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Os negócios de Pio

06:00 | 05/03/2016

Os dois lados da família de Pio Rodrigues já tinham na veia o tino comercial. O pai Clóvis Rolim, paraibano, montou o Armazém Nordeste, a concessionária Crasa e a imobiliária C.Rolim em Fortaleza. Já o avô foi fundador da Casa Pio. Quando o senhor Clóvis Rolim fez matrimônio com dona Edir Rolim, nasceu a nova geração de empresários. Hoje, Pio comanda a C.Rolim Engenharia, que já está sendo tocada pelos seus filhos Ticiana e André. A sucessão já está encaminhada. No ramo imobiliário, o crescimento em 2015 foi de 40% e, apenas em janeiro, 20%. Para este ano, os planos de crescimento continuam e é o que o empresário conta nesta entrevista.

 

O POVO – Como seu pai, paraibano, veio para Fortaleza?
Pio Rodrigues – Meu pai (Clóvis Rolim) é de Cajazeiras, Paraíba. Começou a vida como contínuo das lojas Pernambucanas. Depois vendedor, depois caixeiro viajante - uma espécie de representante. O sonho da vida dele era ser gerente da filial que ia abrir em patos. Mas foi uma decepção enorme ele não ter sido nomeado. Aí um amigo dele Agenor Costa, que fundou a Xepinha, vinha para Fortaleza abrir negócio aqui e chamou meu pai. Ele soube aproveitar a oportunidade e veio para Fortaleza. Ele se associou ao Aloísio Ximenes , que era vendedor da loja, e montaram negócio próprio, que era o Armazém Nordeste. Então o início das lojas veio com o próprio negócio, como sócio, em 1954.
OP – Quando seu pai veio para cá existia a loja do seu avô Pio Rodrigues, cuja filha Edir acabou se casando com seu pai. Como ele conheceu a dona Edir Rolim e nasceu essa nova família Rolim-Rodrigues?
Pio – Meu avô era uma das grandes figuras daquela época, foi quem comprou, por exemplo, o terreno do Náutico. Aquelas castanholeiras que têm plantadas ali foram plantadas pelo vovô. As primeiras reuniões do Náutico foram feitas na casa dele, na rua assunção, 54, que, naquela época era a Beira Mar de Fortaleza, onde, por exemplo, morava o doutor Demócrito Rocha e outras grandes figuras, como Paulo Sarasate. Então, o que aconteceu foi que o papai chegou e trouxe uma carta de recomendação do Geraldo Rodrigues, que era um primo longe do vovô. Papai não conhecia ninguém aqui, foi lá na casa do seu Pio e apresentou a carta e foi muito bem recebido. Até o momento que a dona Edir, filha única, e seu Clóvis se conheceram. Houve resistência, meu avô restringiu o namoro. O namoro entre eles começou quando ela foi comprar um corte de tecido no Armazém Nordeste e meu pai a atendeu. Quando viu aqueles olhos azuis, diz ela que embarcou nos olhos azuis do papai.


OP – Qual a relação que o grupo C.Rolim tem com o grupo O POVO?
Pio - A Casa Pio foi fundada pelo meu avô no mesmo ano e no mesmo mês do O POVO. Janeiro de 1928. As famílias e os grupos empresariais sempre caminharam juntos. Temos muita afinidade pelo complexo aqui do jornal O POVO. E vovô sempre teve só uma loja, começou na rua Guilherme Rocha (no Centro), que foi para a avenida Barão do Rio Branco (José Bonifácio), e era um homem muito envolvido com a sociedade, gostava muito de sítio, de agricultura. Meu avô atendia as grandes famílias naquela época e naquele tempo não existia crediário, mas tinha fiadinho na caderneta e tudo o mais.

OP – Em 1975, sua mãe assumiu, junto com seu pai, o comando dos negócios da família. Como foi a transição Casa pio para o grupo C.Rolim?
Pio – Os negócios do papai começaram em 1954 e a Casa Pio veio de 1928. A mamãe era filha única e o papai, mesmo sendo comerciante, nunca quis misturar as coisas com os negócios do vovô. Para a Casa Pio tínhamos dois caminhos: ou encerrar a empresa e o negócio, ou dar continuidade. Como a mamãe é filha única, não tinha outro caminho senão tocar os negócios com o papai e nasceu a nova gestão da Casa Pio, que hoje faz parte do grupo C.Rolim. Mas de 1928 até 1974 ela funcionou só com um imóvel, depois daí que a Casa Pio entrou no grupo C.Rolim é que ela aumentou o número de lojas. O papai já tinha muitas lojas de tecido, já tinha a Crasa, que é de 1964, já tinha a imobiliária C.Rolim. O grupo C.Rolim era muito maior que a Casa Pio. E hojeao carro chefe da C.Rolim são os calçados, que está sob o comando do Clóvis Júnior.

