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"Não permitiram nem que a gente celebrasse um mês da partida dele", diz mãe de Mizael, garoto morto por PM no CE

A mãe de Mizael, jovem morto em ação da Polícia Militar há um mês, na cidade de Chorozinho, Leidiane Rodrigues, lamenta que ninguém compareceu à manifestação pacífica planejada para este domingo, 2. Ela planejava soltar balões para o céu em memória da morte do filho

18:25 | 02/08/2020
Chorozinho - Ceará, Brasil, 08 de julho de 2020: Lidiane Rodrigues da Silva, 33, mãe de Mizael Fernandes. Caso Mizael Fernades da Silva. Adolescente morto por policiais militares em 01/07/2020 em Chorozinho - Ceará. (Foto: Júlio Caesar/O Povo) (Foto: JÚLIO CAESAR)
Chorozinho - Ceará, Brasil, 08 de julho de 2020: Lidiane Rodrigues da Silva, 33, mãe de Mizael Fernandes. Caso Mizael Fernades da Silva. Adolescente morto por policiais militares em 01/07/2020 em Chorozinho - Ceará. (Foto: Júlio Caesar/O Povo) (Foto: JÚLIO CAESAR)

Às 8 horas deste domingo, 2, Leidiane Rodrigues, mãe do jovem Mizael Fernandes da Silva, 13, assassinado em Chorozinho há cerca de um mês, estava na localidade de Triângulo, na cidade, com vários balões secos nas mãos. Ela tinha deixado com o pai as duas meninas mais novas, uma de cinco e outra de quatro anos, enquanto se dirigia à localidade para homenagear o filho por um mês de sua partida. Chegando ao local combinado para encher e soltar as bexigas, esperou por cerca de três horas e ninguém apareceu. A homenagem ao filho não aconteceu e o pedido de justiça pela morte prematura do jovem ficou entalado na garganta. “Não aconteceu a homenagem porque o povo ficou com medo”, resume.

Leidiane conversou com O POVO na tarde deste domingo. Enquanto embalava o choro da filha de cinco anos, que ficou na casa da tia durante a maior parte desse mês desde a morte de Mizael, a dona de casa retrata o desapontamento pela falta dos seus companheiros da cidade, no entanto, diz entender a razão. “Não foram porque estavam com medo. Eu me senti um pouco chateada porque todo mundo conhecia o Mizael, ele era muito querido. Mas eu entendo”, conta. Na noite do enterro, a manifestação dos amigos e familiares do menino teria incomodado a Polícia e, segundo ela, os familiares se sentiram ameaçados. “Ficaram com medo de ir”, diz.

A falta que Leidiane sente do jovem está nas lembranças mais simples. Quando o garoto acordava a mãe cedinho, logo após o nascer do sol, para pastorear se o padeiro passava para comprar os salgados do café da manhã. “Onde a gente mora não tem padaria. Aí, todos os dias, ele me chamava”, lembra. A filha de cinco anos está com acompanhamento de psicólogo para conseguir lidar com a perda do irmão. Para a mais nova, de quatro anos, que, segundo a mãe, ainda não entende muito bem a partida do irmão, Mizael está morando numa nuvem, junto com a avó que tanto amava.

O sonho de Mizael era de correr vaquejadas. Pouco antes de morrer, teve parte dessa vontade realizada. Recebeu, de um tio de parte de pai, um cavalo, o Relâmpago. “Ele ganhou um dinheiro do pai e disse que ia comprar ração”, conta. O menino cavalgava usando uma bermuda de tecido muito fino e acabou ferindo a parte interna das coxas. E, levado ao médico pela avó paterna, teve a recomendação de dar uma pausa na cavalgada. Após tomar a primeira dose da injeção da traumática benzetacil, foi logo ligar para o tio para colocar os cabrestos no cavalo porque ele ia montar. 

No dia da morte de Mizael, a mãe conta que o filho mais velho, de 17 anos, atendeu a ligação feita uma hora da manhã. O jovem tinha ido dormir na casa de uma tia. “Ninguém me disse o que tinha acontecido. Disseram só que o Mizael ia ser encaminhado para Fortaleza. Mas aí eu já entendi. Senti uma cavalgada no meio dos peitos e saí feito louca. Quando eu desço do carro, entro no hospital e deixaram o meu filho no meio de uma pedra, com o corpinho dele lá, todo estirado. Essa dor eu não desejo para ninguém.”

Mizael foi morto em 1º de julho na casa da tia, enquanto dormia. Conforme os policiais que participaram da ação, um sargento e um soldado, ele portava uma arma de fogo e teria feito menção de atirar, após voz de comando para soltá-la. A família nega veementemente a versão. Mizael, afirmam testemunhas, não tinha arma e foi atingido sem nenhum tipo de verbalização anterior. Elas ainda afirmam que apenas um PM entrou no quarto onde Mizael dormia e que ele disse ainda "fiz merda" após efetuar o tiro.