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"Dia do Maracatu" será celebrado com oficinas e lives; conheça um pouco da data

O projeto "Dia 25 é dia de Maracatu" tem o objetivo de levar mensalmente a manifestação cultural a diversos pontos da cidade, sempre no dia 25. A data foi sugerida no calendário oficial do Município, por meio do Projeto de Lei nº 10/2016
15:22 | Nov. 25, 2020
Autor Gabriela Feitosa
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Gabriela Feitosa Estagiária do O POVO Online
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Tipo Notícia


Admirar as apresentações do Maracatu cearense na avenida Domingos Olímpio, por exemplo, certamente já está marcado como tradição na nossa cultura. O lindo desfile, que também acontece em diversos pontos de Fortaleza, reúne pessoas de todas as idades. Os olhos atentos das crianças dão uma nova tônica para a festa: o brilho de quem está descobrindo o Ceará. As cores, as danças, a fé, o movimentos dos corpos na avenida são marcantes no período carnavalesco, mas também nos outros meses do ano. A expressão cultural faz parte da nossa cidade. Entender e defender o movimento é uma forma de respeito à ancestralidade negra cearense e a quem continua embelezando o tempo presente com essa arte.

Para Danielle Maia Cruz, coordenadora de pesquisa do registro do Maracatu de Fortaleza, não é possível demarcar um único ponto de origem sobre os maracatus, mas alguns aspectos são emblemáticos na trajetória dessa manifestação no Estado. "Um deles é a relação que essa manifestação guarda com as coroações dos reis negros ocorridas no âmbito das irmandades religiosas no fim do século XIX, período em que, segundo o memorialista Gustavo Barroso, os maracatus desfilavam em tom de lamento nos arredores do Centro de Fortaleza", detalha Danielle. No Ceará, o maracatu pode ser definido, em linhas gerais, como uma prática cultural que rememora o cortejo de coroação de uma rainha negra. No entanto, é importante considerar a plasticidade dessa manifestação cultural e, nesse sentido, a diversidade de usos e sentidos que atravessam sua dinâmica no decorrer das décadas - considera a pesquisadora.

Outro marco importante é o ano de 1937, quando o ainda atuante maracatu Az de Ouro saiu pela primeira vez em cortejo pelas ruas no período carnavalesco. Desde então, outros grupos surgiram na Cidade, notadamente na periferia, trazendo consigo elementos tidos como tradicionais dessa manifestação no Estado, como a tinta preta na face, a reverência à rainha, a presença de personagens específicos no cortejo e o ferro como instrumento musical característico dos maracatus no Ceará. "Nos anos 50, surgiram outros maracatus, dando novas tônicas à festa carnavalesca popular da cidade. Assim, nas décadas posteriores inovações foram ocorrendo, especialmente em relação à indumentária da rainha, aos ritmos e melodias musicais e à inserção de outras figuras performáticas no cortejo carnavalesco", aponta Cruz.

Danielle ainda acrescenta que, apesar de existirem elementos que ordenem os maracatus cearenses, atribuindo à manifestação distinções e peculiaridades, não se pode esquecer as nuances que marcam cada grupo. Para o maracatu Nação Iracema, por exemplo, a luta pela visibilidade racial é aspecto fundamental, sendo seus dirigentes pessoas negras de forte atuação na cidade na luta pelo movimento negro. Para eles, o maracatu se coloca como possibilidade de construção identitária e valorização positiva do negro, apresentando à sociedade a capacidade criativa e artística de pessoas negras. "Este aspecto é bastante relevante, quando se considera que vivemos em um estado que nega sua memória e formação étnico-racial, apontando para uma ausência da presença negra no tecido social", contextualiza a coordenadora.

