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Viva Maria, em alto e bom som há 40 anos

16:58 | Set. 14, 2021
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Conheça a potência do programa
da Rádio Nacional que chega
a quatro décadas de lutas e vitórias

O programa Viva Maria, da Empresa Brasil de Comunicação, veiculado pela Rádio Nacional da Amazônia, completa 40 anos nesta terça (14), com uma programação especial. A apresentadora Mara Régia vai conversar, ao vivo, às 17h, com personagens que participaram da trajetória do programa. O evento pode ser conferido pela Rádio Nacional da Amazônia e também pelas redes sociais.

Mulheres entrevistadas dizem que falam mais alto, nessa estação, ao pedir o banco da escola, a carta, as plantas, o trabalho, a união por uma solidariedade, sororidade feminina e cidadã aliançada pelas vozes.

As matérias que a Agência Brasil publica por ocasião do 40º aniversário deste programa de rádio, que é um dos mais premiados do Brasil, incluem algumas dessas histórias. Como das mulheres que voltaram a estudar e que descobrem a poesia, no Pará. Uma delas escreveu mais de 500 poemas.

Da parteira-cantora que viaja a pé pela noite escura, tendo apenas a lua como guia, e ajuda a dar à luz no Acre. Além de trazer crianças ao mundo, inspirada, já compôs mais de 300 músicas.

Como da professora que recomeça a vida no Amapá após um acidente de escalpelamento. Ela recomeça em solidariedade por outras mulheres. Na rádio, em busca do cabelo.

Elas e tantas outras foram conectadas, e que se viram alumiadas pelas informações, em formas de conhecimento, alertas, prevenção... As novidades, há 40 anos, nunca pararam de chegar, seja pelas vozes do rádio ou das próprias consciências. Viva Maria, garantem as entrevistadas, é transformação em alto e bom som.

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Rio lança projeto para empregar mulheres vítimas de violência

Direitos Humanos
15:43 | Set. 14, 2021
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O Projeto Novos Rumos, apresentado hoje (14) pela prefeitura carioca, quer inserir mulheres em situação de violência doméstica no mercado de trabalho formal. A ideia é que empresas ofereçam vagas para mulheres nesta situação e, em troca, recebam um selo de responsabilidade social.

O projeto tem como objetivo promover a autonomia financeira dessas mulheres por meio da inserção no mercado de trabalho formal, a fim de ajudá-las a encerrar o ciclo de violência doméstica.

A iniciativa reúne as secretarias municipais de Trabalho e Renda (SMTE), de Políticas e Promoção da Mulher, além do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ), que indicarão as candidatas às vagas de emprego. O evento de lançamento (foto) ocorreu no Salão Nobre do TJRJ, localizado na região central da capital fluminense.

Segundo o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, as mulheres vítimas de violência buscam socorro no sistema judiciário e é importante que a prefeitura também possa ajudar no acolhimento e encaminhamento dessas pessoas: “Se a mulher consegue se emancipar, ter o seu trabalho, o seu emprego, a sua renda e proteger seus filhos, ela se livra desse ciclo de violência”.

O presidente do TJRJ, desembargador Henrique Carlos de Andrade Figueira, destacou, por sua vez, que a prioridade da instituição é melhorar as condições sociais das vítimas. “O projeto é de uma importância fundamental, pois dá a mulher em dificuldade condições de se reerguer, para quebrar esse ciclo de violência”, disse Figueira.

A secretária da Mulher, Joyce Trindade, acredita que a parceria do Tribunal de Justiça com a prefeitura vai possibilitar que mais mulheres tenham coragem para denunciar as agressões de que são vítimas, por saber que terão políticas de acesso à autonomia econômica.

Segundo ela, um dos principais motivos que impedem a mulher de sair da situação de violência doméstica é justamente a dependência financeira. “Nossos equipamentos e serviços estão prontos para atendê-las e encaminhá-las às novas oportunidades de trabalho e na construção de uma cidade segura para as mulheres”, disse.

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Viva Maria, 40 anos: a agricultora que planta poesias

Direitos Humanos
07:42 | Set. 14, 2021
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Moradora da comunidade Tupã, de mais de 100 famílias na cidade de Xinguara (PA), a trabalhadora rural Kennya Silva, hoje com 43 anos, comemorou muito quando, em 2008, a energia elétrica chegou à casa dela. "Era uma conquista imensurável ter luz em casa". Uma das primeiras providências foi satisfazer um sonho antigo da família: alugar um filme no centro de Xinguara (a 15 quilômetros de distância) para assistir em casa. Seria o dia de um "luxo" que todos estavam esperando

- Mas não vou poder alugar pra você - disse a dona da locadora para espanto de Kennya.

