mercado também.

AGÊNCIA DC NEWS – Falando em tendências, como os avanços tecnológicos refletem no setor?

PAULO MIGUEL JR – Eu costumo dizer que as locadoras de veículos atualmente são instituições financeiras e tecnológicas. Quem efetivamente não tem tecnologia dentro das suas empresas está fadado ao insucesso. Usamos tecnologia no controle e gestão de frota. Hoje a telemetria avançada é um fator que contribui muito para a preservação do bem. Análise de condição de motorista, principalmente em terceirização de frota. Com isso, podemos reduzir riscos de acidentes.

AGÊNCIA DC NEWS – E sobre a demanda crescente por sustentabilidade? Por opções com redução de emissão de carbono?

PAULO MIGUEL JR – Incentivamos nossos clientes a usarem etanol. O carro elétrico ainda está longe de ser uma realidade dentro das locadoras no Brasil. Por questão de infraestrutura, preço, ainda tem uma certa resistência, mas para contribuir com a descarbonização recomendamos a utilização do etanol.

AGÊNCIA DC NEWS – Como a Abla orienta seus associados em momentos de dificuldade econômica e pressão para seguir as tendências?

PAULO MIGUEL JR – A Abla tem várias parcerias com instituições financeiras, com empresas de software. Hoje um dos grandes trabalhos da Abla é levar a tecnologia e as condições financeiras, normalmente mais próximas dos grandes players, para os pequenos players. Tentamos criar um ambiente mais harmonioso, onde não haja tanta discrepância entre a locadora pequena e a locadora grande. Tentamos levar ao associado as melhores práticas de gestão. Temos uma universidade corporativa, onde fornecemos cursos de todas as áreas do setor de locação, tanto para os empregados como para os gestores. Temos buscado cada vez mais trazer a profissionalização para todas as locadoras.

AGÊNCIA DC NEWS – E quais são as principais dificuldades enfrentadas pelo setor de locação atualmente?

PAULO MIGUEL JR – Hoje em dia nossa principal dificuldade é crédito. O setor de locação de veículos é um setor muito alavancado. Mas com o alto índice de inadimplência vivemos uma restrição de crédito geral. Hoje, com as taxas praticadas pelos bancos inviabiliza algumas operações de locação.

AGÊNCIA DC NEWS – Como as locadoras se distribuem pelo país?

PAULO MIGUEL JR – A maior concentração de locadoras está nos grandes centros urbanos, principalmente em Minas Gerais, São Paulo e Paraná. A utilização urbana predomina, mas temos sentido uma grande entrada do agro na locação do veículo. Esse movimento alavanca a movimentação do setor em outras partes do país, e não só de locação de carros, mas até de máquinas agrícolas.

AGÊNCIA DC NEWS – E de que forma o crescimento do setor se relaciona com a mobilidade urbana nas grandes cidades?

PAULO MIGUEL JR – O setor se coloca como um serviço complementar ao transporte coletivo, seja rodoviário, aéreo ou naval. Ele não precisa ser o transporte principal, mas apenas aquele que leva do aeroporto ao hotel, por exemplo. Nas grandes cidades, principalmente durante a semana, a pessoa usa o transporte público e, no final de semana, se for fazer uma viagem, pode alugar um carro. E isso ajudaria não só no deslocamento, no alívio do trânsito, mas também na redução de emissão de carbono.

Mais notícias de Economia

Dúvidas, Críticas e Sugestões? Fale com a gente

Tags

Os cookies nos ajudam a administrar este site. Ao usar nosso site, você concorda com nosso uso de cookies. Política de privacidade

Aceitar