OP – Mas quem assumiu o comando primeiro da Casa Pio, depois do seu pai, foi o Ricardo
Pio – Mas depois o papai colocou o Ricardo na Crasa e colocou o Clóvis Júnior na Casa Pio. Naquela época ele tinha mais ou menos 20 anos de idade, o cabelo no ombro, só usava tamanco e não usava sapato. Nós tínhamos, naquela época, mais ou menos 40 funcionários. Na transição, o Ricardo falou, agradeceu, pediu ao papai para apoiar o Clóvis júnior e perguntou se ele tinha alguma coisa a dizer e ele disse que não tinha nada a dizer. Mas aí tinha uma LP, uma Linha Privada, que dava direto na sala do seu Clóvis. Todo dia o Clóvis Júnior batia a mão não telefone e ligava: ‘papai e isso assim, assim e assim?’. E o papai respondia. Um dia ele ligou para o papai para perguntar sabe Deus o quê e pegou o papai meio aporrinhado: ‘olhe, eu lhe botei aí para resolver problema, não foi para trazer problema não! Resolva!’. Aí bateu o telefone na cara do Clóvis Júnior e o Clóvis Júnior olhou para o telefone e disse assim: ‘nunca mais eu pego nesse telefone’. Começou a tomar decisões e, a partir daquele momento, ele foi o gestor, o grande comercial da Casa Pio, que é a maior empresa do grupo hoje. Isso foi mais ou menos 1976.

OP – Como o senhor define seu pai?
Pio – Acho que o papai nunca voou baixo. Ele era sempre um sonhador, idealizador. Ele, por exemplo, quando estava construindo, lá atrás, o edifício C.Rolim, aquilo era o prédio mais bonito do mundo. Quando terminou ele queria fazer um prédio mais bonito ainda. Sonhava com aquilo de manhã, à tarde e à noite, e quando terminava, ele ia fazer outro ainda maior do que esse. Ele era uma usina, de otimismo, de alavancagem e de abertura de negócios. Era muito rápido nas decisões. E era engraçado, porque o papai mal tinha o primário e dizia que era formado na faculdade Te Vira Filho (risos). E a dona Chiquinha, mãe dele, colocou ele no mundo e disse: ‘te vira filho!’.

OP - Qual o papel de sua mãe para o crescimento do grupo?
Pio – Dona Edir foi o grande esteio. A pessoa que primeiro foi mãe profissional e todos nós fomos muito bem acolhidos e muito bem formados. Ela tem papel fundamental, porque foi a grande companheira do papai e muito mais que isso, foi uma grande mulher. Mãe, no sentido de formação, integridade de caráter e sensibilidade, de acompanhar a tudo e a todos. E acompanhou o papai até o último suspiro dele. Sempre teve força muito grande e sempre exerceu papel de ponderação, porque papai era um vulcão em erupção e ela exercia papel de colocar os pés do papai no chão. Ela ainda hoje é o equilíbrio. Vai todo o dia ao escritório. É uma rainha.

OP – A educação era rígida demais?
Pio – Sempre fomos tratados como grandes amigos. Papai adorava brincar com a gente desde criança, mas ele era muito exigente. Na hora de pegar para exigir a responsabilidade ele exigia. Dava liberdade, mas com responsabilidade. Resolva, faça, mas cobrava demais. Sempre fomos criados para saber dar valor das coisas. Sem luxúria, sem exageros, com muita responsabilidade na formação ética e profissional.

OP – Qual o tamanho C.Rolim hoje?
Pio - O grupo tem três vertentes: varejo, nossa vocação, a automobilística, com consórcios, automóveis, e setor imóveis. Nesta se encaixa a C. Rolim Engenharia e as imobiliárias. No total temos 16 empresas, 5,2 mil colaboradores, 2,2 milhões clientes cadastrados em Fortaleza, Recife e João Pessoa. Realizamos 3,2 milhões em negócios no ano passado e são 78 unidades de negócios. Algumas coisas que dão muito prazer, porque, por exemplo, a Casa Pio é líder de recall no setor de calçados disparada, é a primeira cliente nacional em termos de loja, da Havaiana e a segunda da Grendene. Já foram Lojista do Ano o seu Clóvis, o doutor Pio e o Clóvis Júnior. Então são três Lojistas do Ano de um mesmo grupo. Esse ano estamos abrindo Casa Pio na Jurema, acabamos de inaugurar uma lá em João Pessoa. Nós estamos trabalhando uma nova filial do C.Rolim ainda esse ano, estamos vendo ainda. Esse negócio a gente não pode falar muito. Mas, nós temos dois lançamentos prontos para esse ano que vamos aguardar o mercado para lançar na hora certa e momento oportuno.

OP – Como o grupo se mantém estável?
Pio - Ser por definição autossustentável. Vivemos em um País onde você não pode pensar em se segurar nas políticas governamentais ou acreditar em governos. Sempre tocamos os negócios, independentemente dos governos. Nunca tivemos nem devemos nada com o Governo. Nunca pedimos financiamento a bancos. Sempre administramos nossos negócios com duas consciências imensas: a diferença entre crescer e inchar. Crescer é consistente. Inchar, na primeira crise, qualquer cara que está inchado além da conta não se sustenta.

OP – Qual foi a pior crise pela qual passaram?
Pio – Foi na época do seu Clóvis, porque ele era sócio do Aloísio Ximenes e o Aloísio saiu. Ele teve que indenizar o Aloísio. Ele tinha uns 40% no Armazém Nordeste, e nos outros negócios: da Crasa, da imobiliária. Foi uma descapitalização grande. O Aloísio saiu capitalizado, conhecedor do negócio, e ele montou o Armazém Sul. Nessa época, lembro muito bem, os cartórios batendo na porta, uma confusão muito grande e me contaram que o papai disse assim: ‘eu vou morrer. Se é para morrer, não vou morrer aqui no escritório’. E foi para o meio da Praça do Ferreira e olhou para a Loja 1, que ainda hoje fica na esquina da Lisbonense, toda estocada, cheia de clientes. A Loja 2 ,que é em frente à coluna da hora também está cheia de gente. Aí ele disse: ‘rapaz, vou morrer não, vou enfrentar esses caras um a um’. Ele levantou a cabeça, colocou as calças no lugar e estamos aqui para contar a história.

OP – Mas a morte do pai de vocês também foi difícil...
Pio – Acho que o momento mais difícil para nós foi a morte do papai. Nós éramos muito novos. Papai adoeceu eu tinha 32, Ricardo 30, Clóvis Júnior, 28, Eduardo, 25. Mas aí quando ele faleceu nós já tínhamos de fato assumido o negócio. Ele teve uma melhora e voltou para o negócio e a gente foi buscar reuniões executivas com ele. Ele disse para a gente resolver, que ele queria, a partir daquele momento, ser só presidente, não ser mais executivo. Nós já estávamos tocando.

OP – Falando em negócios, um ramo de vocês forte é o de negócios. Como foram construindo o patrimônio?
Pio - Nós praticamos isso desde a época do Pio Rodrigues que sempre comprou imóveis. Aquele bairro do campo do Pio era uma quadra que o vovô tinha. Essa questão de imóveis, toda vida, foi a poupança dos negócios do grupo. Temos a nítida e comprovada constatação de que o que garante, no futuro, a perpetuidade das famílias, e temos exemplos locais disso, que são aquelas famílias que apostaram em imóveis. Fazemos isso disciplinadamente. Temos shoppings centers, pontos comerciais alugados, prédios comerciais. Enfim, venda de imóveis. Temos muitas operações das lojas americanas. Meus irmãos dizem que esse aluguel dá para um tataraneto meu. Não tem coisa melhor, mais segura, não tem confisco de governo. Quem tem imóvel não se compra, não se vende.

OP – Como será a sucessão das empresas nessa próxima geração?
Pio - Estamos replicando a fórmula de descentralização, colocando nossos filhos, cada um em um ramo de negócios. É uma descentralização administrativa com centralização de filosofia e maneira de trabalhar. Quem tem que ser rico é a empresa e não a pessoa física. Muita gente confunde faturamento com lucro. Então estão todos direcionados. A Ticiana está na C.Rolim Engenharia junto com o André. A Isabela, que é a segunda, está na área cuidado dos negócios imobiliários da minha fração da família, que é o Pátio Água Fria, lojas na Monsenhor Tabosa, centros comerciais, salas. E o Guilherme, que é o mais novo, está na C.Rolim confecções. Ele está lá desde os 19 anos, tem 25 anos e é quem toca o negócio. É uma empresa de 450 funcionários, 12 lojas e que vem num crescimento muito acelerado, ocupando espaço no setor aqui de Fortaleza.

OP – Vocês cresceram 40% no ano passado e agora em janeiro foram 20% melhores que o mesmo período de 2015. A que devem esses resultados?
Pio – A C.Rolim vai completar 40 anos e toda vida que teve dificuldade no mercado melhora para nós. Presamos muito pela credibilidade e nunca entregamos um prédio sequer com um dia de atraso. Temos programa socioambiental, nos preocupamos com adoção de praças. Não queremos ser a maior, trabalhamos na qualidade, nas mudanças de tecnologia, na produção enxuta, no Lean Construction. Ano passado, fizemos operação com Hospital São Carlos e fizemos uma equação inteligente que deu essa alavancagem, que deu esse resultado do ano passado.

OP – Como o mercado imobiliário pode ajudar a modificar o cenário da Cidade?
Pio – Eu acho que esse programa de adoção de praças e espaços públicos da Prefeitura é um bom caminho. Hoje temos diversas praças. Nós adotamos cinco praças da Cidade. O que penso é que hoje o empresário moderno, a sociedade, tem que ser criativo, participativo e tem que dar a sua parcela de colaboração para a cidade onde eles vivem, onde seus filhos nasceram, onde seus netos vão morar. Acho que temos que ultrapassar o que está estabelecido e fazer algo a mais. E esse algo a mais é ter o carinho, botar a mão na massa e administrar espaços, a vocação da cidade, como se fosse seu próprio negócio.

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