- Você mora em área rural. Se você não voltar, como vou te encontrar? 

E o endereço não foi aceito. Revoltada, saiu pela rua e chorou. "Foi tão grande a minha indignação que andei por um tempo pensando naquilo muito triste. Eu pensei que essa mulher que me negou o aluguel do filme só se alimenta porque eu trabalho na roça. As pessoas na cidade comem porque a gente planta".

Era muito tristeza e revolta. O sentimento a levou até o caderno em que se habituou a escrever poesias, o que faz desde a adolescência.

Kennya resolveu retomar um texto antigo que havia começado a escrever havia oito anos. "Uma Maria Quarqué". Ela não queria mais assistir ao filme. Queria mesmo era escrever. Traduzir o que aquele instante significava. Mais do que isso: aquele desabafo não poderia ficar somente no caderno. Resolveu mandar para o programa Viva Maria, da Rádio Nacional da Amazônia. "Eu mandei a poesia. Para minha surpresa, a Mara Régia (jornalista e apresentadora do Viva Maria) não só leu a poesia, como também declamou com o fundo musical de Maria, Maria (de autoria de Milton Nascimento).

O programa Viva Maria é parte da vida de Kennya Silva. Desde a infância, inclusive, ela acompanhava, com a família, a programação da Rádio Nacional da Amazônia. O radinho de pilha era colocado em posições estratégicas para que a voz dos apresentadores nunca falhassem. 

Ouvinte na Amazônia, escutando rádio.
Ouvinte na Amazônia, escutando rádio. - TV Brasil

"Seria um sonho que a Mara Régia lesse minha poesia, Mas ela fez mais do que ler".

Ao receber a carta, a produção do programa procurou Kennya para uma entrevista. Os pedidos de entrevistas chegavam também pelo apelo das ouvintes. Todos queriam conhecer quem havia criado aqueles versos.

Eu sô uma Maria quarqué.
Uma dessas muié, qui vivi na roça,
qui viaja di carroça, di cavalo ou a pé.

Eu sô uma maria quarqué.
Dessas que acorda cedin, faz o bolo i o café, cuida da casa du quintá,
dus bichin dos animá, qui sustenta o brasí di pé.

Eu sô uma maria quarqué
qui tira o leite da vaquinha, cuida das prantas i das galinhas, sô maria muié de fé. Sô maria forte, sô du su ou sô do norti num importa o lugar, in quarqué parti du praneta ixisti uma Maria cuma eu, qui luta cum fé i coragi na lida qui Deus lhe deu.

Eu Sô uma Maria quarqué
Num sei falar ingrêz, num intendo di moda, uso xita i xadrez,
Sô diferente di ocês, mas isso num mi incomoda.

Eu sô uma Maria quarqué
di vêz inguanto vô na cidade, inté cumpriendo seu valô.
mais é aqui no mato qui tenho felicidade, sô bonita do meu jeito também tenho vaidade.

Eu sô uma Maria quarqué
Sô da roça sim sinhô, sô caipira cum orguio, mas trabaio cum amor.

Eu sô uma Maria quarqué.
qui só usei esse papé, pra chamar sua atenção pra fazer ocê oiá ,cum o zói du coração pras tantas Marias quaisquer, que vivem de realidade, que retratam o amor à vida e a fé, que só desejam ser respeitadas ao longo dessa jornada no seu ranchinho de sapé.


Escute aqui a poesia na íntegra

 

Inspiração feminina

A Maria Quarqué, de Kennya, fez sucesso. "A partir desse momento, foi um divisor de águas na minha vida. Tomou um sentido que eu não imaginava. E pensar que, na época, eu tinha parado na quinta série do ensino fundamental".

A poesia de Kennya inspirou outras mulheres da região, como uma senhora que, ao ouvir a poesia, decidiu percorrer 18 km de bicicleta para estudar. "Quando eu escutei aquilo, foi um susto. Como eu estou inspirando outras pessoas e eu mesma não voltei? Então, voltei pra escola e escrevi pra Mara Régia de novo".