É o que Gilson Brandão defende em sua dissertação "A festa é de Maracatu: cultura e performance no Maracatu cearense". Para o historiador, as variadas manifestações africanas trazidas e reelaboradas em território brasileiro sofreram um processo de marginalização ao longo dos anos. "Tal ação gerou no curso do tempo um profundo desconhecimento da relevância e importância das práticas multiculturais oriundas dessas matrizes", afirma Brandão. Esses elementos reforçam ainda mais o mito de que não existem negros no Ceará e acelera o processo de negação das etnias africanas no estado, o que fere o direito que toda população tem de conhecer suas origens.

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Para o historiador, no entanto, na contramão do que foi citado acima, a presença de múltiplas práticas culturais na contemporaneidade frutos da criação de povos afrodescendentes não nos deixa esquecer essa discussão. "Marcas no campo da música, da dança, das artes performativas, tais como bandas cabaçais, reisados, sambas, pastoris, maracatus e tantas outras são a confirmação de um patrimônio material e imaterial", aponta a dissertação de Brandão.

"Um trabalho multiartístico", resume Márcio Santos, carnavalesco e vice-presidente do maracatu Vozes da África. Fundado em 1980, o movimento completa 40 anos agora em 2020. É o terceiro maracatu mais antigo em atividade no estado e surgiu a partir na semana da Consciência Negra daquele ano, já consagrado campeão no desfile de rua posterior, em 1981. "Dentro dessa trajetória, nosso maracatu já fez mais de 1.500 apresentações, rodou por todas as regiões cearenses, algumas capitais brasileiras e festivais internacionais. O Maracatu é uma tradição que se consolida no Carnaval de rua", complementa Márcio.

A tradição nasce ainda no período de colonização brasileira, quando pessoas do continente africano, incluso reis e rainhas, eram sequestrados para o nosso território. Mesmo na condição de escravizados, esses reis e rainhas eram reconhecidos e o maracatu virou uma forma de resistência e um novo olhar sobre a negritude brasileira, que não se resume somente à violência e sofrimentos causados pelos colonizadores. É arte, beleza, ancestralidade: "A gente costuma dizer que o Maracatu é o que há de mais autêntico, forte, na cultura negra do Ceará. Nós temos negros sim e temos orgulho de preservar essa tradição", conclui Santos.

A coroação da Rainha Negra

Impossível deixar passar a figura bonita e imponente da Rainha Negra no Maracatu, um dos pontos altos para quem acompanha os desfiles. Há várias figuras ancestrais que podem ser associadas à rainha, desde Orixás até a figura de Nossa Senhora do Rosário. Uma em especial é a rainha africana Njinga (também conhecida como Ginga ou Nzinga) de Angola.

Ainda conforme o historiador Gilson Brandão, a rainha adquiriu força mítica pela forte atuação social e política no reinado oriental africano de Angola, onde negociou e defendeu seu povo. A história de Njinga atravessou o tempo e ecoa no imaginário dos brincantes até hoje:

Ginga rainha da gente,
Eu mandei buscar pra você,
Luas, luandas e loas,
Coroas de reis e rainhas,
Rosário de santos e deuses,
Índios do Maracatu (...)
Negras,calungas e Angolas,
Caboclos da mata e batuques,
Toques de ferro e tambor,
Ginga rainha da gente,
Me benze com tua beleza,
Eu sou mar,
Eu sou Maracatu.

(Canção do maracatu Nação Fortaleza, Carnaval de rua de 2005).


Nesta quarta-feira, 25, a Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (Secultfor), preparou uma programação para celebrar o Dia do Maracatu. Será no canal da secretaria no Youtube. Veja:

> Quarta-feira (25/11)

17h: Oficina “Criação de Cocar e Adereços da Ala de Índios (as)” – Maracatu Axé de Oxossi
18h30min: Série Memórias do Maracatu de Fortaleza – Maracatu Vozes da África
18h45min: Série Memórias do Maracatu de Fortaleza – Maracatu Solar
19h: Aula Expositiva “Vivências do Maracatu Rei de Paus” – Maracatu Rei de Paus

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