Mais que um minuto: como o tempo de escovação define a liberação de fluoreto
Estudo promovido pela Faculdade de Odontologia de Piracicaba aponta que escovações mais curtas podem impactar o efeito anticárie das pastas
No breve tempo em que os dentes são escovados, as pastas dentais devem liberar a maior parte de seu fluoreto, a forma iônica do flúor. A avaliação desse processo foi o objetivo do estudo da Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP-Unicamp), publicado no Brazilian Dental Journal em dezembro de 2025.
Os pesquisadores consideraram que um modelo clinicamente validado para estimar essa liberação de fluoreto não existe atualmente. Uma formulação de pasta de dente com maior viscosidade, por exemplo, é capaz de “resistir à quebra durante a escovação e retornar a um estado semi-sólido mais rapidamente”, o que limita o tempo em que o fluoreto permanece disponível.
Outro ponto diz respeito à curta duração da escovação — o período limitado pode afetar a homogeneização completa dos cremes dentais, um fator crucial para que os agentes terapêuticos presentes no produto funcionem bem.
“Esse foi o primeiro desafio: desenvolver um modelo laboratorial, experimental, que possa estimar o quanto de fluoreto é liberado na boca. Então, foi o objetivo do trabalho, e o mais importante depois foi validar o modelo”, explica o orientador da pesquisa, Jaime Aparecido Cury, professor titular de bioquímica da Faculdade de Odontologia de Piracicaba.
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Escovação + tempo = fluoreto liberado
A equipe utilizou três pastas de dente, selecionadas por apresentarem níveis variados de liberação de fluoreto em um estudo preliminar in vitro. Após instruções, os participantes escovaram os dentes por um minuto usando 0,7 g de uma das pastas testadas.
Toda a pasta de dente e saliva produzida durante a escovação foi coletada e seu volume foi medido. As amostras foram então centrifugadas e o que permaneceu foi analisado quanto ao teor total de fluoreto solúvel.
“O creme dental é utilizado de acordo com o gosto da pessoa. Se ela tem preferência, por exemplo, a uma maior consistência, a pessoa deve escovar os dentes por um tempo maior para ter um benefício igual a de um creme dental na forma de gel, que libera rapidamente o fluoreto”, aponta o professor orientador.
A doutora em Clínica Odontológica pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Cecília Atem Gonçalves, ressalta que nem todo o flúor presente na fórmula de um dentifrício (termo técnico para creme dental) é efetivamente liberado na boca durante a escovação.
Ao avaliar o estudo, a professora da UFC também acrescenta que a compreensão de quanto flúor realmente se torna disponível é fundamental para avaliar a eficácia desses produtos.
“Em termos práticos, essa pesquisa contribui para melhorar a forma como os dentifrícios são avaliados. O teste in vitro validado desenvolvido neste estudo fornece um método confiável e simples para estimar a biodisponibilidade do flúor em cremes dentais durante a escovação”, explica Cecília Atem.
A pesquisa teria, de acordo com a profissional, o potencial para servir como ferramenta de triagem aos fabricantes e agências reguladoras, apoiando o desenvolvimento e a aprovação de cremes dentais fluoretados eficazes.
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Fluoreto Vs. Cáries
A prevenção da cárie dentária, relata a professora universitária, está diretamente relacionada à exposição regular dos dentes ao flúor proveniente dos cremes dentais, e não apenas ao tempo prolongado de escovação.
Na prática, a escovação deve ser compreendida não como um ato isolado e prolongado, mas um hábito repetido ao longo do dia, capaz de garantir a presença constante do flúor no meio bucal — “Mais importante do que escovar por longos períodos é repetir esse hábito diariamente e permitir que o flúor permaneça na boca após a escovação”, diz.
De forma geral, a escovação com frequência de até três vezes ao dia, com duração média de cerca de dois minutos, é suficiente para promover a liberação eficaz do flúor e garantir proteção anticárie adequada.
“Em crianças, a escovação deve ocorrer duas a três vezes ao dia, com atenção especial à escovação noturna, utilizando a quantidade correta de dentifrício para cada idade e sempre sob supervisão, a fim de evitar a ingestão excessiva de flúor”, exemplifica Cecília Atem.
Já no caso dos adolescentes, expostos a um maior consumo de açúcares e outras situações que favorecem o acúmulo de biofilme dental (como o uso de aparelhos ortodônticos), duas palavras-chave são essenciais: a frequência e a qualidade da escovação.
A atenção deve ser redobrada aos adultos e idosos, considerando a maior ocorrência de recessões gengivais (afastamento do tecido da gengiva da linha do dente), risco aumentado de cárie radicular e, muitas vezes, redução do fluxo salivar.
Uso do creme dental
“A diferença na liberação de fluoreto entre os cremes dentais disponíveis no mercado pode ser explicada principalmente pela formulação do produto, e não apenas pela quantidade total de flúor declarada no rótulo”, avalia a doutora em Clínica Odontológica, Cecília Atem.
O estudo proposto pela Faculdade de Odontologia de Piracicaba sobre a presença do fluoreto ao escovar os dentes evidencia que o flúor precisa estar quimicamente disponível e fisicamente liberável durante a escovação para conseguir exercer o efeito anticárie.
“Um dos aspectos centrais é o tipo de composto fluoretado utilizado. Dentifrícios formulados com fluoreto de sódio tendem a liberar o flúor de forma mais imediata, enquanto aqueles que utilizam monofluorfosfato de sódio dependem de reações químicas e enzimáticas para liberar o íon fluoreto ativo”, explica a professora.
Outro efeito se relaciona com a interação do flúor com os abrasivos da fórmula. Alguns abrasivos à base de cálcio, por exemplo, podem reagir com o flúor e formar compostos menos solúveis, o que reduz a fração disponível durante a escovação.
O comportamento físico do creme dental também deve ser considerado, incluindo a viscosidade e a resposta ao atrito da escova. Além disso, as condições de diluição durante o uso variam conforme a formulação.
“Cremes dentais que se dispersam mais facilmente em água e saliva tendem a disponibilizar o flúor de maneira mais rápida e homogênea. Já produtos mais espessos ou estruturalmente estáveis podem liberar o flúor de forma mais lenta ou incompleta”, diz.