A nova carta de Kennya repetiu o sucesso e mais de dez pessoas escreveram para a produção do Viva Maria, garantindo que voltariam para a escola.

Novos começos 

Era só o começo de uma reviravolta. Fez supletivo e, depois, ingressou na faculdade O círculo virtuoso cresceu. Kennya passou a ser premiada em concursos de poesia.

"A história tem a marca do Viva Maria. Ganhei o prêmio Mulheres Rurais, Mulheres com Direitos. Não imaginava que a minha história fosse tão importante para outras pessoas. Hoje eu represento as mulheres trabalhadoras rurais no Brasil em conferências internacionais da América Latina".

Ingressou na faculdade de letras, virou tutora de oficina de poesia. Após a primeira experiência universitária, resolveu fazer o curso de filosofia. Está prestes a concluir também. Ela não para de escrever. Sonha publicar o primeiro livro. São mais de 500 poesias que tratam sobre a vida das mulheres, o trabalho no campo e as próprias experiências. Os textos são escritos primeiro nos cadernos e depois digitados no computador de casa. 

Kennya Silva com o diploma de graduação em Letras
Kennya Silva com o diploma de graduação em Letras - Kennya Silva / Arquivo pessoal

Hoje, Kennya, professora da rede municipal, está cedida para a Casa de Cultura de Xinguara. Como trabalhadora rural, cultiva frutas como graviola, cupuaçu, acerola e tamarindo. A família congela e vende a polpa de fruta.

A jornalista e apresentadora Mara Régia chegou a ir até a casa de Kennya de surpresa. Foi emocionante para a poetiza. Junto da profissional do programa Viva Maria, estava a ouvinte e trabalhadora rural Alzira Soares, de 69 anos de idade, que vive na cidade de Tucumã, há 36 anos. Ela disse que não havia nem tirado documentos não fosse o programa Viva Maria entusiasmadas com a história da Maria Quarqué.

A vida na roça para Alzira é desde que ela se entende por gente. "Quando encontrei a Mara, me emocionei muito Queria contar para ela que conheci mais sobre os meus documentos, mas também assuntos da saúde da mulher. Há 30 anos, eu não sabia o que eram [exames] papanicolau e mamografia. Além disso, passou a frequentar a escola com 42 anos de idade. Montava no cavalo e ia por 6 quilômetros". 

Mara Régia vista Kennya Silva em Xinguara (PA).
Mara Régia vista Kennya Silva em Xinguara (PA). - TV Brasil

São essas inspirações que fazem Kennya escrever. "Quando me perguntam, por que eu, uma trabalhadora rural, faço poesia... eu respondo que isso não me dá dinheiro, mas me dá emoções que o dinheiro não compra."

Ouça aqui podcast sobre o Viva Maria Ano 40

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Viva Maria, 40 anos: a parteira que ilumina o interior do Acre

Direitos Humanos
07:47 | Set. 13, 2021
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Quatro horas da manhã. O silêncio da madrugada, que era acompanhado apenas pelo som da chuva forte, foi interrompido pelas batidas na porta da parteira Maria Zenaide de Souza Carvalho, na cidade de Marechal Thaumartugo (AC).

Era um amigo pedindo auxílio para que ela ajudasse em um nascimento delicado. O caminho era longo. Pelo menos duas horas a pé pela floresta e sustos no percurso. "Pisei em uma cobra, ela inchou, fez barulho e, ao tentar correr, perdi a poronga. Não tinha nada para alumiar o caminho", lembra a parteira. Poronga é a luminária improvisada abastecida com querosene que trabalhadores usam no seringal para enxergar o que está na frente. 

Passou a se agarrar nas árvores e a contar com a luz da lua.

Quando chegou à casa da gestante, viu que ela estava com dor. "Ela estava sem força e começou a desmaiar. O marido desmaiou. Antes, pediu: 'Salve a minha mulher'. Nós não trabalhamos com bisturi. Usei os dedos para aumentar o espaço. E a criança nasceu. Foi emocionante. Disse a eles que ninguém morreria. E deu tudo certo.”

