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Coelce vira Enel e aposta em geração distribuída no Ceará

Confira a íntegra da entrevista com Abel Rochinha e Carlos Zarzoli

21:15 | 07/11/2016

O POVO - Como é essa decisão de abrir mão de uma marca que tem 45 anos de história no Ceará para mudar para Enel? O que muda além da marca?

Carlos Zorzoli - Enel vem de um reposicionamento estratégico, que começamos há mais de dois anos, que vê toda a companhia no mundo, focada em três pilares de crescimento, de desenvolvimento: energias renováveis, redes, que significa distribuição, e serviços e produtos de valor agregado para o cliente. Temos aqui duas tecnologias, renováveis e redes e, no meio, o cliente. Toda essa estratégia que chamamos open power, energia aberta, baseia-se em uma maior abertura com o mundo externo, ou seja, clientes, fornecedores, parceiros. Abrir o uso de energia para pessoas que não têm energia. No Brasil isto é pouco, porque a penetração de eletricidade no País é muito alta, mas não é assim em todo o mundo. E também abrir a novas utilizações da eletricidade, por exemplo, mobilidade elétrica. Ser parte de um grupo mundial que é pouco conhecido em alguns países, porque utiliza marcas distintas, mas porque não pertencer, ser parte, ser uno com este grupo? Isso agrega muito valor, porque permite trazer as melhores tecnologias, melhores praticas de um lugar ao outro. Nesse sentido, sabemos que Coelce é um nome que tem história, branding forte. Por outro, uma companhia que tem mais de 60 milhões de clientes no mundo, atua em 30 países, que tem 90 mil megawatts (MW) de capacidade instalada, que tem um branding internacionalforte. Na verdade, a mudança de logo é uma forma de representar a mudança no mundo. O mundo está mudando, chegando novas tecnologias, alguns consumidores têm exigências novas, alguns são também pequenos geradores, tudo isso precisa mudar. Então nós também escolhemos mudar e ser parte dessa transformação, no lugar de ser mudado. E nessa mudança, queremos ser parte da solução e também decidimos mudar a marca para uma mais jovem, mais moderna.

 

OP – Então além da marca há uma mudança de cultura...

Abel Rochinha – A área de energia elétrica sempre foi uma área muito tradicional, muito de engenheiro, muito técnica, muito tecnologia, que tem um valor imenso, não tem dúvida. Mas a relevância do cliente se impõe. Então, se antes tinham concorrentes que eram bem claros, que eram empresas de energia elétrica, hoje em dia isso está mudando radicalmente. A única coisa que não muda em todas essas mudanças é que o fato cliente tem um valor fundamental. O que estamos fazendo é uma mudança cultural, toda a forma de agir, o que já vinha ocorrendo algum tempo, desde que iniciou essa gestação na Itália, na Espanha, foi para países da América Latina. A ideia é muito mais de mudar a forma de enxergar o nosso negócio, muito mais focado do que nos fios, nos postes... E aí a mudança de marca ela complementa ela é consistente com essa mudança, mas a mudança cultural é que é fundamental.
 
OP – Qual o investimento para se fazer uma mudança como essa?

Rochinha – Tem investimento bastante elevado em termos de tecnologia, já está ocorrendo no Brasil, que é você introduzir aspectos, como disse o Carlos, de melhores práticas que existem na Europa. Por exemplo, colocamos agora no Rio de Janeiro e estamos trabalhando no Ceará, que é a questão de telecomando, ou seja, em vez de mandar eletricista em algum lugar para religar aquela parte que não foi afetada, você faz isso automaticamente do centro de controle. Você reduz em 90% alguns casos de intervenção na rede. Se antes você levava 50 minutos, vai melhorar nossa qualidade aqui e o caminho que vai nos levar a atingir níveis de qualidade igual a dos países desenvolvidos. Esse é o lado concreto, mas tem o outro lado de mudar a cabeça das pessoas. Você se volta para atender melhor o cliente. Se você aumenta e muito a geração distribuída e isso é um caminho, já está acontecendo em diversos países, e saiu uma reportagem dizendo que aumentou 400% a geração distribuída no Brasil, no último ano (dado Aneel), e isso vai ser só o início. O que vai acontecer, vai caber à Enel o papel de regular a entrada da demanda de energia e como isso se distribui dentro da nossa rede. Em algum momento vamos ser mais a bateria do sistema do que propriamente o fornecimento de energia. Sua casa vai estar energizada pelo sol e a gente vai fazer o controle. Eu acho que esse modelo vai disparar.

 

OP – Quanto se investe em tecnologia?

