PUBLICIDADE
Brasil
NOTÍCIA

Dia Nacional do Voluntariado: histórias de pessoas que fazem a diferença na vida do outro

Segundo a Pnad Contínua, 6,9 milhões de pessoas realizaram trabalho voluntário no Brasil em 2019

14:03 | 28/08/2020
Para demonstrarem o carinho que sentem pelos voluntários, os pacientes têm escrito recados e feito desenhos que são enviados a eles (Foto: Reprodução/Associação Peter Pan)
Para demonstrarem o carinho que sentem pelos voluntários, os pacientes têm escrito recados e feito desenhos que são enviados a eles (Foto: Reprodução/Associação Peter Pan)

O Dia Nacional do Voluntariado é comemorado nesta sexta-feira, 28. Instituída em 1985 por meio da Lei nº 7.352 e sancionada pelo então presidente José Sarney, a data foi criada com o objetivo de reconhecer o trabalho desempenhado por pessoas que agem voluntariamente em prol do bem-estar social. Neste dia, organizações que têm suas atividades exercidas por meio de trabalho voluntário lembram a importância do voluntariado na sociedade.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), voluntário é aquele que, “devido ao seu interesse pessoal e ao seu espírito cívico”, dedica parte do seu tempo a atividades de bem-estar social e sem receber remuneração por isso. Ainda de acordo com a ONU, o voluntariado tem contribuições “tanto na esfera econômica como na social” e auxilia na formação de uma sociedade “mais coesa”.

No Brasil, os trabalhos voluntários são regulamentados pela Lei 9.608, de 1998. Conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), 6,9 milhões de pessoas de 14 anos ou mais realizaram trabalho voluntário no País em 2019. A taxa de realização foi de 4,0%, indicando redução de 0,3 pontos percentuais em relação à taxa estimada para 2018. O Nordeste foi a Região com o menor índice (2,9%). Ainda segundo a Pnad Contínua, 90,7% das pessoas que fizeram trabalho voluntário o realizaram por meio de empresa, organização ou instituição.

O trabalho voluntário é capaz de proporcionar diversos aprendizados e ocorrer em diferentes setores que atingem a sociedade, como na área ambiental. Para Cláudia Bezerra, presidente da ONG Grupo de Interesse Ambiental (GIA), o voluntariado ajuda a disseminar a ideia da cooperação e estimula o “sentimento da coletividade”. Segundo a presidente, esses conceitos foram reforçados devido à pandemia do novo coronavírus. “Houve o entendimento de que é necessário ter ajuda mútua”, complementa.

Cláudia Bezerra afirma que a maior dificuldade enfrentada atualmente pela organização é de ordem financeira. O GIA é sustentado em grande parte pela LoGia, marca com Responsabilidade Socioambiental pertencente a ONG. A LoGia busca promover a educação ambiental e a geração de renda para pessoas de baixa renda por meio da reutilização de resíduos sólidos. Esses resíduos são transformados em produtos para inserção no mercado verde do Ceará. Entretanto, com a pandemia do novo coronavírus, as encomendas desses produtos diminuíram bastante, o que ocasionou a redução do dinheiro arrecadado. Assim, o trabalho voluntário na ONG ganhou ainda mais importância.

Segundo Bezerra, atualmente existem 28 voluntários na organização. O GIA lança edital para a escolha de novos anualmente. Nas etapas do processo seletivo, estão seleção de currículo, entrevistas e treinamentos para, enfim, o resultado final ser divulgado. Em celebração ao Dia Nacional do Voluntariado, o GIA realizará live com o tema “Voluntariado: Da Vivência Ao Profissionalismo”. A transmissão será na segunda-feira, 31, às 19h30min no canal do GIA no YouTube.

A presidente reforça que para ser competente no trabalho voluntário é preciso “comprometimento e responsabilidade”.

Essa ideia também é defendida por Sandra Salgado, gerente de atividades sociais da Associação Peter Pan. A entidade, que em 2020 completa 24 anos, é destaque quanto à assistência dada a crianças e adolescentes com câncer no Ceará e tem grande parte de seus programas sociais executada por voluntários.

Para a gerente, é fundamental que o voluntário tenha compromisso com as responsabilidades relacionadas ao voluntariado. No caso da APP, essa situação se intensifica, pois os pacientes desenvolvem laços emocionais com os voluntários. “As crianças sentem falta quando eles deixam de comparecer”, afirma.

Devido à pandemia, entretanto, as pessoas que se candidataram ao trabalho voluntário na Associação Peter Pan não estão participando das atividades atualmente. Por medidas de segurança e de proteção para a saúde das crianças que são atendidas no Centro Pediátrico do Câncer, as visitas de voluntários foram suspensas.

De acordo com Sandra Salgado, existem mais de 350 pessoas cadastradas atuando como voluntárias nos programas sociais da APP como o Apadrinhamento, ABC + Saúde e Amigo Peter Pan. A gerente comenta que a presença delas deixa as crianças “mais alegres” e o dia “mais leve”. Para demonstrarem o carinho que sentem pelos voluntários, os pacientes têm escrito recados e feito desenhos que são enviados a eles durante o isolamento social.