O dia deixou recordações fortes e ela lembra como se fosse ontem: 22 de janeiro de 1979. Maria Zenaide só tinha 23 anos. Mas, por incrível que pareça, a história dela como parteira na floresta começou muito antes: quando tinha apenas 10 anos de idade. Fez o parto de uma tia. "Não tinha posto ou hospital. E a gente queria se ajudar.”

floresta Amazônica
Floresta Amazônica - Marcelo Camargo/Agência Brasil

Desde então, já foram 306 partos. A maioria absoluta no interior do Acre. Hoje, Maria Zenaide vive em Rio Branco. Mudou para a capital depois que sofreu violência sexual no interior. Agredida, deixou de enxergar com o olho esquerdo.

Em outro parto marcante em sua trajetória, ela recorda a ocasião em que andou por oito horas. "A criança e a família não tinham uma cama ou uma roupa para cobrir. Às vezes, eu chorava diante dessas desigualdades.”

Eu posso ser como ela

Suas histórias ficaram famosas na região e ela escreveu para o programa Viva Maria, da Rádio Nacional da Amazônia. "Lá no seringal, o rádio é o preferido. Escuto o programa faz 40 anos. Nós parteiras do Acre e da Região Norte nos comunicamos por ele. O programa nos uniu.” Ela explica que a jornalista Mara Régia, a apresentadora do programa, sempre a inspirou.

"Nós não tínhamos voz nem voto. Aí quando eu a ouvia, eu pensava: eu posso ser como ela. Ela é mulher e nós também. Me sentia representada por ela. Quase todas as mulheres se sentiram.”

Zenaide explica que o trabalho de parteira é voluntário e é feito por causa do amor "que temos uns aos outros". Mas Zenaide queria mais. Foi estudar em Pernambuco, fez curso de auxiliar de enfermagem "para misturar o popular com o científico" e chegou a trabalhar em um posto de saúde de Marechal Thaumaturgo. "Ganhava um dinheiro que sustentava a minha família. Mas, depois do estupro, perdi meu trabalho e mudei de lá.” Zenaide conseguiu, depois, se aposentar.

De parteira a cantora

Mas ela não para. Durante esse período de pandemia, fez 13 partos em Rio Branco. Ela é convidada para palestras sobre saúde da mulher e planejamento familiar. Além disso, em 2017, foi descoberta em um novo talento. O seu caminho iluminado pela lua e pelas memórias é acompanhado também pela música. Maria Zenaide foi flagrada por uma amiga cantando no caminho. "Já fiz mais de 500 músicas. Queria viver disso até o final da vida.”

O talento já é considerado indiscutível. A fama chegou ao produtor musical Alexandre Anselmo, que insistiu para que ela gravasse um disco. "Nós consideramos a Zenaide uma mestra da música tradicional aqui no Acre", afirma o músico. 

Maria Zenaide em uma de suas apresentações musicais.
Maria Zenaide em uma de suas apresentações musicais. - Maria Zenaide / Arquivo pessoal

 

"Desde criança, eu canto.” Em 2019, viajou para Espanha com outros músicos. "Foram 22 dias e cinco shows". A pandemia interrompeu a carreira em ascensão da parteira-cantora. "Estava com cinco shows marcados. Tenho 506 músicas. Eu estava gravando um CD com dez músicas sobre a natureza e sobre a temática das parteiras. Música para mim é vida, é saúde.”

A parteira teve um filho biológico, que morreu em 1972 vítima da malária. Depois, a mulher que fez da vida um canto de amor às crianças adotou cinco filhos. Hoje já tem cinco netos. Parto ela só fez de uma das filhas, a professora Ozileide Maria Carvalho, que também mora no Acre. Mesmo com tanta experiência, diz que ficou com as "pernas moles".

"Ela é uma mãe maravilhosa e nos educou. Crescer vendo seu trabalho foi muito importante. Ela é batalhadora. Ela é um anjo da guarda e o que ela ensinou eu tento passar para os meus filhos", diz a professora. O neto que Zenaide fez o parto, Valeriano, já completou 21 anos. 

Zenaide, além de cantar e fazer partos, faz artesanato para complementar a renda. Quando ajuda no parto, também costuma receber doações. Mas ela sabe que essa é uma missão.

"Ser parteira significa ter coração bom, sem ganhar nada, trabalhar por prazer. Tenho certeza de que o parto na nossa vida é uma realização de vida". 

