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Ceará
NOTÍCIA

Irmã Clemência é relembrada em novena durante semana de sua morte; saiba mais sobre a Serva de Deus

Se agraciada com a beatificação, Irmã Clemência será a segunda cearense a ter o título. Celebrações visam expandir a história de devoção da Irmã, que atuou majoritariamente na região do Maciço de Baturité

14:07 | 02/07/2020
FORTALEZA, CE, Brasil. 20.10.2019: Livro Irmã Clemência. (Fotos: Deísa Garcêz/Especial para O Povo) (Foto:  Deísa Garcêz/Especial para O Povo))
FORTALEZA, CE, Brasil. 20.10.2019: Livro Irmã Clemência. (Fotos: Deísa Garcêz/Especial para O Povo) (Foto: Deísa Garcêz/Especial para O Povo))

Esta semana completam-se os 54 anos da morte de Irmã Clemência, religiosa nascida em Redenção que pode ser candidata a segunda beatificação cearense. Para relembrar a vivência da Serva de Deus, uma novena virtual está sendo realizada desde o último dia 26 pela Paróquia Nossa Senhora da Palma, em Baturité - cidade a 55 km de Fortaleza e onde a Irmã teve maior devoção devido aos seus atendimentos a enfermos pobres da região.

Nascida Francisca Benícia de Oliveira, as celebrações acontecem com o intuito de agregar mais admiradores e de resgatar as memórias da persona. Os eventos são virtuais e estão sendo transmitidos pela página do Facebook especialmente criada para congregar os devotos. A rede social permitiu a criação, inclusive, de grupos onde os membros relatam seus milagres e responsabilizam Clemência pela graça alcançada.

Moisés Rocha Farias é estudioso da vida da Irmã e está à frente das festividades da semana. Segundo ele, os relatos vêm de todos os Estados do Brasil. "É impressionante, pois Baturité é uma cidade pequena. Mas recebemos mensagens de tantos lugares que, de um jeito ou de outro, a Irmã Clemência é conhecida", diz.

Ela ficou conhecida pelos atendimentos de saúde aos moradores da região do Maciço de Baturité. Mesmo sem ter nenhum curso de enfermagem ou de medicina, Benícia aprendeu na lida e oferecia gratuitamente os seus serviços no ambulatório São José, no município. Moisés estima que, diariamente à época, 100 pessoas eram atendidas pela Irmã.

Um dos relatos mais conhecidos dela vem de uma ocorrência policial: tarde da noite na região de Baturité, um homem esfaqueado precisou de socorro médico e foi levado para o chão de uma delegacia local. Sem ambulâncias ou médicos atendendo àquela hora, o delegado lembrou de chamar a freira que cuidava de tuberculosos, queimados e de outros enfermos. Contam os relatos que Clemência chegou ao local e fez uma oração para o homem. Decidiu suturá-lo e fez o procedimento ali mesmo, com o uso de uma linha comum. Apesar das condições, o homem sobreviveu e sarou em poucos dias do incidente. 

Essa é apenas uma de várias histórias contadas pelos devotos da região e que vem passando por gerações desde a sua morte, em 1966. Com o intuito de comprovar os eventos, Moisés também tornou-se procurador do processo de beatificação da Irmã, que atualmente é Serva de Deus. A ideia é que os eventos, como a novena, tragam uma identificação com os milagres realizados por ela e, assim, aconteça a sua canonização devido ao reconhecimento de milagres. "É o momento de pedir graças. Uma mulher pobre que nasceu em Redenção, na Glória dos altares, isso é de grande importância social e econômica, mas também para a própria Igreja", conversa.

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Publicado por Serva de Deus Irmã Clemência Oliveira em Quinta-feira, 2 de julho de 2020

Atualmente, o pedido tramita no Vaticano, em Roma, para que a Irmã possa ter o título de Venerável. Seguindo esta designação, a abertura do processo de beatificação deve ser concluída. O posto é o mais próximo da canonização - titulação recentemente dada à Irmã Dulce, a primeira Santa brasileira.

A expectativa do Padre Rafhael Maciel é de que Irmã Clemencia seja tida como Venerável até o fim de 2021. Rafhael é padre da Arquidiocese de Fortaleza e atualmente está morando em Roma, de onde vem acompanhando de perto as reuniões para a titulação. "Enquanto continuamos esse trabalho burocrático, nós continuamos a divulgar a vida da Irmã de modo privado", diz.

