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assédio sexual

53% das brasileiras entre 14 e 21 anos convivem com o medo diário de assédio, relata pesquisa da ActionAid

Nos últimos seis meses, 78% das jovens brasileiras foram vítimas de algum tipo de assédio

23:03 | 01/02/2019

Mais da metade das adolescentes e jovens brasileiras, 53%, revelam que precisam lidar com o medo frequente do assédio cotidianamente, segundo a pesquisa feita pela organização internacional de combate à pobreza ActionAid, divulgado nesta quarta-feira, 30. A partir dessa informação, o Brasil lidera o ranking em comparação com outros três países pesquisados – Quênia (34%), Índia (16%) e Reino Unido (14%).

O medo de serem vítimas de assédio aumenta de acordo com a faixa etária. Entre as adolescentes de 14 e 16 anos, o índice é de 41%; na faixa etária entre 17 e 19 anos, chega a 56%; e entre as brasileiras de 20 e 21 anos, a porcentagem é de 61%.

“A ideia de que mais da metade das jovens brasileiras sai de casa todos os dias temendo sofrer algum tipo de violência é alarmante. Indica o nível de normalização de atitudes que agridem e provocam danos sobre suas vidas. Sentir medo não é normal”, diz Ana Paula Ferreira, coordenadora de Direito das Mulheres da ActionAid no Brasil.

“O que algumas pessoas podem achar engraçado, ou mesmo um elogio, faz com que muitas meninas alterem suas rotinas, se desmotivem nas escolas, criem estratégias para transitar pelas ruas, ou mesmo gastem mais dinheiro para evitar se expor nos espaços públicos. São jovens e adolescentes iniciando a vida adulta, e isso impacta seu desenvolvimento pessoal, econômico e social", afirma a coordenadora.

A pesquisa feita em dezembro de 2018 mostra que 78% das garotas brasileiras sofreram algum tipo de assédio nos últimos seis meses. Os tipos foram os mais variados possíveis.

Lidera o ranking o assédio verbal (41%), seguido por assovios (39%), comentários negativos sobre sua aparência em público (22%), comentários negativos sobre sua aparência nas redes sociais (15%), pedidos de envio de mensagens de texto com teor sexual (15%), piadas com teor sexual que as envolviam feitas em público (12%), piadas com teor sexual que as envolviam feitas nas redes sociais (8%), beijos forçados (8%), apalpadas (5%), fotos tiradas por baixo da saia (4%) e fotos intimas vazadas nas redes sociais (2%).

76% das garotas brasileiras disseram se sentir confortáveis com a ideia de contar a alguém o que havia acontecido e 77% das adolescentes entre 14 e 16 anos afirmaram que o tinham feito.

Detalhes da pesquisa

Entre os quatro países pesquisados, três quartos dos entrevistados (garotas e garotos) informaram ter sido expostos a atitudes negativas ou ofensivas em relação a jovens nos últimos seis meses e 65% das garotas pesquisadas comunicaram que enfrentaram alguma forma de assédio sexual neste período.

O estudo também revelou que 88% dos brasileiros afirmaram ter testemunhado algum tipo de atitude depreciativa contra garotas nos últimos seis meses, sendo os principais praticantes vindos de pessoas próximas do convívio diário como a família (39%) e amigos (34%).

Quando questionados em quais espaços viram, ouviram ou leram conteúdos ofensivos ou negativos sobre as mulheres, os participantes brasileiros responderam que foram nas redes sociais (55%), filmes ou programas de TV (43%), letras de música (34%) e celebridades e personalidades (23%).

Entre as razões mais prováveis para a atitude do agressor, 85% apontaram a vontade de impressionar os amigos, achando que seria engraçado ou acreditar que isso é “o que os homens fazem”. No Brasil, uma proporção maior de jovens (44%), respondeu que o assédio testemunhado foi motivado pela crença de que a vítima consideraria um elogio ou ficaria feliz por alguém considerá-la atraente.

Os brasileiros também lideram a lista de jovens que acreditam que as garotas são mais suscetíveis a assédio do que os garotos, com 83% das respostas. Na desagregação por sexo dos participantes, 85% das mulheres concordaram com essa ideia, comparadas a 80% dos homens.

“É importante que esta pesquisa tenha ouvido também meninos, pois a discussão sobre a violência contra a mulher envolve a todos. Homens que assediam o fazem por diversas razões, incluindo o fato de que foram ensinados, em alguma medida, que isso é normal”, destaca Ana Paula.

Conscientização dos jovens

A pesquisa detalha que existe uma conscientização sobre o assunto entre os jovens desta geração. Os participantes brasileiros consideram comentários negativos sobre a aparência de meninas inaceitáveis (88%) e se mostraram totalmente intolerantes a piadas sexuais envolvendo garotas (85%), sendo o melhor resultado do Brasil.

O País também liderou no nível de intolerância a vazamentos de fotos íntimas de garotas na internet (85%). Para 89% dos brasileiros entrevistados, beijos forçados são inaceitáveis, enquanto 86% consideram apalpadas inadmissíveis. 90% condenam a prática de tirar fotos por baixo de saias de meninas, também o melhor resultado na comparação entre os países, junto com o Reino Unido.

Para todos os tipos de violência, as garotas brasileiras apresentaram maior nível de conscientização do que os garotos.

Em relação aos quatro países pesquisados, os jovens acreditam que a educação é a melhor forma de combater o assédio contra garotas e mulheres. No Brasil, 59% disseram que ensinar os garotos nas escolas sobre como tratar as meninas é o caminho; 54% apontaram o ensino, também nas salas de aula, sobre como denunciar assédios como medida importante e 41% sugerem a necessidade de conscientizar professores a levarem as denúncias a sério, mesma porcentagem dos que afirmaram também ser importante educar os pais.

“A proteção de garotas e mulheres é responsabilidade de toda a sociedade, e todas as instituições devem se mobilizar para isso, desde a família, passando pelos espaços religiosos, culturais, educacionais e laborais. Só assim todos nós poderemos conhecer, um dia, a liberdade de não sentir medo”, conclui Ana Paula.

Foram entrevistadas 2.560 pessoas de ambos os sexos com idades entre 14 e 21 dos quatro países pesquisados. No Brasil, a consulta ouviu 500 participantes – 250 garotas e 250 garotos, de todos os níveis de escolaridade e todas as regiões.

Redação O POVO Online