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Viva Maria, 40 anos: as dores e o recomeço de Rosinete 

Direitos Humanos
09:43 | Set. 12, 2021
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Daquela viagem, as lembranças misturam-se para a pedagoga Rosinete Serrão. O cheiro do rio, o calor e a água que insistia em encharcar o barco a motor. Ela, aos 20 anos de idade, fazia uma viagem até uma comunidade ribeirinha na foz do Rio Amazonas, na cidade de Breves.

O percurso era para ensinar crianças de comunidades no Marajó a ler. Àquela altura, Rosinete estava ainda na escola, mas promover o estudo de quem mora distante era parte de sua alma. O que não esperava é que um cochilo ou uma distração a surpreenderia e mudaria a sua vida completamente.

Os gritos dos outros e depois o dela, as mãos ensanguentadas. Era a pele que encobria o seu rosto. O motor do barco puxou o cabelo dela e todo o seu couro cabeludo. As sobrancelhas também sumiram. 

Amanhecer a bordo do Navio Auxiliar Pará, no arquipélago de Marajó.
Amanhecer a bordo do Navio Auxiliar Pará, no arquipélago de Marajó. - Marcelo Camargo/Agência Brasil

A professora Rosinete, naquele 18 de agosto de 1997, era mais uma vítima da violência do acidente do escalpelamento. Vinte e quatro anos depois, ela lembra que o caminho de recomeço foi longo, longe da família, em uma jornada que envolveu retomada de autoestima e de solidariedade. Hoje, aos 44 anos de idade, vive com duas filhas e marido em Macapá. A solidariedade, que a reergueu, surgiu em diferentes ondas. 

"No Amapá, vim fazer o tratamento. Eram vários curativos por mês. Não voltei mais para a minha área ribeirinha. Assim, até hoje estou morando aqui. Foi muito difícil esse recomeço. Foi como se tivesse começando a vida do zero. Não tinha mais vaidade. Fiquei quatro anos isolada. Não queria ir a lugar nenhum", recorda.

Foi na capital do Amapá que buscou tratamento e refúgio. Com o acidente, inicialmente, resolveu abandonar tudo, até os estudos. "Não tive condições psicológicas de continuar vivendo a vida de antes. Em Macapá, descobriu também que era necessária uma reviravolta.

"Antes, eu achava que aquilo só havia ocorrido comigo. Passei a conhecer outras pessoas." 

Foi pela rádio que ouvia rotineiramente onde resolveu que era necessário viver e se unir a outras mulheres que passavam pelo mesmo problema. "Com a rádio, conseguimos levar essa mensagem de conscientização sobre o escalpelamento por toda a Amazônia. A rádio que eu ouvia me ajudou muito nisso", afirma.

Visibilidade

A rádio, pelo programa Viva Maria, da Rádio Nacional da Amazônia, apresentou a ela o que antes lhe era invisível. "Não eram duas, três. Eram mais de 80 pessoas. Tenho paixão pela comunicação por rádio. É o meio de comunicação que escutava desde pequenina. Conheci a Mara Régia no movimento do combate ao escalpelamento. Ela estava nas conferências no estado do Amapá. A gente, em 2011, fez uma grande campanha de doação de cabelo, que nunca se encerrou e assim podemos ajudar outras pessoas que foram vítimas como eu."

Ao ter a história revelada pelo programa Viva Maria, Rosinete passou a ser uma voz importante para contar as histórias sobre esse tipo de acidente e a dar visibilidade para as causas e consequências do escalpelamento, mobilizando associações e pessoas. Resolveu fazer cursos gratuitos, unir mulheres em vulnerabilidade diante de projetos organizados para empreender e promover uma ação transformadora.

"Não só descobrimos que existiam outras mulheres, como também, ao ser entrevistada pelo Viva Maria, passamos a inspirar mulheres a não pararem diante do acidente. Através da nossa luta e empoderamento, podemos virar autônomas, empreendedoras e com possibilidade de gerar qualidade de vida para a gente e nossa família". 

Valorização da vida

Rosinete resolveu voltar para a escola, terminou o ensino fundamental e médio e chegou a se formar em pedagogia. O antigo sonho com a educação tomava forma novamente. "Recomecei a minha vida depois que conheci outras vítimas e pude espalhar informação. De repente, éramos 89. Vi que eu não era, nem estava sozinha. Cada uma de um grau diferente de gravidade."

