Modelo relata caso de racismo durante trabalho em São Paulo
"Esse cabelo ou essa pessoa é um filhote de patrão, por que o patrão comeu uma escrava e gerou isso", disse o cabeleireiro Wilson Eliodório
A modelo Mariana Vassequi divulgou em suas redes sociais o caso de racismo que sofreu durante um trabalho que realizou para uma marca de cosméticos de cabelos, na última sexta-feira, em São Paulo. De acordo com ela, comentários ofensivos e racistas foram disparados por um cabeleireiro profissional, Wilson Eliodório, que havia sido contratado para ministrar uma palestra sobre “como tratar cabelos étnicos”.
“Esse cabelo ou essa pessoa é um filhote de patrão, por que o patrão comeu uma escrava e gerou isso”. “Esse cabelo é um cabelo que vem do morro, e agora essas mulheres têm dinheiro, e agora elas querem ir em salão chique. Por isso nós temos que saber mexer com elas”, disse o cabeleireiro Wilson Eliodório. Vassequi e sua colega que também estava trabalhando, Ruth Morgan, ficaram com medo de represálias e de serem demitidas, por isso não conseguiram falar nada na hora, conforme elas mesmas relataram nas redes sociais.
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“Foi triste mesmo! A gente ouviu tudo, percebeu tudo, mas, naquele momento, por medo de sermos demitidas, por medo de acabar a diária e a gente não receber (pois com a pandemia os jobs trabalhos de modelos caíram muito e cada uma já tinha saído de longe pra estar lá eu saí até de outro estado!) e também pela pressão da profissão por naquele momento se tratar de um ambiente de trabalho onde a modelo já é vista como apenas a boneca sem voz, a boneca que tá lá apenas pra provar roupa, desfilar ou ser fotografada. Então diante desse medo e dessa estrutura sim machista e opressora! Que silencia mulheres, que silencia a modelo! Que silencia a minha cor! E foi tudo tão rápido, que eu me calei”, disse Vassequi, em sua conta do Instagram.
Entretanto, a modelo só se deu conta da situação quando chegou em casa. “Por que nos calamos? E por que ninguém na hora falou nada?”, questionou. “Simplesmente dizer isso é legitimar a cultura do estupro! Quando você diz com essa frase horrível que “patrão comeu” você tá falando de um estupro, ou você acha que mulheres escravas tinham liberdade sobre seu próprio corpo? Você tá banalizando assédio e sendo machista! E parem de diminuir toda uma ANCESTRALIDADE, diminuir toda uma história reduzindo sempre o negro (a), sempre o cabelo cacheado/afro/crespo à escravidão. Meu amor a gente existe muito antes desse pequeno detalhe ter acontecido na história da humanidade! Se você olha pra mim e acha que eu sou só isso você está muito enganado e atrasado”, disse na postagem.
A atriz Taís Araújo também se manifestou em suas redes sociais. “O racismo cometido pelo meu amigo e cabeleireiro Wilson Eliodório me tirou o chão e a voz. Bateu doido. E por isso demorei a falar. E mesmo o amando não posso passar a mão em sua cabeça. Ele deve se responsabilizar por seus atos e se repensar enquanto homem negro, gay e profissional de beleza. Demorei também porque, antes de tudo, sou uma mulher negra e isto me atravessa. Atravessa a todas nós. Demorei porque é terrível ver que a estrutura racista desse país se perpetua até com os nossos, os que amamos. Acima de qualquer coisa estou aqui para acolher Mariana Messaqui e Ruth Morgan, mulheres negras como eu que não aguentam mais desrespeito e racismo. Mariana Vassequi e Ruth Morgam, a vcs duas todo meu amor, respeito e gratidão por terem tido a coragem de falar. Saibam que este e um grande e importante passo na luta contra o racismo”, disse em sua conta do Instagram.
Diante da repercussão do caso, o cabeleireiro Wilson Eliodório postou um vídeo em sua conta do Instagram sobre o caso. “Sobre Aprendizado. Para além das óbvias desculpas meu compromisso de mudança de atitude e revisão de valores. o momento é de escuta e transformação”, disse na legenda.
Veja o vídeo na íntegra: