Um pesadelo na cor azul: os 38 anos do acidente com o Césio 137

Um pesadelo na cor azul: os 38 anos do acidente com o Césio 137

Quatro pessoas morreram e mais de 600 pessoas foram contaminadas com diferentes níveis de exposição ao elemento radioativo

Em setembro de 1987, Goiânia foi palco do maior acidente radiológico do mundo ocorrido fora de instalações nucleares com a contaminação desenfreada por Césio 137. Quatro pessoas morreram e mais de 600 pessoas foram contaminadas com diferentes níveis de exposição ao elemento radioativo.

Notícias publicadas à época contam que o acidente começou após dois catadores de lixo venderem as peças de um aparelho de radioterapia descartado de forma irresponsável no antigo Centro Goiano de Radioterapia para um ferro-velho no Setor Central da capital goianiense.

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Devair Ferreira, dono do estabelecimento, abriu a peça para aproveitar o chumbo que havia em seu revestimento, e dentro dela, encontrou um pó que emitia um brilho na coloração azul. Inocentemente, o responsável pelo ferro velho continuou explorando o material sem saber que estava manuseando 19,26 gramas de cloreto de Césio-137. A partir dali, o pesadelo ganhou uma cor: azul.

Os quatro mortos foram a pequena Leide das Neves Ferreira, de 6 anos, que se contaminou ao comer um ovo cozido com as mãos sujas daquele pó azul, Maria Gabriela Soares, de 37 anos, esposa de Devair e uma das primeiras expostas à radiação, morreram no Hospital Naval Marcílio Gomes, no Rio de Janeiro, no dia 23 de outubro de 1987.

Além delas, dois funcionários de Devair, Israel Batista dos Santos, de 20 anos, e Admilson Alves de Souza, de 18 anos, também vieram a óbito no mesmo mês. Os corpos foram colocados em caixões de chumbo por precaução, visto que havia muita radiação nos quatro que vieram a óbito. O enterro das vítimas foi um momento tenso e de protesto por parte da população, que criticou que os corpos das vítimas fossem enterrados em Goiânia. 

Segundo a Associação das Vítimas do Césio 137, até 2012, mais cem pessoas morreram em decorrência da contaminação por Césio, incluindo Devair Ferreira, que morreu em 1994, de cirrose hepática, mas em seu laudo cadavérico veio a acusação de câncer em três órgãos, e Ivo Ferreira, irmão de Devair e pai de Leide, que morreu em enfisema pulmonar em 2003.

Ao todo, foram 13 toneladas de lixo radioativo que foram descartadas e enterradas em um depósito definitivo construído em Abadia de Goiás, no Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste. Esse depósito é um repositório de rejeitos radioativos de baixa e média atividade, projetado com barreiras de contenção múltiplas, sendo monitorado continuamente por autoridades como o Conselho Nacional de Energia Nuclear.

O que é o Césio 137 e como o corpo reage à contaminação

O Césio 137 é um isótopo radioativo do elemento químico Césio — metal alcalino que ocupa a 55ª posição na tabela periódica dos elementos. Segundo o professor de química da rede estadual, César Augusto, ele é considerado perigoso por emitir radiação gama, sendo altamente penetrante e com potencial de causar danos a células e tecidos humanos. 

"O Césio-137 não "brilha" no escuro de forma natural, mas pode ser visível devido à radiação gama que emite. No entanto, o brilho visível que algumas pessoas enxergam no Césio-137 geralmente está relacionado ao fenômeno da desintegração de seus átomos e, consequentemente, emissão de partículas subatômicas que, ao excitarem os elétrons, tendem ao equilíbrio e emitem energia em forma de luz", diz o docente. 

Ele comenta ainda que, por ser uma radiação ionizante, a emitida pelo Césio-137, pode afetar o corpo de várias maneiras. "Quando a radiação entra no corpo, ela pode danificar ou destruir células, alterar o DNA e prejudicar os tecidos. Isso pode resultar em efeitos imediatos, como as chamadas queimaduras radioativas", diz o professor.

Além disso, algo bem mais grave é a alteração de órgãos internos "prejudicando imediatamente o bom funcionamento do intestino".

Fatores que indicam contaminação por Césio e efeitos à longo prazo

Em caso de contaminação por material radioativo é importante atentar-se aos sinais. Conforme o coordenador do Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste, Almir Aniceto, no caso de Goiânia, os sintomas mais comuns nas vítimas foram queimaduras na pele (por contato com o pó radioativo), náuseas e vômitos, hemorragias, queda de cabelo, lesões internas graves e mortes em casos de alta exposição.

“Dependendo do nível de exposição, o corpo pode apresentar sinais sistêmicos, como lesões na medula óssea e hemorragias; contaminação cutânea, como vermelhidão na pele e necrose local; e contaminação interna, podendo causar danos nos órgãos internos e câncer a longo prazo”, pontua.

Ele cita que, a longo prazo, os efeitos da contaminação vem como câncer — principalmente leucemias e cânceres sólidos — infertilidade, problemas cardiovasculares, doenças autoimunes, cataratas e danos neurológicos.

A atenção médica é essencial. Qualquer suspeita de contaminação deve ser tratada como emergência e precisa ser tratada com celeridade e rapidez.

Medidas de segurança foram implementadas após o acidente

Desde o acidente com o Césio, algumas medidas de segurança foram implementadas no Brasil para a prevenção de acidentes na mesma magnitude, como a criação de normas específicas para uso, armazenamento, transporte e descarte de materiais radioativos.

Além disso, existem as normas da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), como a CNEN-NN-6.05 de segurança Radiológica. A comissão passou ainda a ter um papel fiscalizador e normativo, atuando na autorização, inspeção e fiscalização de atividades com materiais radioativos no Brasil.

A CNEN conta com um Plano de Resposta a Emergências Radiológicas e Nucleares e pode ser contatada diretamente em casos de emergência.

O que fazer em caso de suspeita de contaminação por radiação?

1. Não tocar no material. Evite qualquer contato direto com o objeto suspeito. Não tente abrir, manipular ou mover o material.
2. Afastar-se imediatamente o Mantenha uma distância segura (quanto maior, melhor). A radiação pode ser perigosa mesmo sem contato físico.
3. Isolar o local o Se possível, delimite a área e evite que outras pessoas se aproximem. A sinalização improvisada pode ajudar a alertar outros.
4. Evitar inalação ou ingestão Não coma, beba ou fume nas proximidades, isso reduz o risco de contaminação interna.
5. Informar imediatamente às autoridades competentes. O ideal é ligar para os Bombeiros (193) ou Defesa Civil local. A CNEN também pode ser acionada diretamente.
6. Aguardar orientação especializada. Permaneça em local seguro e aguarde as instruções dos profissionais habilitados. Não tente resolver a situação por conta própria.
7. Se houve contato direto: Tome nota de possíveis sintomas (náuseas, tontura, queimaduras). Retire as roupas e lave bem o corpo com água e sabão, e o mais importante, procure atendimento médico imediatamente.

Fonte: Almir Aniceto, coordenador do Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste

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