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Cem anos de João Paulo II: repórter do O POVO relembra cobertura da visita do papa a Fortaleza

O passo a passo da cobertura que marcou para sempre a carreira de um fotógrafo
23:25 | Mai. 18, 2020
Autor Gabriela Almeida
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Gabriela Almeida Repórter O POVO
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Tipo Notícia

Câmera antiga nas mãos, coração na boca. É dessa forma que o repórter fotográfico do O POVO, Mauri Melo, estava quando viu o papa João Paulo II pela primeira vez. A figura carismática e amorosa do pontífice — e agora santo —, que completaria 100 anos nesta segunda-feira, 18, desembarcou no dia 9 julho de 1980 em Fortaleza para o X Congresso Eucarístico Nacional. Assim, permitiu ao repórter uma cobertura fotográfica que marcou para sempre a própria carreira.

“Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida”, relembra Mauri, que tinha 37 anos na época. Hoje, com 76 e ainda na ativa, o fotógrafo resgata sem muito esforço a sensação de ansiedade que o acompanhou naquela manhã de julho, quando o pontífice desembarcou na Capital.

Remontando cuidadosamente as cenas, o repórter lembra de vestir o terno que havia ganhado para usar no momento e se dirigir do jornal ao aeroporto Pinto Martins, em Fortaleza, onde aguardou na pista de pouso ao lado de colegas da profissão. “Nós trocamos figurinhas, ficamos imaginando como o papa era”, diverte-se ao lembrar.

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A conversa entre os repórteres só se dispersou com a chegada do avião. A uma distância de 30 metros do equipamento, permitida como forma de garantir a segurança do pontífice, os profissionais se posicionaram para registrar o momento e atestar, ainda que no íntimo, se à figura católica correspondia às expectativas guardadas e trocadas. Para Mauri, o Papa era exatamente do jeito como ele havia imaginado.

“Alto, bem forte, cor avermelhada, toquinha na cabeça e uma roupa branca”, descreve o veterano repórter, hoje o decano da Redação do O POVO.

Com uma câmera antiga na mão, que era de uso comum entre os repórteres à época, Mauri registrava os movimentos do papa tentando controlar o nervosismo que sentia. “A tensão era muito grande e o meu coração só faltava sair pela boca. Hoje eu não sei se aguentava”, brinca.

Capturando os primeiros gestos do papa na Capital mais por meio das lentes do que dos próprios olhos, Mauri registrou o momento em que o pontífice se ajoelhou no aeroporto e beijou o chão de Fortaleza. Um gesto que representava fielmente o coração do homem que virou símbolo de paz e transformou a imagem da Igreja Católica. “Quando nós vimos o papa de joelhos, ficamos nos questionando o que ele faria. Quase não dava pra acreditar”, confessa.

O próximo passo do pontífice foi um desfile percorrendo a BR-116 em direção ao Castelão, sendo seguido por centenas de fiéis que se aglomeravam para vê-lo. Mauri não estava entre eles, teve de se adiantar e sair à frente do papa, garantindo um lugar na parte superior do estádio — que já sofreu duas grandes reformas desde então.

No local, ele flagrou a chegada do papa, que chegou e entrou no gramado, sendo recebido por milhares de pessoas que gritavam o seu nome e acolhido pela música “Obrigada, João Paulo”, cantada por Luiz Gonzaga no palco.

“Eu estava a todo momento arrepiado e emocionado demais, mas fotografando. Nunca tive uma emoção igual”, relembra Mauri.

O pontífice realizou uma missa histórica no estádio — uma das maiores multidões da arena de grandes jogos do futebol cearense. E o fotógrafo, católico desde muito novo, teve de abdicar de participar inteiramente do ritual para cumprir o compromisso profissional de registrar todas as etapas dele. “Ele (papa) pedia ao povo para se aproximar mais de Deus e falava só em amor”, relembra.

Mauri se espreitava na parte superior do estádio para conseguir registrar a celebração e afirma que o pontífice tinha um “magnetismo” que envolvia todos os fiéis presentes.

A fama de carismático que o papa de pele rosada levava era evidente pelo “sorriso que não saia nunca do seu rosto”. Naquela noite, ainda impressionado com o que viveu, Mauri confessa que ao chegar em casa não conseguiu dormir direito.

O aceno de adeus

No dia seguinte, o repórter retornou ao aeroporto para acompanhar a despedida do primeiro papa não italiano da história. O pontífice apareceu com a mesma vestimenta branca e toca vermelha que havia usado anteriormente. Assim como ele, Mauri repetiu a roupa e tornou a usar o terno do dia anterior, que revela ter guardado como lembrança por anos. 

Desse segundo momento ele não resgata muita coisa, apenas uma imagem que o marcou profundamente.

“Nós ficamos embaixo da asa do avião e, na hora que o papa tava subindo, ele parou e se despediu dos repórteres, acenando pra gente”, relembra Mauri. 

Era a primeira vez que o pontífice havia se dirigido, mesmo que não tão de perto, a Mauri. Ainda que se empenhando em manusear a velha lente nikon 250 milímetros que carregava, o repórter confessa que, como em todos os momentos da cobertura, "sentiu amor no momento". 

"Quando é que eu vou ver outro papa de novo?", relembra ter pensado no segundo em que o avião decolava. A sensação de "chance única" mais pareceu uma intuição do que qualquer outra coisa, visto que em 2005 João Paulo faleceu em decorrência de um agravamento de saúde e Mauri nunca teve a oportunidade de reencontra-lo.

Hoje, o repórter de cabelos brancos — mais velho que Karol Wojtyla naquele 9 de julho de 1980 — guarda as memórias e o conforto de saber que recebeu um aceno como adeus.  


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