Venezuelanos no Ceará falam sobre vida longe da família e tensão após ataques à Venezuela

Venezuelanos no Ceará falam sobre vida longe da família e tensão após ataques à Venezuela

Confira relatos de desafios econômicos, adaptações culturais e saudade de familiares que permanecem no país natal

A vida de muitos imigrantes venezuelanos no Ceará é marcada por desafios econômicos, adaptações culturais e saudade de familiares que permanecem no país natal.

Johan Manuel Gutierrez, 39, natural de Barquisimeto, capital do estado venezuelano de Lara, conta que chegou ao Brasil motivado pela busca de estabilidade e oportunidades para sua família, além da prática da capoeira, sua paixão desde a adolescência.

Antes de vir para o Brasil, Johan enfrentou dificuldades em sua cidade natal. “2013 e 2014 foi uma época bastante apertada economicamente. A Venezuela ainda não tinha sanções econômicas, não havia nenhum bloqueio econômico, mas já vivíamos uma situação de aperto financeiro”, explica.

O impacto do modelo econômico centrado no petróleo e da morte de Hugo Chávez agravou a situação. Em 2015, a situação chegou a um ponto crítico: Johan conta que seu pai chegou a vender uma casa para garantir alimentação da família em meio à escassez.

“Eu estudava Administração de Empresas Turísticas e tinha um trabalho muito bom, era gerente de um restaurante, mas a situação financeira era apertada. Acabou que eu não consegui pagar a faculdade e me sustentar. Não era que não tinha dinheiro, era porque era difícil achar comida. Era fila para tudo: arroz, manteiga, pão.

Em 2017, ele conta que, junto com a esposa, decidiu colocar em prática um projeto de mudança para Fortaleza: “A gente é capoeirista e já tinha esse projeto de vir para cá para fazer capoeira. Quando a gente chegou aqui, o pessoal da capoeira nos ajudou bastante. Eu arranjei um emprego rápido e comecei a me virar”, conta.

Ele integra o grupo Grupo Capoeira Brasil em Fortaleza. Hoje, Johan reside no bairro Mucuripe, em Fortaleza, com a esposa e o filho. “Em 2020, tivemos um filho. Nos últimos anos, trabalhei em hotelaria, mas já tinha vontade de sair dele. Por enquanto, estou procurando emprego”, relata.

A adaptação no Brasil não foi simples, especialmente para a mãe de Johan, de 60 anos, que veio em 2019 também morar em Fortaleza. “No começo foi difícil, não sabia nada de português. Quando ela chegou, tinha dificuldade, mas aos poucos foi vencendo”, afirma.

Com o ataque dos Estados Unidos à Venezuela na madrugada deste sábado, 3, e a captura do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama por militares americanos, Johan conta que os familiares que permaneceram no país estão sob uma “tensa calma”.

“Todo mundo curtiu o Natal, mas com cautela, sabendo que o impacto estava chegando… não é difícil imaginar com uma quantidade de navios no Caribe, nas costas da Venezuela. Todo mundo sabia que ia acontecer”, relata. “Minha irmã mora perto do Palácio de Miraflores, o Palácio de Governo, acho que a menos de 1 km, no máximo. Por enquanto, ela não sofreu nada diretamente”, conta Johan.

Ele mantém esperança de visitar a família na Venezuela, mas diz que não pretende retornar para morar no país. "Todos os meus primos da minha idade estão fora do país: na Colômbia, no Equador, no Chile, no Peru. Eu moro aqui. Eles não vieram para cá por causa da barreira idiomática, mas muita gente está fora. Meus primos têm intenção de retornar; eu, por enquanto, não, mas pretendo visitar minha família este ano", diz.

Ele ressalta que não pretende retornar enquanto não houver liberdade política. "Quando você puder expressar sua opinião sem ser preso, votar e ter seu voto valorizado", conclui. 

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