Era necessário reivindicar direitos e buscar saídas. "Foi assim que me empoderei". O mundo se abriu ao valorizar mais a si mesma. "Pensei que, diante do meu problema, poderia colocar uma peruca. Pessoas com necessidades especiais também me inspiraram”. Ela pôde verificar que, enquanto olhava apenas para os próprios problemas, não valorizava o que estava a sua volta.

"Eu pensava só na minha história. Eu comecei a olhar para pessoas que já nasceram sem andar. Eu tinha que fazer algo."

Como meta, participou de cursos e palestras de empreeendedorismo. "Tenho cursos, por exemplo, de reaproveitamento de alimentos até corte e costura. Isso me motivou muito. Aprendi a falar em público. Eu não falava nada. Eu jamais aceitaria dar uma entrevista há uns anos". O Viva Maria foi uma primeira experiência, pela rádio, de verificar que a voz poderia soar alto. 

Ela se formou em pedagogia e quer ajudar crianças e adolescentes. "Eu estou pretendendo dar aula para crianças aqui na minha comunidade. Estou falando com alguns parceiros. Estou buscando materiais pedagógicos. Com a pandemia, a situação ficou bastante difícil". Quer ensinar também adultos a escrever ou mesmo a mexer na internet e no celular. "Estou com esse projeto de dar aulas aqui no meu bairro, o Jardim Marco Zero." Um novo marco zero de vida.

Rosinete Serrão em sua formatura do curso de Pedagogia.
Rosinete Serrão em sua formatura do curso de Pedagogia. - Rosinete Serrão / Arquivo pessoal

Mundo das Rosas

Entre os novos marcos, Rosinete criou a organização não governamental (ONG) Movimento Mundo das Rosas para ajudar mulheres que sofrem violência ou outros tipos de vulnerabilidade. "Em 2015, eu fazia ação de corte de cabelo para filhos dessas mulheres. Agora, estou com esse projeto nesse novo cenário de tanta dificuldade em que pessoas perderam emprego e estão endividadas."

A entidade dela foi uma das selecionadas pelo Instituto Rede Mulher Empreendedora, no qual ela aprendeu a organizar a vida econômica do seu lugar. "Quero trabalhar com as mulheres da minha comunidade temas de economia colaborativa. Elas já vendem algumas coisas, de alimentação a vestuário. Agora, elas precisam aparecer. Sei que posso ser uma porta de entrada para elas."

Outra porta chega pelas ondas do rádio. "No Programa Viva Maria, tenho tido espaço para falar de empreendedorismo para as mulheres. A rádio é uma porta de entrada da mudança. O programa leva essa informação para outras mulheres"

Escalpelamento

Os números de acidentes mantêm uma média anual em estados como Pará e Amapá, o que indica que o problema ainda está longe de ser sanado, ainda que a solução seja aparentemente simples, segundo avalia a Marinha. No primeiro ano de divulgação, foram 11 casos. Em 2009, o maior número nesses últimos 15 anos: 20 acidentes.  Em 2019, 13. No ano passado, dez. E, neste ano, até agora, oito. A Marinha destaca que as crianças representam 60% das vítimas. 

Moradores de comunidades ribeirinhas do arquipélago de Marajó se aproximam do Navio Auxiliar Pará.
Moradores de comunidades ribeirinhas do arquipélago de Marajó se aproximam do Navio Auxiliar Pará. - Marcelo Camargo/Agência Brasil

A Capitania dos Portos faz a colocação gratuita do kit de proteção no eixo do motor, o que evita acidentes como o que Rosinete sofreu. O medo de uma multa ou de eventuais outras punições afasta donos de embarcações. No entanto, os militares garantem que a busca é por conscientização. Por isso, os barqueiros são estimulados a resolver o problema que pode gerar uma tragédia. A colocação do kit é gratuita.

Rosinete está ansiosa para o dia em que a pandemia acabar e puder envolver mais a comunidade com a entidade que criou. O projeto Movimento Mundo das Rosas está atendendo algumas vítimas de escalpelamento. "Sempre busco alimentos para elas. Estou pensando em como ajudar mais."

O nome da entidade foi inspirado em uma poesia escrita pelo marido de Rosinete, Clebison Magno. O rapaz também foi vítima de um acidente em barco, o que causou lesões em seu rosto. Os versos dele homenageiam as mulheres que buscam o recomeço: "As rosas serão de todas as cores. E a beleza de todas as cores. E a beleza de todas as flores. Um dia nem tudo serão rosas, pode esquecer. Porém as rosas serão tudo o que quiserem ser."

