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Brasil
NOTÍCIA

Transgênero, transexual e travesti: saiba o significado dos termos

Terminologias guardam sentidos múltiplos e representam uma luta antiga, de mais de quatro décadas

Gabriela Almeida
12:22 | 27/06/2021
Brasil teve 175 assassinatos de pesoas trans em 2020, segundo levantamento feito pela Antra; conhecimento é ferramenta contra a transfobia (Foto: Reprodução/Escritório de Assuntos Estrangeiros do Reino Unido)
Brasil teve 175 assassinatos de pesoas trans em 2020, segundo levantamento feito pela Antra; conhecimento é ferramenta contra a transfobia (Foto: Reprodução/Escritório de Assuntos Estrangeiros do Reino Unido)

Atualizada e corrigida em 28/06/2021 às 21 horas

Para entender o significado desses termos é preciso compreender a diferença entre identidade de gênero e orientação sexual. Durante muitas décadas, o movimento que hoje é reconhecido pela sigla LGBTQIA+ foi ligado apenas a questões de sexualidade, que se trata da atração que o individuo sente por outro.

É importante pontuar, no entanto, que as pessoas trans estiveram presentes, construindo o movimento LGBTQIA+, desde sua concepção no rescaldo da revolta de Stonewall. As lutas contra a discriminação sofrida pelo local e seus frequentadores começaram com Marsha P. Johnson, uma mulher trans, reagindo à violência policial.

Mas apenas nos anos 90 o debate sobre identidade de gênero ganhou força e levou tanto entidades internacionais como comunidades do movimento a discutirem o assunto. Foi nesse período que o "T" foi incluído na sigla da entidade que, naquele momento, era apenas LGB (lésbicas, gays e bissexuais).

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"Identidade de gênero é sobre ser. É o gênero que a pessoa se identifica, como o nome já diz. Dentro da questão de gênero", explica Yara Canta, artista e coordenadora geral da Associação de Travestis e Mulheres Transexuais do Ceará (Atrac). De acordo com a representante, há duas divisões gerais dentro da questões de identidade: pessoas cisgêneros e transgêneros.

"Pessoas ‘cis’ são pessoas que se identificam com o gênero imposto ao nascimento. Por exemplo, uma pessoa que nasceu com o gênero socialmente dito como masculino e se sente pertencente a este gênero, é um homem cis. O termo 'cis' é amplamente usado para evitarmos usar termos biologizantes e que acabam sendo transfóbicos como 'mulher de verdade' ou 'mulher biológica', pois as pessoas trans também são pessoas de verdade e  'biológicas'", esclarece Yara.

Já pessoas trans são aquelas que não se identificam com o gênero imposto ao nascer. A artista cita como exemplo alguém que nasceu com pênis, mas é do gênero masculino. Do contrário também é valido: alguém que nasceu com vagina, mas não é do gênero feminino.

Transgêneros 

A terminologia é utilizada como uma espécie de termo "guarda chuva", para representar toda a diversidade trans. O grupo é composto por: travestis, mulheres trans, homens trans, pessoas transmasculinas, não binárias (que não se enquadram nos conceitos de "feminino" e "masculino") e diversos outros.

"É preciso entender que pessoas trans também tem suas orientações sexuais, ou seja, uma mulher trans, ou uma travesti, pode ser heterossexual, bissexual, lésbica ou pansexual. Um homem trans, ou transmasculine, pode ser heterossexual, bissexual, gay ou pansexual", alerta a coordenadora.

Travestis e transexuais

Os dois termos estão dentro da terminologia transgênero, e por isso representam pessoas que não estão em conformidade com o gênero imposto no nascimento. Contudo, os debates iniciais sobre o assunto costumavam fazer uma diferenciação de ambos os indivíduos por questões genitálias e cirúrgicas.

Ou seja, a travesti era aquela pessoa que recebeu por imposição o gênero masculino e se reconhecia como mulher, mas sem alterar os órgãos genitais. Já uma pessoa transexual seria aquela que passava por cirurgias e/ou tratamento hormonal como parte do processo de transição de gênero. Este pensamento atualmente é visto como ultrapassado por representantes da comunidade.

"Essa é uma questão que não nos leva para a frente. Socialmente falando, não há como distinguir pois é uma identificação individual. Outro ponto que me incomoda, é que o termo mulher transexual muitas vezes é usado como uma forma de higienizar e talvez até apagar toda a história que a identidade travesti carrega. Precisamos parar de marginalizar essa identidade que foi e é extremamente importante para a história do movimento LGBTI+", explica e defende Yara.

Atualmente, portanto, o termo "transexual" tem entrado em desuso, por muitas vezes ligar o processo de transição de gênero somente a tratamentos hormonais ou alterações cirúrgicas. Para designar o grupo de pessoas que não se identifica com o gênero imposto ao nascimento, deve-se usar "transgênero" ou "pessoa trans".

O termo "travesti", por sua vez, constitui uma identidade de gênero própria, que está no espectro das feminilidades e é entendido como parte da cultura local. Há debates, entre quem estuda o tema, se seria aplicado somente ao Brasil ou, de maneira mais ampla, a outras identidades transfemininas em países da América Latina.

Importância do debate

Para além de entender o significado dos termos, é necessário compreender a importância de promover debates a respeito deles. Isso porque pessoas trans e travestis lutam há pelo menos quatro décadas por direitos simples, como o de serem reconhecidos pelos gêneros ao qual pertencem. O preconceito, no entanto, tem sido uma arma letal contra essa luta.

O Brasil, por exemplo, foi classificado como o país que mais matou e cometeu violências contra pessoas trans no mundo durante 2019, segundo dados levantados pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Já durante 2020, o número de assassinatos contra esses grupos teve aumento de 29% no País. Foram 175 assassinatos, média de um realizado a cada 48 horas.

"É necessário que todas as pessoas trans possam estar inseridas no mercado de trabalho e para isso acontecer nós precisamos conseguir minimamente finalizar nossos estudos, pois uma grande parte das pessoas trans não conseguem concluir nem o ensino fundamental ou médio devido a transfobia", defende Yara.

"Muitas de nós são expulsas de suas casas muito cedo por conta da transfobia dos seus familiares. Então, ainda temos muito o que lutar e precisamos não apenas sermos ouvidas, mas também precisamos ter as nossas necessidades atendidas, pois estamos falando de questões que são básicas, que é o direito à cidadania", destaca por último a representante.

ERRAMOS

Na versão inicial desta matéria, O POVO usou termos inadequados para explicar as expressões referentes à realidade de pessoas trans e travestis. Após receber críticas de pessoas pertencentes à comunidade trans, fizemos alterações no texto para corrigir os erros apontados.

O POVO se compromete com a defesa da diversidade e da inclusão, fazendo questão de levar a informação correta ao público. Não toleramos qualquer tipo de machismo, racismo, LGBTfobia, capacitismo ou outras opressões, e seguimos com a missão de ampliar os debates sobre estes assuntos.

Não se identificar com o gênero atribuído ao nascimento e não se enquadrar nas normas que ditam posições sociais de acordo com esses gêneros. Esses são alguns dos sentimentos vivenciados por pessoas trans, primeiro grupo a representar a identidade de gênero dentro da comunidade LGBTQIA+, que carrega características múltiplas,definidas pelos termos: transgêneros, transexuais e travestis.