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Cearense de Pacajus aprovada no MIT: "Eu quero ajudar outros jovens brasileiros"

Jamile Falcão contou ao O POVO sobre superação em matemática, desejo de aplicar no Brasil o que aprender no MIT e sobre o gosto pela disciplina

Ítalo Cosme
19:29 | 16/04/2021
Antes de participar de olimpíadas escolares, Jamile sequer havia pensado na possibilidade de estudar no exterior (Foto: Arquivo Pessoal / Reprodução)
Antes de participar de olimpíadas escolares, Jamile sequer havia pensado na possibilidade de estudar no exterior (Foto: Arquivo Pessoal / Reprodução)

A estudante Jamile Falcão, 18 anos, foi aprovada no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, uma das universidades mais disputadas do mundo. Natural do município de Pacajus, Região Metropolitana de Fortaleza, a jovem se prepara para viajar e já pensa sobre como deve aproveitar o que aprender por lá: “Eu quero ajudar outros jovens brasileiros de diversos contextos sociais”.

A jovem se aproximou dessa realidade por meio das Olimpíadas de Matemática, prestou concurso para o Colégio Militar, foi bolsista no Colégio Farias Brito e representou o Brasil na Olimpíada Europeia de Matemática para Garotas, na Suíça. Na Universidade deve seguir disciplinas obrigatórias e eletivas, mas só deve começar o curso de Economia e Matemática em dois anos.

Ao O POVO, Jamile conta das expectativas para a nova fase e de como se preparou para o êxito acadêmico.

O POVO - Qual a sua relação com a matemática?

Jamile Falcão - Quando eu encarei os estudos para entrar Colégio militar, vi que eu tinha um déficit em matemática. Como eu queria passar, eu encarei e decidi estudar. Quando eu comecei, eu vi que eu não desgostava da matemática, mas não gostava da frustração de resolver os problemas e não conseguir, de fato, resolvê-los. Esse período foi fundamental para eu ver que era capaz de aprender qualquer coisa. Quando eu cheguei à Olimpíada, tinha um mundo de coisas novas para eu aprender, além das contas e dos sistemas de equações. Envolvia diferentes matérias, uma geometria muito mais legal daquela que eu estava sendo exposta no ambiente escolar.

Jamile percebeu que tinha dificuldade em matemática ainda na infância, mas decidiu estudar para superá-los
Jamile percebeu que tinha dificuldade em matemática ainda na infância, mas decidiu estudar para superá-los (Foto: Arquivo pessoal)


OP - Como você pretende retribuir para o Ceará aquilo que você vai aprender no MIT?

Jamile - Representar o Brasil numa Olimpíada Internacional só se deu porque eu tive acesso à informação, às oportunidades. Eu vejo que muitos jovens não têm isso. Até mesmo quem tem informação não vê essas questões de estudar fora como algo palpável. Meu maior sonho é que todos os jovens tenham acesso à educação de qualidade. Eu estou indo para os Estados Unidos para me graduar, entender melhor como eu vou atuar para fazer esse sonho se tornar realidade. Eu quero voltar ao Brasil para trabalhar com educação, de alguma forma para compartilhar e ajudar jovens brasileiros de diversos contextos sociais a alcançarem essas oportunidades.

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OP - Como as atividades extracurriculares contribuíram para o processo seletivo?

Jamile - A minha primeira olimpíada internacional foi o ponto de virada na minha vida. À época, eu não tinha inglês. Quando eu voltei, eu vi que, se antes eu pensava que meu futuro estava restrito à minha cidade e ao meu Estado, agora ele não estava dentro daquelas fronteiras. Eu podia imaginá-lo em qualquer lugar. Então, eu decidi compartilhar com outros jovens minha experiência internacional. Eu me voluntariei para me tornar professora em uma organização social que disponibiliza cursos gratuitos de preparação para olimpíadas nacionais e internacionais. Eu compartilhei a minha história para inspirar outras pessoas e isso foi se estruturando ao longo dos anos. Quando eu fui fazer minha aplicação, isso também foi aproveitado. 

OP - Como tem se preparado para a viagem?

Jamile - Agora eu estou participando de atividades da Universidade com os alunos aceitos sobre oportunidades acadêmicas, curriculares e intercâmbios. Também estou em contato com os consulados e Itamaraty, para entender a dinâmica da retirada de visto por causa da pandemia. Em relação à permanência, eu ganhei do MIT uma bolsa por necessidade, que inclui alimentação e moradia.

Um dos hobbies da universitária é praticar ioga
Um dos hobbies da universitária é praticar ioga (Foto: Arquivo pessoal)

OP -Como tua família recebeu essa notícia?

Jamile - A minha família sempre me deu muito apoio. Eu queria ser estilista quando era mais nova, eles nunca podaram meus sonhos. Falavam: "Se você quer ser estilista, você será a melhor". Quando eu decidi morar em Fortaleza, eles me ajudaram. Quando eu falei que queria morar fora, por mais que eles não tivessem experiência, eles aprenderam e me apoiaram no processo. Eles sabiam que eu teria suporte para estudar fora independente do lugar.

Jamile palestra para estudantes da rede pública municipal de Fortaleza
Jamile palestra para estudantes da rede pública municipal de Fortaleza (Foto: Arquivo pessoal)

OP -A matemática é um bicho de sete cabeças para muita gente. Como as pessoas podem gostar mais de matemática?

Jamile - Eu percebi que não é que você não gosta, é que você não gosta da frustração de não ser bem sucedido, não navegar por aquele conteúdo de forma fácil. Quando eu vejo alguém que não gosta de matemática, eu lembro que o caminho para navegar por aquilo de forma mais fácil é a prática. Parar para encarar o desafio. A prática não é algo que fazemos depois que ficamos bons. A prática é algo para ficarmos bons. Quem ainda não tem aptidão com a área não tem outro caminho. Quem pratica, melhora. Encare o desafio e vai sem saber mesmo, a gente vai melhorando com o tempo.

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