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Apatia do câmbio reflete exterior e incerteza doméstica

08:10 | 01/06/2014
Em maio até o dia 29, o dólar à vista oscilou entre margens estreitas, na faixa de R$ 2,20 a R$ 2,25. Entre as razões que justificam a estabilidade, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, apontou a diminuição da volatilidade internacional. "Há calmaria no mercado de moedas, que está estabilizado", avaliou. Para alguns agentes do mercado financeiro, no entanto, há razões internas que também justificam a apatia do câmbio, além da influência externa.

Os especialistas destacam sobretudo as incertezas eleitorais trazidas pelas pesquisas, que não existiam nos meses anteriores, a desconfiança crescente de empresários e consumidores no desempenho futuro da economia (o resultado de 0,2% do PIB no primeiro trimestre divulgado hoje acirrou o sentimento), além da queda na demanda por proteção (hedge) cambial, uma vez que o fluxo financeiro para o País está negativo em maio pelo segundo mês seguido.

O economista da corretora do Banco Geral de Depósitos, Mauro Schneider, concorda com a avaliação do ministro Mantega de que o mercado externo anda mais tranquilo recentemente. Para ele, esse cenário é ilustrado pelo comportamento dos juros dos títulos do Tesouro dos EUA. A taxa do T-Note de 10 anos se aproximou de 3% em janeiro e hoje está oscilando ao redor de 2,46%, devido aos sinais dados pelo Federal Reserve de que os juros no país poderão começar a subir seis meses após o fim do programa de compra de ativos, previsto para setembro ou outubro deste ano. Essa percepção estimulou o apetite pelos mercados emergentes, avaliou.

A perspectiva crescente de que o Copom interromperia a alta da taxa Selic em sua reunião da última quarta-feira ajudou também a limitar a volatilidade cambial, além da própria sequência de pesquisas eleitorais. Schneider explicou que no primeiro momento as pesquisas mostravam tendência de queda das intenções de votos na presidente Dilma, mas a partir da segunda quinzena do mês houve uma estabilização das intenções de votos a favor da presidente Dilma ao redor do patamar de 40%.

O economista Sidnei Nehme, sócio-diretor da NGO Corretora de Câmbio, acrescentou que o fluxo financeiro negativo em maio, pelo segundo mês seguido, está por trás tanto da menor volatilidade cambial como da decisão do Banco Central de não rolar integralmente desde o fim de março os vencimentos de swap cambial dos meses subsequentes. Com a menor demanda por hedge cambial, em função do fluxo cambial negativo de US$ 1,476 bilhão em maio até o dia 23, o BC deixou de rolar cerca de US$ 4,5 bilhões, do total aproximado de US$ 9,6 bilhões em contratos de swap cambial que vencem em 1º de junho.

Para Nehme, o fluxo cambial mostra que o capital estrangeiro especulativo já realizou ganhos nos mercados e tem deixado o Brasil por conta do cenário de incertezas na economia e no campo político eleitoral. O economista destacou a queda da confiança medida pela Fundação Getúlio Vargas tanto do ponto de vista do consumidor como de empresários de vários setores do comércio e indústria. Nesta semana, segundo ele, a FGV divulgou forte queda de 5,7% na confiança do setor de serviços, para 106,8 pontos, e um recuo de 5,1% na confiança da indústria, ambos em maio ante abril. "A sensação é de que o País poderá ficar estagnado neste ano. Isso tudo tira perspectiva de atração de recursos ao mesmo tempo em que estimula as saídas de capital estrangeiro. Sua aposta é de piora do quadro macroeconômico interno com a proximidade das eleições presidenciais e a tendência é de o dólar subir, pela insuficiência de fluxo positivo para atender a demanda.

O operador Ovídio Pinho Soares, da corretora Icap do Brasil, diz que a fraca volatilidade cambial em maio está diretamente ligada também ao fato de que parcela significativa do mercado, principalmente os fundos de investimento, se machucou muito em suas posições no mercado de renda fixa, já que vinham carregando fortes posições vendidas em juros, mas a taxa Selic só parou de subir agora no fim de maio. "O mercado se machucou muito, teve prejuízos no fim de 2013 e no primeiro trimestre de 2014, por isso, ficou mais cauteloso diante de um horizonte tumultuado", comentou Soares. "O mercado puxou o freio e isso amenizou a volatilidade do dólar assim como os volumes de negócios", afirmou.

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