PUBLICIDADE
Brasil
NOTÍCIA

Investidores de diversos estados denunciam empresa suspeita de fraude financeira que pode ter sumido com mais de R$ 50 milhões

O advogado de algumas das vítimas calcula que prejuízo pode até ser maior dependendo de quanto os investidores disponibilizavam para a empresa

Júlia Duarte
16:02 | 24/11/2020
Comissão de Valores Mobiliários (CVM) alerta que, caso seja investidor ou receba proposta de investimento por parte dessas empresas sem cadastro, entre em contato com a CVM por meio do Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC) (Foto: Marcello Casal JrAgência Brasil)
Comissão de Valores Mobiliários (CVM) alerta que, caso seja investidor ou receba proposta de investimento por parte dessas empresas sem cadastro, entre em contato com a CVM por meio do Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC) (Foto: Marcello Casal JrAgência Brasil)

Dinheiro fácil e, aparentemente, seguro, com investimentos em negociações com pares de moedas estrangeiras. Essa era a promessa da empresa Focus Prontabit, que oferecia retorno de 14% ao mês e que atraiu mais de 16 mil pessoa de diversos estados, entre eles, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Alagoas, a investir. Entretanto, de repente, a empresa decidiu encerrar as atividades e sumiu com o dinheiro dos investidores.

"Quero saber como você vai fazer para devolver o meu dinheiro e o dinheiro do meu marido. Investimos em sua empresa para dar um futuro melhor para nossa filha que acabou de nascer. Eu poderia ter pego esse dinheiro e ter posto na poupança pra ela. Mas nós depositamos em você não só a nossa grana, mas também a nossa confiança", disse uma internauta na página da empresa. "Focus quebrou e levou o nosso dinheiro...começou com uma conversa que a Fpag foi rakeada...e agora diz que quebrou fazendo operação em um dia? É chamar todos nós de trouxa mesmo", disse outro investigador.

As reclamações acontecem há alguns dias, mas tomou forma no sábado, 21, quando diversas vítimas entraram em contato com o especialista em direito digital e empresarial, o advogado Fernando Barbosa. Segundo ele, por volta de 1.200 pessoas já se manifestaram contra a empresa. A Focus Prontabit começou a atuar no País em 2019 e tem como presidente da empresa, com sede em Natal, no Rio Grande do Norte, Josadack de Sousa Ferreira. "Ele tinha uma forma de investimento onde você disponibilizava capital para ele e esse capital rendia, e ele dizia que ia trabalhar no mercado financeiro. Você escolhia o tempo do investimento e ele te retornava (o dinheiro) ali. Era essa troca, eles pegavam o capital, faziam o investimento, em troca eles tinham uns juros do rendimento e tiravam uma parte pra eles", explicou o advogado.

Além do serviço de investimentos, o homem se apresentava como de uma escola de mercado. Esse conhecimento de investimentos e de finanças é que levanta a suspeita do advogado. Segundo ele, em conversa com o presidente, o empresário teria dito que investiu mal e por isso perdeu o dinheiro. "Ele falou que simplesmente tinha perdido os valores em operações, ele fez o sistema de operação errada, investiu errado, e perdeu o dinheiro dos investidores, essas foram as desculpas dele", disse o Barbosa. Entretanto, a justificativa não caiu para os investidores. "Ele é professor de cursos voltados pra investimentos, todo mundo conhece a temática dos investimentos dele. Ele é um cara muito bom relacionado ao mercado financeiro, então os investidores acreditam que não que houve esse tipo de ação no mercado financeiro. Ele simplesmente pegou e sumiu com o dinheiro", afirmou o advogado.

Em sua análise, o ponto é que o empresário precisa apresentar documentos e outros relatórios que demonstrem essa perda. "Ele podia chegar e falar 'pessoal, então, eu peguei o dinheiro de vocês e fiz uma manobra errada, fiz um investimento mal sucedido  e perdi valores. Está aqui meu relatório', abrir pros investidores. Todo mundo concordaria, porque você estaria mostrando", acrescentou. "Fica difícil de acreditar", ressaltou.

O advogado calcula que o prejuízo pode ser milionário, podendo chegar a R$ 50 milhões, considerando que as mais de 16 mil pessoas, que teriam contas abertas na plataforma da empresa, investiram valores diversos chegando até a R$ 500 mil por pessoa. Em contato com o empresário, o advogado conta que ele teria se mostrado disposto a fazer o pagamento, mas ainda não houve o repasse do plano de pagamento. Mesmo com o ressarcimento, o processo, entretanto, não deve ser encerrado e o homem pode ser enquadrado por fraude financeira, porque não possui registros para realizar esse tipo de negociação.

Em alerta recente, a Superintendência de Relações com o Mercado e Intermediários (SMI) da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) alertou o mercado de valores mobiliários e o público em geral sobre a atuação irregular de Focus Prontabit. Em nota, a área técnica detectou indícios de que a empresa e o responsável efetuam a captação irregular de clientes para a realização de operações com derivativos no denominado mercado Forex (Foreign Exchange) por diversos meios, incluindo a utilização da página online.

A CVM determinou a imediata suspensão da realização de qualquer oferta pública de serviços de intermediação de valores mobiliários pelos envolvidos, de forma direta ou indireta, inclusive por meio da utilização de páginas na internet, aplicativos ou redes sociais. Se não adotarem a determinação da Autarquia, os envolvidos estarão sujeitos à multa diária no valor de R$ 1.000,00.

Além de fraude, o responsável pode responder por apropriação indébita e estelionato, porque prometia valores "exorbitantes", que não tinha como cumprir, como aponta Fernando Barbosa. Segundo ele, as vítimas prestaram Boletim de Ocorrência na Delegacia Virtual do Rio Grande do Norte. O POVO entrou em contato com a Polícia Civil do Estado e aguarda retorno sobre o andamento do caso.

O POVO tentou entrar em contato também com a empresa, mas ainda não obteve retorno até o fechamento da matéria.

Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que regulariza essas transações alerta que, caso seja investidor ou receba proposta de investimento por parte dessas empresas sem cadastro, entre em contato com a CVM por meio do Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC). Informe o máximo de detalhes possível sobre a oferta e a identificação das pessoas envolvidas. Com isso, a Autarquia poderá atuar no caso.

LEIA MAIS | Ségio Mallandro é uma das vítimas de esquema de pirâmide financeira: "Caí na pegadinha do Malandro"