Rochinha – Temos o dado, mas não podemos divulgar, porque, como é um dado para frente, a Coelce é empresa aberta e temos que seguir a legislação. Mas, posso garantir que o volume de investimentos que estaremos realizando vai ser muito maior do que já vinha realizando. A Coelce sempre teve um investimento acima da reposição de seus bens e agora vai crescer muito mais do que isso.
 

OP – Quando começa a chegar a conta de luz com o novo nome?

Rochinha – A partir da quinta-feira os clientes já estarão recebendo a conta com “Coelce agora é Enel”.

 
OP – Por falar em investimento, o que a Enel Distribuição Ceará investiu no Ceará esse ano e o que investirá para 2017?

Rochinha – Foram R$ 333 milhões até 30 de setembro, aumento de 13% em relação ao mesmo período do ano passado. Na verdade, a gente está endereçando duas questões aqui na Enel Distribuição Ceará. A primeira questão, que era um problema que já vínhamos discutindo na imprensa por um bom tempo, que é o atendimento a novas ligações de energia, que a Coelce tinha um gap, uma diferença, e nós tínhamos um acordo com Aneel e Arce, que está andando muito bem. Estamos atendendo muito bem. Até meados de junho do ano que vem encerramos toda a pendência de novas ligações. Essa é uma parte dos investimentos e a outra que estamos iniciando agora, que vai entrar no lugar desses investimentos, é a questão de tecnologia, que começamos no Rio de Janeiro, em que os números de qualidade de lá são muito piores que a Coelce. A Coelce é top Brasil em cima disso. Mas vamos também trazer essa tecnologia, que acho que vai mudar o patamar de oferta de qualidade que vamos ter no Ceará nos próximos anos. Agora se pegar o montante de investimentos que temos feito no Ceará, ela vem crescendo a taxas de quase 10 a 15% ao ano, ou seja, a aplicação de dinheiro aqui no Estado é um dos pontos fortes da agora antiga Coelce e Enel Distribuição Ceará. Se tem uma empresa que tem investido e colocado dinheiro no Estado é a Enel Distribuição Ceará. Temos trabalhado ao contrário do restante da economia. Enquanto ela retraiu, aceleramos.

 
OP – Como a Enel pensa em investimentos em energia renovável no Ceará?

Zorzoli – A Enel, através de sua subsidiária Enel Green Power, cuja marca permanece, porque já é alinhada à visão da companhia e tem um valor muito importante, está investindo muito forte em energia renovável. Em especifico no Ceará, o Ceará foi o primeiro estado do Brasil onde especialmente a geração de energia eólica começou. A vantagem de ser o primeiro acabou virando uma desvantagem, no sentido que, no Ceará já esgotamos a capacidade da área de transmissão de interligar a geração renovável adicional que o Ceará podia fazer. Então, infelizmente, até que alguns gargalos, nesse quesito de linhas de transmissão, solucionem-se, é difícil fazer grandes projetos renováveis no Ceará. Não obstante a isso, trabalhamos para estarmos prontos no momento que os gargalos se resolvem e não obstante a isso, trabalhamos com outra companhia do grupo Enel, que é a velha Prátil, que vai se chamar Enel Soluções, na geração distribuída. E não é segredo que no Ceará completamos o primeiro condomínio solar com um projeto de geração distribuída que permite desde abastecer a fornecer eletricidade à rede de farmácias Pague Menos. No sentido das pequenas usinas de geração distribuída, continuamos a acreditar que o Ceará tem recurso excelente, vamos seguir nisto. Para se ter ideia, temos hoje mais de 130 clientes no ceará atendidos com geração distribuída. Isso vai crescer e queremos ser a principal companhia que faz isso não só no Ceará.

 
OP – Para onde a Enel pretende expandir no Brasil?

Zorzoli - Não posso dar números exatos, porque em 15 dias vamos apresentar em Londres  planejamento estratégico da empresa. Mas o que posso dizer é que nos últimos anos investimos no Brasil, no geral, em porcentagem, dos investimentos mundiais, mais da participação do Brasil. Crescemos nas renováveis, tanto grandes usinas quanto, geração distribuída, crescemos na nossa rede de distribuição e estamos atentos a todas as demais oportunidades de crescimento.

 
OP – A aquisição de térmica no Pecém vai se consolidar?

Rochinha – Estamos aguardando condições de leilão de energia que possam tornar interessante essa questão.

