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Gafisa diz não saber quem comprou um terço de suas ações

20:02 | 15/02/2019
A construtora Gafisa, uma das marcas mais tradicionais do mercado imobiliário brasileiro, se encontra em uma situação pouco usual para uma companhia de capital aberto: em comunicado enviado ontem ao mercado, a empresa - que até o início desta semana era controlada pelo fundo GWI, do investidor Mu Hak You - disse não saber quem comprou mais de um terço de suas ações, em leilão feito na quinta-feira e que movimentou R$ 130 milhões. A nota foi divulgada após pressão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), xerife do mercado financeiro no País, que investiga o caso.
"Até o momento, a Gafisa não foi comunicada, quer pelo grupo GWI, quer pelos adquirentes, tampouco tem conhecimento de quem comprou tais ações", afirmou o comunicado, a diretora-presidente da companhia, Ana Recart, que chegou ao cargo pelas mãos do próprio GWI. "Portanto, a companhia não sabe quais são as intenções de tais acionistas sobre a composição do conselho de administração, bem como não tem condições de afirmar, ou verificar se os mesmo possuíam participação anterior na Gafisa."
A Gafisa informou, no entanto, que a fatia do GWI em seu capital, que chegou a superar a marca de 50%, foi reduzida a 7,7% após a realização do leilão, que negociou 33,67% dos papéis da empresa, por R$ 131,4 milhões. Cada ação saiu a R$ 9. A corretora Planner, representante do GWI, foi a vendedora e abriu a oferta a qualquer comprador de mercado.
A operação teve cerca de 50% do volume negociado a termo (ou seja, a prazo), segundo dados da B3, a Bolsa paulista, levantados pelo Estadão/Broadcast. A movimentação sinaliza que parte relevante do novo quadro de sócios da Gafisa pode ter sido pulverizada nas mãos de especuladores financeiros, e não adquirida por companhias com experiência em construção civil.
O motivo para a realização do leilão, segundo fontes do setor, seria o fato de a GWI estar inadimplente em um investimento a termo na Gafisa intermediado pela Planner. Por isso, a corretora convocou o investidor Mu Hak You a cobrir parte deste investimento, mas ele não teria tido fôlego financeiro para tanto, passando a sofrer pressão para liquidar o negócio.
Numa operação a termo, o investidor compra uma determinada ação a preço fixo, com pagamento em data futura. Se a ação sobe, o investidor ganha. Mas, se cai, tem de pagar por um ativo que vale menos. Ou seja: é um negócio de risco mais elevado. Por isso, as corretoras exigem um depósito como garantia de pagamento. Como as ações da Gafisa despencaram 44,5% do começo do ano até o fim do pregão de quinta-feira, a aposta da GWI não ficou economicamente em pé. Os fundos da gestora registram perdas de 80% a 90% em 2019.
O leilão, porém, pode não ter sido a despedida de Mu Hak da construtora. Fontes do setor imobiliário disseram que parte das compras do leilão de quinta-feira podem ter sido realizadas por pessoas ligadas ao investidor. Mu Hak costuma se apoiar em amigos e familiares para realizar investimentos, lembraram essas fontes.
O processo administrativo aberto pela CVM relativo ao leilão é o segundo que a empresa sofre neste mês. O primeiro, no dia 6, referiu-se à notícia de que a Polo Capital acusava a companhia de desvios de valores.
Procurada, a GWI não respondeu ao pedido de explicações. (COLABORARAM WAGNER GOMES e RENATA BATISTA, DO RIO)

Agência Estado

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