Leia e ouça mais sobre escalpelamento no programa Tarde Nacional, da Rádio Nacional da Amazônia.

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Viva Maria, 40 anos: uma trajetória de sucesso e superação

Direitos Humanos
09:03 | Set. 11, 2021
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Uma composição de paisagens humanas, que já atravessa décadas, tem vozes, histórias e o poder das mulheres. O programa Viva Maria, da Empresa Brasil de Comunicação, veiculado pela Rádio Nacional da Amazônia, tem uma trajetória singular na comunicação brasileira ao trazer a cidadania para a pauta diária. Mulheres entrevistadas ganham voz ao pedir o banco da escola, a carta, as plantas, o trabalho, a união por uma solidariedade e sororidade femininas. No dia 14 de setembro, o Viva Maria completa 40 ano no ar e a Agência Brasil  te convida a conhecer, na série Viva Maria, 40 anos, alguns dos personagens que construíram a história do programa. 

Banner Viva Maria 40 anos
Banner Viva Maria 40 anos - Arte EBC

Engajamento raiz

Ela recebe cartas manuscritas, mesmo em tempos da internet. Mas também tem a caixa lotada de mensagens instantâneas e e-mails. Colecionadora de histórias e reconhecimento.  A jornalista Mara Régia di Perna, uma das profissionais mais premiadas do Brasil, apresentadora do Viva Maria há 40 anos, mantém o espírito guerreiro de 9,6 mil programas atrás, em 1981. 


 

Nesse caminho, o que ela gosta mesmo é de comemorar as trajetórias de transformação que pôde testemunhar e espalhar pelos seus microfones. Histórias vindas da Amazônia ou de outras partes do país. As Marias, como ela denomina as mulheres lutadoras, encontraram na profissional a confiança para denunciar, alertar, pedir ajuda, comemorar junto ou mesmo declamar uma poesia... "Bom dia, bom dia..." espalha aos 70 anos de idade uma animação permanente, como se ainda estivesse apenas começando.

A missão está na ponta da língua.

"Nós não cobrimos espetacularização. O programa cobre processos". 

Em entrevista à Agência Brasil, Mara Régia recorda o começo do programa, histórias marcantes, os sentimentos e os bastidores de coberturas.  

Agência Brasil: Como começou o Viva Maria?
Mara Régia di Perna: "Maria, Maria, é um dom, uma certa magia...".Olha só. (É uma história de) Pura magia, como a música de Fernando Brandt e Milton Nascimento. Estava em Brasília o grupo Corpo com a música Maria, Maria fazendo do balé uma expressão de força, raça e fé. E tivemos a ideia de criar um programa que falasse com as mulheres. Desde o começo, eu tinha antenado que precisávamos falar sobre a mulheres de Brasília. Até porque muitas mulheres se ressentiam de só terem comunicação masculina no ar. Eram só os homens que falavam. Havia uma ideia preconcebida que as mulheres não ouvem outras mulheres. Ao idealizarmos o programa, eu e a Antonieta Negrão, nós tivemos por parte do nosso gerente, o saudoso Eduardo Fajardo, para não abrirmos mão de uma voz masculina por quem as mulheres pudessem se apaixonar. Discordamos. Todos entenderam que o Viva Maria seria um programa para falar de mulher para mulher. Assim se passaram 40 anos. Meu Deus, eu nem acredito...

Agência Brasil: Como foi que surgiu essa relação com a Amazônia?
Mara Regia: A Amazônia foi a responsável pelo meu início de carreira no rádio. Eu estudava na Universidade de Brasília (UnB) o curso de publicidade e propaganda. Um amigo soube que o sistema público havia criado uma rádio para a Amazônia. Então fiquei com aquilo na cabeça. Hoje sei que não é por acaso que tenho Régia no nome. Eu fui, então, fazer a prova. Fiz, na época, um jornal do seringueiro. Deu certo. Depois, na Radiobrás, ocupei um lugar que estava vago, uma oportunidade na Rádio Nacional, à tarde. Assim consolidamos o Viva Maria nessas ondas. Na Rio 1992, comecei a fazer a campanha do Planeta Fêmea. Foi um delírio total. Foi graças à Rio 92 que conheci, por exemplo, histórias como a de dona Raimunda dos Cocos (falecida em 2018). Ela está no calendário que comemora os 40 anos do Viva Maria. Sempre vi no rádio um projeto de transformação social. Nessa trajetória, fiz uma série de oficinas sobre saúde da mulher, também em relação aos direitos reprodutivos. Tive 183 vezes na Amazônia fazendo trabalho de formiguinha e para conhecer as mulheres. São muitas as peculiaridades. Tivemos a oportunidade de nos encontrarmos com os microfones da EBC para fazer o Viva Maria e o Natureza Viva. Esse é o rádio em que a gente acredita. O rádio que está a serviço da comunicação pública.

