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Brasil
MIGRAÇÃO FORÇADA

Saiba os locais que mais exploraram trabalho escravo de cearenses

As cidades de Salto e Embu-Guaçu, em São Paulo, concentram a maior quantidade de cearenses flagrados em regime de trabalho análogo à escravidão

18:18 | 03/12/2018
Foto: Sérgio Carvalho/MPT

Pioneiro na proibição do tráfico negreiro no Brasil, o Ceará enfrenta hoje outras maneiras pelas quais trabalhadores são levados do Estado para serem explorados em situação análoga à escravidão. Deixando a terra natal principalmente para o Interior de São Paulo, pelo menos 75 nascidos na “terra da luz” foram resgatados em quatro anos, em operações anti-escravidão do Ministério Público do Trabalho (MPT).

As cidades de Salto e Embu-Guaçu, em São Paulo, concentram a maior quantidade de cearenses flagrados em regime de trabalho análogo à escravidão. Foram dez casos registrado em cada um dos municípios envolvendo migrantes do Estado desde 2015.

As informações são do Observatório Digital do Trabalho Escravo no Brasil, mantido pelo Ministério Público do Trabalho a partir de operações do órgão. Segundo a ferramenta, nos últimos quatro anos, 75 cearenses foram resgatados em cidades que não aquelas de origem. No Ceará, os municípios de Granja, a 329 km da Capital, e Caucaia, a 18 km, também receberam os maiores fluxos migratórios de escravos do próprio Estado.

 

Salto está distante 112 km da capital paulista. A operação que salvou 28 pessoas do trabalho em regime análogo à escravidão ocorreu em abril deste ano e foi coordenada pelo MPT, em parceria com a Política Federal (PF). Entre as vítimas, dez eram cearenses dos municípios de Canindé, Boa Viagem, Santa Quitéria, Madalena, Maracanaú e Caridade. Os homens vendiam queijo e iogurtes nas ruas da cidade.

Nos alojamentos onde viviam, não recebiam roupa de cama ou de banho, dormiam em locais úmidos, insalubres e empestados de insetos. Trabalhavam em regime acima do permitido e com salário inferior ao previsto para a categoria, conforme informou o MPT à época.

Já em Embu-Guaçu, a 47 km de São Paulo, a operação foi realizada em 2016, quando 34 pessoas foram encontradas em situação irregular, sendo uma dezena de cearenses. Os homens foram levados à cidade paulista de Canindé, Trairi, Quixadá e Nova Russas, no Ceará.

 

Homem, jovem, pobre e nordestino

Para a procuradora Catarina von Zuben, coordenadora nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (Conaete) do MPT, o fluxo migratório de nordestinos para trabalhos precários é uma “constante que não dá sinais de que irá parar tão cedo”. “O perfil do trabalhador resgatado é quase sempre esse: homem, jovem, baixa escolaridade, de estados do Nordeste”, diz.

Ela destaca que, na maioria dos casos, trabalhadores recebem propostas inicialmente vantajosas para trabalhar em outras regiões, mas acabam endividados com os próprios patrões e tendo que “pagar para trabalhar”. “O trabalhador é iludido, porque não coloca na ponta do lápis que o patrão vai descontar moradia, alimento, transporte da promessa inicial”.

“O dinheiro acaba sendo bem menor, então ele tem vergonha de voltar para casa sem trazer o que prometeu”, diz Catarina. A procuradora do Trabalho destaca ainda que, de maneira geral, é comum que famílias inteiras de municípios nordestinos migrem juntas e acabem em situação de trabalho escravo. “Um primo chama, outro, que chama outro, e por aí vai”.

“Faltam políticas públicas para fixar o trabalhador em seu estado de origem. O que percebemos é que a maioria dessas pessoas não quer morar em São Paulo ou em outro estado. Elas não buscam o local em si, buscam as condições que ali existem”.

Resgastes no Ceará

 

Além de informações sobre fluxos migratórios, o sistema do MPT também traz dados de operações contra o trabalho escravo no Ceará desde 2003. No balanço geral do período, foram deflagradas 63 operações no Estado, que resgataram 566 pessoas em situação de trabalho análoga à escravidão, entre cearenses e pessoas vindas de outros Estados.

Entre as profissões executadas por resgatados nascidos no Ceará, a maioria trabalhava com agricultura (56,7%) ou no corte de bovinos (25,9%). Outro destino comum desses trabalhadores era na exploração de Carnaúba. A maioria, de 86,4%, se declarou pardo, mulato ou negro, com quase 80% sendo ou analfabetos ou com ensino fundamental incompleto.

CARLOS MAZZA | IGOR CAVALCANTE