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Dia dos Avós: das origens ao isolamento social

O Dia dos Avós é comemorado no dia 26 de julho. Data tem origem religiosa, mas foi oficializada em Portugal e no Brasil após 16 anos de luta de avó portuguesa, dona Aninhas

Catalina Leite
23:40 | 24/07/2020
Dona Aninhas veio até o Brasil defender a oficialização do dia 26 de junho como Dia dos Avós. Ela encontrou-se com o então presidente da República, Itamar Franco. (Divulgação/ Revista Mood) (Foto: Divulgação/ Revista Mood)
Dona Aninhas veio até o Brasil defender a oficialização do dia 26 de junho como Dia dos Avós. Ela encontrou-se com o então presidente da República, Itamar Franco. (Divulgação/ Revista Mood) (Foto: Divulgação/ Revista Mood)

O Dia dos Avós está bem aí e a pandemia não dá trégua, dificultando que alguns avôs e avós, geralmente do grupo de risco, compartilhem momentos de lazer com os netinhos. É o sufoco que a dona Francinete Fernandes, 70, enfrentou por pelo menos quatro meses. Ela conta que aos poucos a situação foi se instalando e ela não imaginava que ficaria distante dos netos de 1, 4, 6 e 11 anos por tanto tempo.

“Quando a coisa acontece de momento a gente sente o impacto, mas não sabe que vai ser tão triste, porque acha que vai passar logo”, relembra. Para ela, que é professora e apegada como ninguém aos pequenos, a ausência física pesou. No entanto, os filhos de dona Francinete fizeram questão de realizar videochamadas todos os dias para promover o encontro entre a família.

É possível que muitas vovós e vovôs tenham que comemorar o Dia dos Avós, no dia 26 de julho, pelo celular. Por mais difícil que seja, a data continua simbolizando a importância dos avós como transmissores de cultura, história e sabedoria. E foi justamente uma avó portuguesa que ajudou a oficializar a data.

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Origem

Ana Elisa de Couto, ou dona Aninhas, como era conhecida, é a mulher por trás do Dia dos Avós luso-brasileiro. Desde 1986, a avó de quatro netos e natural de Penafiel, em Portugal, viajou pela Europa e Américas defendendo a importância de uma data alusiva aos pais dos pais. Para ela, era incompreensível a existência de uma data para homenagear pais e mães, mas não para homenagear os avós.

No processo, dona Aninhas chegou a se encontrar com o então presidente de Portugal, Jorge Sampaio (1996-2006) e também o do Brasil, Itamar Franco (1992-1994). Na realidade, ela foi mais longe ainda: chegou à Roma para pedir o apoio do papa João Paulo II.

Dona Aninhas veio até o Brasil defender a oficialização do dia 26 de junho como Dia dos Avós. Ela encontrou-se com o então presidente da República, Itamar Franco. (Divulgação/ Revista Mood)
Dona Aninhas veio até o Brasil defender a oficialização do dia 26 de junho como Dia dos Avós. Ela encontrou-se com o então presidente da República, Itamar Franco. (Divulgação/ Revista Mood) (Foto: Divulgação/ Revista Mood)

Os 16 anos de dedicação foram recompensados em junho de 2003, quando a Assembleia da República de Portugal instituiu o Dia Nacional dos Avós. A data é especialmente tradicional para o município de Penafiel, que anualmente relembra dona Aninhas, além de promover uma festa para todos os avós da região.

Em 2019, a Câmara Municipal de Penafiel fez um bolo de 106 metros, representando os 106 anos do até então avô mais velho do município. Até o fechamento desta matéria, a Câmara ainda não divulgou a programação para 2020, mesmo durante a pandemia de Covid-19.

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A escolha da data

Por 16 anos, Dona Aninhas lutou pelo dia 26 de julho ser reconhecido oficialmente como Dia dos Avós, conseguindo apoio até do papa. A relação da data e da participação de Vossa Santidade não é por acaso. A Igreja Católica utiliza o 26 de julho para homenagear Santa Ana e São Joaquim, avós de Jesus Cristo.

Ao O POVO, o padre Rafhael Maciel explica que a Bíblia propriamente dita não fala o nome de Ana e Joaquim como sendo os dos pais de Maria. “Isso é uma tradição que passou desde a época de Jesus, até nós, desde os apóstolos, que sempre deram aos pais de Maria os nomes de Joaquim e Ana. Existem alguns escritos extra-bíblicos que tocam no nome dos pais de Nossa Senhora”, afirma.

O padre cearense Rafhael está em missão de estudos em Roma. Lá, ele ajuda nas cerimônias que o papa celebra na Basílica de S. Pedro. (Arquivo Pessoal)
O padre cearense Rafhael está em missão de estudos em Roma. Lá, ele ajuda nas cerimônias que o papa celebra na Basílica de S. Pedro. (Arquivo Pessoal) (Foto: Arquivo Pessoal)

Ainda, segundo o padre cearense atualmente estudando em Roma, há uma igreja em Jerusalém dedicada à Santa Ana. “Seria o lugar onde Maria teria nascido lá em Jerusalém, portanto a tradição é muito antiga. Há um peso de autoridade e reconhecimento sobre o fato de serem os nomes autênticos dos pais de Virgem Maria”, afirma.

Avós como transmissores de cultura

Para a Igreja Católica, os avós são essenciais para a construção da família. Padre Rafhael explica que são eles os transmissores de fé e sabedoria para os netos, reforçando as palavras dos papas Francisco, Bento XVI e João Paulo II. “Os avós de Jesus também estiveram com Ele, e provavelmente também dos avós Jesus recebeu aquilo que era tradição e cultura do seu povo. Eles são agentes de transmissão da fé”, comenta.

Dona Francinete pensa o mesmo, mas acredita que os mais favorecidos são os avós. “(Os netos) têm um leque de atividades, de palavras e de situações que você nessa idade, você sabe que existe, mas você conviver e praticar é diferente. Eu até digo que quando você se aposenta, você passa a perder a forma de se expressar”, diz.

Em uma praça de Penafiel, a comunidade instalou uma placa homenageando dona Aninhas. (Divulgação/Revista Mood)
Em uma praça de Penafiel, a comunidade instalou uma placa homenageando dona Aninhas. (Divulgação/Revista Mood) (Foto: Divulgação/Revista Mood)

Ela ainda brinca que tem uma “escala variada” de experiências, já que os netos vão de 1 a 11 anos. “Poder conviver com eles, passar um aprendizado pra eles, mas também aprender. Queiramos ou não, você se alimenta da sabedoria”, compartilha. A saudade dos netos deu um tempo na semana retrasada quando, seguindo todas as medidas sanitárias e de proteção, dona Francinete se reencontrou com os pequenos.

Foi uma felicidade muito grande quando eu soube que eu poderia encontrá-los. Peguei tudo que tinha deles de brinquedo e botei na porta. Aí, quando eles chegaram de máscaras - os dois de máscara, uma coisa linda - e viram os brinquedos tudo na porta, aí fizemos aquela festa. Eu acho que aí, a minha vida, eu rejuvenesci um bocado de tempo”, relata. Ela ainda não sabe se passará o domingo com os netos, mas fica a certeza: com fé e paciência, tudo se ajeita.

Com informações da Revista portuguesa Mood.