Zorzoli - O mercado de geração é nacional, não estadual, depois, as usinas têm de estar em algum lugar. A possibilidade de fazer a nova usina depende muito do mercado de geração brasileiro. Hoje a tendência é que quase toda nova geração seja renovável. Isso é tendência do País. Nós, como temos enfoque no cliente, queremos ter carteira, um portfólio de tecnologia o mais abrangente possível. Mas a possibilidade de fazer investimento específico depende de encontrar um cliente, que no caso do sistema elétrico brasileiro requer aquela energia. É um projeto que seguimos desenvolvendo, mas cuja efetiva realização depende de condições de mercado.
 

OP – Qual a autonomia do senhor como presidente da Enel Distribuição Ceará, diante da Enel?

Rochinha – A mesma que eu tinha antes, não mudou nada. Esse é um processo que já vinha acontecendo. A mudança da marca é só um dos elementos de todos os processos de mudança. O que se alterou nos últimos anos foi o volume de investimentos, a quantidade de tecnologias, melhores práticas e acesso a capitais mais competitivos... Tudo isso tende a crescer e já vem crescendo no momento em que fazemos parte de um grupo maior.
 

OP – Como a Enel privilegia a contratação de empresas para prestação de serviços aqui no Ceará?

Rochinha – Continuamos como antes, somos um grande empregador direto ou indireto aqui no Ceará.

Zorzoli – O Ceará provavelmente já tem vantagem competitiva comparada ao que a Enel atua, então, não precisa de vantagem adicional. Assim como temos que ganhar leilões, os nossos fornecedores têm que ganhar leilões ou licitações. Mas Isso não é problema, é normal. É bastante normal porque é uma empresa local, que para a maioria dos serviços ganhe uma companhia cearense, mas não tem número reservado, ou garantizado, porque isso é uma distorção da competitividade, que, ao final, reflete negativamente para os consumidores também.
 

OP – Qual a porcentagem de suprimentos que a Coelce compra aqui no Ceará?

Rochinha – Quase todos os nossos serviços são feitos por pessoal local. Na questão de materiais, vale para o Brasil inteiro, porque temos que buscar aonde tem preço melhor para colocar e isso se reverter em custos lá na frente.
 

OP – Em relação ao papel cultural, a Coelce tem um papel de importante incentivo à cultura. O que se percebeu em uma pesquisa do O POVO com o mercado foi que diminuiu essa participação. Com a Enel, essa estratégia muda também?

Rochinha - Reduzimos a participação muito mais em função da situação econômica do que qualquer coisa. Então, esse é um ponto relevante. Em teoria, com a mudança da marca não se altera em nada, no momento que a economia melhorar retornamos.

Zorzoli – Enel tem sempre muita atenção em relação às comunidades e com as sociedades onde atua. Nesse sentido, ser parte da sociedade já está alinhado com a nova estratégia da Enel. Para lembrar, a Enel Distribuição Ceará é a empresa que mais investe em cultura no Estado e vamos continuar sendo. Já em 2016 ante 2015, um pouco de retomada é o que estamos fazendo. Agora é verdade que em momentos de crise se aperta um pouco de tudo, mas já esse ano fizemos mais do que no ano passado.
 

OP – A Coelce se destaca no equilíbrio econômico-financeiro e é a sexta vez como melhor distribuidora do País, ao mesmo tempo em que despencou 11 posições no ranking Aneel de serviços prestados no Ceará. Além disso, é a terceira maior reclamada no Procon. Ao mesmo tempo em que teve melhora na receita. Porque melhor por um lado e por outro não?

Rochinha - O principal efeito de 2015 foi efeito Chesf, com blecautes, só que isso entra na conta. Para a Aneel ficamos com serviço pior. Naquela época, imagina que pioramos 100%, sendo 1/3 por conta da Coelce e 2/3 pela Chesf. Esse ano acho que o resultado saiu agora em 17 de novembro, você vai ver que melhoramos muito os números. Resolvemos uma serie de questões. Mas o principal está nos 2/3, porque a Chesf melhorou esse ano. Por um lado tem medição a questão da percepção do cliente. O cliente que está sem energia não quer saber quem foi, se foi Enel ou Chesf. Esse ano deve melhorar, porque a Chesf melhorou seu desempenho. A questão do Procon já foi objeto de várias discussões. O fato é que temos muitos clientes, porque mesmo pessoal de celular está disperso em quatro operadoras. O que mais se aproxima de nós é a Cagece e mesmo assim a Cagece não está em todos os lugares. Os únicos caras que abrangem mais de 3 milhões de clientes somos nós. O fato que você falou, somos o terceiro, já me deixa satisfeito, porque mesmo assim já não estou no topo, porque é mera questão probabilista. Você tem maior quantidade de pessoas é óbvio que número de reclamações aumenta. Nosso nível de reclamação é bastante competitivo em todos os lugares do mundo. Um exemplo: acabamos de sair índice de refaturamento de contas (IRC), somos o segundo lugar do Brasil de novo. O que demonstra que a qualidade do nosso trabalho mesmo tendo que entregar 3 milhões de contas por mês, o nível de refaturamento, de conta com erro, teve que ser refaturada está na casa do 1 a cada 10 mil.
 