A história de Irmã Clemência já foi abordada anteriormente no O POVO, no especial Santificados. O caderno traz a história da religiosa e a importância de sua santificação na região. Especialistas, estudiosos e devotos trazem suas histórias e visões da Irmã e de outros 12 casos de "santificações cearenses".

Serviço

O QUÊ: Novena Virtual para pedir a beatificação da Serva de Deus Irmã Clemência Oliveira

QUANDO: 26 de junho à 4 de julho, às 19 horas;  missa de encerramento às 19 horas do dia 5 de julho

ONDE: na página do Facebook Paróquia Nossa Senhora da Palma e na página Serva de Deus Irmã Clemência

Uma vida de devoção aos pobres

"Ela foi considerada como a irmã dos pobres, a Irmã Dulce da região. Minha mãe esteve em seu enterro e desceu gente de todo o Maciço para dar o adeus. Eles choravam e falavam 'morreu a mãe dos pobres'". É com essas palavras que o Padre Rafhael Maciel justifica a importância da história e da devoção de Irmã Clemência na região do Maciço de Baturité. Apesar de nascida em Redenção, foi no Maciço que a religiosa alcançou suas maiores graças - a de ajudar a quem mais precisava. 

"Benecinha", como era chamada carinhosamente em casa, tinha 18 anos quando a mãe morreu. Cuidou com seu pai junto dos irmãos em Maranguape, a 24 km de Fortaleza. Em Fortaleza, trabalhou por duas décadas no colégio Imaculada Conceição, antes de ser transferida para Pacoti e Baturité - lá, participou da sociedade Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo e teve grande parte de suas atividades realizadas no Maciço.

Caracterizada por um chapelão branco, a religiosa atendia e cuidava de doentes da região, mesmo sem ter qualquer qualificação comprovada em enfermagem ou medicina. No ambulatório São José tratava dos doentes com materiais recebidos por doações da Capital - Moisés Rocha Farias conta que, mensalmente, a Irmã fazia o percurso para arrecadar remédios e esmola sempre com o intuito de ajudar. "Ela era conhecida como a 'Irmã pidona' e mensalmente fazia isso devido à época em que Baturité não tinha médico. Ela foi pioneira", conta.

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Anos após sua morte, em 1966, os feitos continuaram reverberando entre as gerações da cidade até chegar no dom Aloísio Lorscheider. Em 1994, o sacerdote abriu o processo diocesano da Irmã, concluído em 2010 por dom José Antônio Tosi que a reconheceu como Serva de Deus. Com o rol do processo romano, 14 virtudes heroicas precisam ser atestadas para confirmá-la como Venerável.

"Em um período de pandemia, no qual precisamos de um caminho de esperança, podemos recorrer com ela. É um modelo a ser seguido, uma intercessora junto de Deus", celebra o Padre Rafhael Maciel. As lembranças continuam e acalentam em tempos difíceis. "Muitos dos que conheceram a irmã já morreram, mas o povo local ainda guarda a memória da irmã como alguém importante para eles e que teve uma relevância muito alta na região", diz.

Se agraciada com a beatificação, Irmã Clemência será a segunda cearense a ter o título. A primeira foi a Menina Benigna teve a celebração confirmada em janeiro deste ano. Com apenas 13 anos, Benigna Cardoso da Silva foi assassinada na tarde do dia 24 de outubro de 1941. A órfã seguia sua rotina de pegar água em uma cacimba quando foi atingida com golpes de faca após recusar investidas amorosas de Raul Alves, jovem de 13 anos de idade. O corpo foi encontrado no mesmo local do crime, no Sítio Oiti, por sua família.

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A jovem passou a ser vista como santa por todos da região, sendo uma inspiração para promessas e graças de religiosos. Moisés explica que o processo de beatificação de Benigna foi mais rápido. "A diferença é que a Menina foi martirizada e o processo é mais rápido e célere. Quando não é via martírio, ele demora." Ambos os casos foram relatados no O POVO com o especial Santificados, que traz 13 casos cearenses de devoções populares do Estado.

Com informações do repórter Cláudio Ribeiro