A Associação Peter Pan planejou dois eventos em celebração ao Dia Nacional do Voluntariado. No primeiro, realizado pela manhã, os voluntários se locomoveram na rua da APP em seus carros para receberem “mimos”. Na ocasião, foi respeitado o distanciamento físico como forma de reduzir a possibilidade de transmissão do novo coronavírus. No segundo evento, pela tarde, uma live com Edmilson Filho a respeito da “riqueza” de ser voluntário.

É possível ajudar a Associação Peter Pan por meio de seu website, na aba de “doações”.

O voluntariado em meio a uma pandemia

Com a pandemia do novo coronavírus, iniciativas surgiram com o intuito de exercer o trabalho voluntário e assim estimular a prática de solidariedade em meio esse cenário. Esse foi o caso do “Auê do Amor”, projeto criado em março com o objetivo inicial de distribuir refeições a pessoas e comunidades periféricas que se encontravam em situação de vulnerabilidade social durante a pandemia.

De acordo com Mariana Marques, coordenadora-geral do “Auê do Amor”, foram produzidas 150 refeições prontas na primeira ação do projeto. Para isso, foi utilizada a cozinha de um restaurante na Praia de Iracema. O movimento chegou a contar com o funcionamento de cinco cozinhas comunitárias, uma delas compartilhada pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac). Mariana relata que já foi possível produzir 60 mil quentinhas por mês e com custo aproximado de R$ 200 mil mensais. Além das refeições, o “Auê do Amor” passou a distribuir cestas básicas, kits de limpeza e de higiene, livros e peças de roupa.

A coordenadora-geral afirma que o grande crescimento do projeto ocorreu devido ao voluntariado. No início, o movimento possuía apenas sete voluntários, mas agora tem suas ações executadas por 97 pessoas em diferentes áreas, como a de logística e a de relações institucionais. Ela caracteriza a prática do voluntariado como “vital” para a continuidade do “Auê do Amor” e define a atividade como “o serviço mais bonito que o ser humano pode se propor a fazer”. Atualmente, o projeto consegue alcançar 47 comunidades periféricas da Região Metropolitana de Fortaleza.

Entretanto, o número de refeições por mês diminuiu bastante devido ao alto custo de manutenção do projeto e à redução de doações recebidas. Para não encerrar as atividades executadas pelo “Auê do Amor”, Mariana afirma que atualmente apenas duas cozinhas estão funcionando. Com isso, são produzidas cerca de 32 mil refeições por mês ao custo de R$ 40 mil mensais. Para ajudar o movimento, é possível doar alimentos perecíveis e não perecíveis e objetos usados como roupas e calçados. Também é possível verificar, no Instagram do “Auê do Amor”, outros itens que podem ser doados. Os voluntários do projeto irão distribuir as doações recebidas. Além disso, é possível doar dinheiro para contas bancárias divulgadas no perfil.

Clique na imagem para abrir a galeria

Ser voluntário

Se a pandemia foi um mobilizador para a criação de movimentos de solidariedade, ela também contribuiu para o engajamento de pessoas que passaram a olhar o voluntariado com mais atenção. Esse foi o caso do estudante de gastronomia Arthur Lira, 20. Quando o primeiro decreto de isolamento social no Ceará foi publicado e, assim, foi iniciada a quarentena, Arthur e sua família não saíam de casa. Como as ocupações presentes em sua rotina foram paralisadas, ele sentiu a necessidade de continuar “fazendo algo” e viu a oportunidade de ajudar pessoas que estavam enfrentando ainda mais dificuldades devido à pandemia.

Por meio de um post enviado pela sua amiga, Arthur descobriu o “Auê do Amor” e decidiu se candidatar a uma vaga de voluntário no movimento. Ele participa do projeto há cinco meses e afirma que tem sido “um aprendizado incrível”. Durante três dias na semana, o estudante de gastronomia se dedica à iniciativa e atua em uma das cozinhas utilizadas pelo projeto. Ele caracteriza o voluntariado como “extremamente necessário e importante” para a sociedade e afirma que sente um grande prazer em ser voluntário.

Esse sentimento também é compartilhado pelo aposentado Ivan Firmino, 58. Voluntário há três anos no Lar Torres de Melo, ele relata que tem uma “paz tremenda” ao atuar na instituição. Além disso, afirma que sente “muito amor” pelo seu trabalho e que considera as pessoas que fazem parte do Lar como “uma família”. Bastante dedicado ao voluntariado, Ivan menciona que até fez curso de cuidador de idosos para atender com mais qualidade às pessoas idosas do lar.

Firmino afirma que tornou-se uma pessoa mais sensível, atenciosa e compreensível a partir do trabalho voluntário. Atualmente, os voluntários não estão podendo visitar o Lar Torres de Melo devido aos idosos assistidos pela instituição pertencerem ao grupo de risco em relação à Covid-19. Ele sente bastante falta da rotina de visitas e relata que o que mais deseja atualmente é poder retornar ao Lar.

Para Ivan, o voluntariado é uma atividade muito gratificante e tem grande relevância. “Se alguém tem a vontade de ser voluntário, que procure praticá-la. Isso vai nos tornar bem melhores e o mundo precisa disso”, conclui.