Agência Brasil: Qual a sua prioridade no programa?
Mara Régia: Nós não cobrimos a espetacularização, a morte, o incêndio. A gente cobre processos. Ao longo desse 40 anos, esse caminho nos dá a possibilidade de contar histórias muito comoventes, como a das parteiras da floresta em busca de reconhecimento, ou o drama do escalpelamento, ou das poetizas da Amazônia. Essas mulheres são as matrizes das histórias que devemos contar.

Agência Brasil: Quais os períodos mais marcantes?
Mara Régia: Esses períodos que coroam a nossa existência são frutos de experiências-limite. Por duas vezes, me senti em situação muito vulnerável. Certa vez, em Lucas do Rio Verde (GO), em que fui ministrar uma oficina sobre agricultura familiar, cheguei bem na hora que um avião estava pulverizando a cidade inteira com agrotóxico paraquat. Quando, na verdade, deveria estar restrita à lavoura. Os malefícios dessa intoxicação puderam ser sentidos muito tempo depois. As mulheres que estavam grávidas, por exemplo, tiveram o leite materno contaminado. Outra vez foi quando participei de mutirão de recuperação cirúrgica das vítimas de escalpelamento. Homens que perderam pênis, mulheres que tiveram o couro cabeludo arrancado e até a orelha arrancadas. Quando se perde a orelha, onde colocar o óculos, que é tão importante para sobrevivência delas? Inclusive, na EBC fizemos também campanha para ter as máquinas para fazer peruca e arrecadação de cabelo natural. O cabelo sintético não é adequado para quem vive na Amazônia.

Agência Brasil: Quantos programas de Viva Maria? Tem ideia?
Mara Régia: Até onde eu consegui contar, são 9,6 mil. Estamos a caminho das 10 mil edições desse programa que se alimenta de histórias dessas mulheres que são a razão da minha vida.

Agência Brasil: Essas mulheres revelam reconhecimento pelo programa ter mudado a história de vidas delas. Como você vê define esse sentimento 40 anos depois da primeira edição?
Mara Régia: Em uma palavra, não há menor condição de definir esse sentimento. Eu agradeço a generosidade e a cumplicidade que a rádio estabelece. Falamos numa vibração que faz acreditar no poder de comunicação. Estamos lançando sementes de alegria. E sementes reais concretas de árvores que já plantamos. São mais de 1 milhão. Esses relatos delas são uma grande recompensa por essa trajetória. Ouvir dessas Marias esses relatos de tamanha sororidade é como se a gente fosse recompensado por todas as dores. É como eu me sinto do alto dos meus 70 anos de vida, e 40 de Viva Maria.

Agência Brasil: O programa é muito premiado. E você uma das jornalistas mais premiadas do Brasil. O que representa pra você?
Mara Régia: São mais de 30. Entre prêmios, medalhas, diplomas... Posso citar o Prêmio Ayrton Senna que me deu uma imensa alegria pela história que ele contempla. Uma menina que foi vendida em Aripuanã do Norte (MT), que havia sido vendida pelo pai três vezes, E ela pediu ajuda pelo rádio para proteger as irmãs. Uma história dilacerante.. Graças a uma rede que formamos com entidades como Andi, conseguimos chamar o Conselho Tutelar para salvar a menina. É uma história que justifica a nossa profissão. Mais recentemente, recebi o Prêmio Audálio Dantas, pelo conjunto da obra, que foi também muito significativo para mim.

Prêmio Mulher Imprensa
Prêmio Mulher Imprensa - Divulgação EBC

Agência Brasil: Quais são os sonhos para os próximos 40 anos?
Mara Régia: Que meus netos (duas meninas e um menino) reconheçam esse trabalho. Que foi uma tentativa da avó para que eles tivessem direito a uma vida mais feliz, justa e igualitária.
 

 

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