OP – A Enel tem essa prospecção de números de clientes que aumenta no Ceará?

Rochinha – A gente cresce todo ano na casa dos 120 mil clientes. Se pegar histórico temos crescido na casa de mais de 4% todo ano em termos de cliente. Esse número é mais elevado que a média nacional e sempre tem mais gente pedindo ligações, por isso que geramos aquela diferença que estamos agora resolvendo.
 

OP – E tem o número de contratações para atender a essa demanda? O crescimento é proporcional?

Rochinha – Obviamente não é proporcional, você vai ganhando eficiência. Mas hoje devemos ser um dos grandes geradores de mão de obra direta e indiretamente no Ceará. A Coelce aumentou em 33% o número de pessoal que trabalha apenas com obra para novas ligações no estado, tendo contratado, por meio das suas empresas parceiras, cerca de 231 pessoas apenas com esse objetivo.
 

OP – Outra dificuldade em levantamento do O POVO realizado no Procon é com relação ao parcelamento das dívidas. Aconteceu um mutirão de quitação de dívidas, mas a reclamação no Procon é que a entrada para o parcelamento ainda é alta. Pensa-se em entradas mais baixas e percentual mais elástico para os consumidores não terem sua energia cortada?

Rochinha – Isso é reflexo da economia. De outro lado tentamos flexibilizar o máximo. Por outro lado somos o caixa, recebemos o dinheiro que vai pagar a transmissora, que vai pagar a geradora... Então, tem limite essa flexibilidade, estamos sempre abertos a outras demandas. Mas você tem que concordar comigo que o Procon tem um víeis muito mais do consumidor. Sobre o parcelamento, depende da situação e dívida do cliente, e pode ter até 10 parcelas. A companhia realiza também alguns feirões durante o ano, oferecendo condições especiais para os clientes. Durante a ação deste ano, em março, foram registrados 11.750 parcelamentos, um acréscimo de 118% em relação ao mesmo período do mês anterior.
 

OP – Vocês compram e vendem energia no mercado por quanto em média?

Rochinha – Na verdade compramos em leilões, somos meros quase que agentes...

Zorzoli -O que fazemos é dar projeção da demanda elétrica e dizemos que necessidade de energia temos para poder fornecer aos nossos clientes. Depois a EPE organiza leilões para suprimentos de energia e ganha geradores no País, depois cada distribuidora tem que assinar obrigatoriamente contatos com aqueles geradores que ganham os leilões para suprir sua necessidade. Então, não temos nenhum controle nem sobre quem compra energia e nem quanto paga.
Rochinha – A conta de luz tem especificado onde foi alocado o dinheiro. A cada 100 reais, 20 reais é o que vem para as distribuidoras.
 

OP – Na Assembleia Legislativa, os deputados estaduais já foram várias vezes ao púlpito para se queixar da Coelce. Como a Enel vê essa relação com a Assembleia?

Rochinha – Igual como era, sempre foi muito positiva. É óbvio que como somos uma das maiores empresas do Estado, é obvio que somos sempre assunto e não vamos dizer que somos perfeitos, não somos. O caso das novas conexões sempre foi assunto abordado e vamos. Se convidados à Assembleia vamos conversar. Essa empresa sempre teve relação com a sociedade muito próxima. Podemos discordar, é parte da democracia, mas sempre tem resposta, atuação e tentativa de chegar na melhor solução para todas as partes.
 

OP – O senhor tem perfil mais discreto na relação institucional da Enel Distribuição Ceará. É decisão da empresa ou sua?

Rochinha – Eu diria que muito mais o meu lado. Meu papel é mais fazer máquina funcionar e entregar bom resultado para a sociedade do que qualquer outra coisa.
 

OP – Aqui se enterra a Coelce?

Zorzoli – Aqui não estamos nem saindo e nem enterrando ninguém. Estamos participando de uma revolução no setor elétrico, que vai acontecer no Brasil. Com a mudança, queremos ser protagonistas da mudança. Havia um velho CEO da companhia que dizia: “ou você fica na mesa ou no cardápio”. Queremos estar na mesa como atuando na liderança.

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