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UFPE tem a primeira pedagoga travesti formada na instituição

Ana Flor Fernandes defendeu nesta quinta-feira seu trabalho de conclusão de curso em pedagogia

23:43 | 15/04/2021
Ana Flor escolheu ser educadora para lutar por mais espaço para o público LGBT, especialmente em escolas e universidades 
 (Foto: Acervo Pessoal/Reprodução)
Ana Flor escolheu ser educadora para lutar por mais espaço para o público LGBT, especialmente em escolas e universidades (Foto: Acervo Pessoal/Reprodução)

"Acabo de me tornar a primeira travesti pedagoga formada pelo Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)". Assim Ana Flor Fernandes, 25 anos, postou no Twitter logo depois de defender seu trabalho de conclusão no curso de pedagogia, na manhã desta quinta-feira (15). Ainda falta a colação de grau, mas isso é apenas formalidade. Para Ana, o diploma é resultado de muita dedicação e busca por espaço, sobretudo para pessoas LGBT.

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"É o final de um ciclo muito importante. Escolhi pedagogia porque entendo ser necessário ajudar a construir uma espaço para que outras mulheres trans e travestis consigam acesso ao ensino superior", diz Ana Flor, que planeja seguir carreira acadêmica com mestrado e doutorado.

Ana se identificou como travesti no ensino médio, quando estudava na Escola Estadual Senador Novaes Filho, que fica na Várzea, Zona Oeste do Recife e pertinho do câmpus da UFPE.

Ela lamenta que haja muito preconceito com as pessoas LGBT no País. "O Brasil é ainda, infelizmente, um país que é muito violento com mulheres trans e travestis. Não é diferente na universidade, que reproduz essas violência. Mas tive muito apoio e acolhimento na UFPE, tanto dos meus professores como dos colegas. Encontrei muito diálogo dentro da UFPE e fui muito querida no Centro de Educação", observa Ana Flor.

Além do apoio da comunidade universitária, ela diz que o suporte da família foi fundamental para sua formatura, em especial três mulheres: sua avó Valdelice, sua mãe Sydia e sua irmã Varna.

Ana Flor tirou nota 10 no TCC. Escolheu um tema que tem a ver com gênero, mas não LGBT: Entre fotografia e estética - o ritual da primeira comunhão e questões de gênero. "Há um estereótipo de que as pessoas LGBT só tratam das questões ligadas a elas e mostrei que não é isso".

"No meu trabalho de conclusão fiz uma análise de algumas fotografias do ritual da primeira comunhão e busquei compreender como os elementos e a estética desse ritual implicam na produção de alguns marcadores de gênero. Tive a orientação da professora Dra Rosângela Tenório de Carvalho", explica.

Hoje Ana mora em São Paulo porque desde o final do ano passado foi chamada para ser assessora parlamentar da deputada estadual Erica Malunguinho, a primeira mulher transexual da Assembleia Legislativa de São Paulo. Erica é também pernambucana.

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Agora como educadora formada, Ana diz que um dos seus sonhos é que haja mais espaços para o público LGBT. "Para que essas pessoas possam ser tratadas com dignidade. Que os espaços, especialmente o escolar e as universidades, sejam locais seguros, digno, acolhedores e construídos coletivamente para que as pessoas LGBT possam vivenciar a educação básica e superior de maneira digna como qualquer outra pessoa", ressalta Ana Flor.

Reconhecimento

"Recebemos com muita felicidade essa formatura de Ana Flor. Para nós da UFPE é muito significativo. A gente tem percebido que as pessoas trans têm conseguido concluir seus cursos, especialmente num cenário e num contexto de um país que mais mata pessoas trans no mundo. Um país extremamente LGBTfóbico, em que a evasão escolar dessa população é algo na casa dos 90% na educação básica", destaca a coordenadora do Núcleo de Políticas LGBT da UFPE, Geovana Borges.

"O Brasil precisa investir na educação e na garantia de políticas públicas para permitir acesso, inclusão e permanência, independente de qualquer recorte, seja de gênero ou outro", afirma Geovana.

Em julho do ano passado, a UFPE teve a primeira aluna trans laureda na instituição. Verônica Valente, 29 anos, formou-se em psicologia. “É muito importante para mim pela representatividade, para ser um espelho para outras pessoas trans e mostrar que, além de estarmos em uma universidade federal, também podemos ser destaque”, afirmou Verônica, para a Ascom da UFPE. Ela obteve média geral de 9,4 durante a graduação.

Margarida Azevedo, Jornal do Commercio

Via Rede Nordeste

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