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As lições que a greve dos caminhoneiros traz para o Brasil

A greve que parou o Brasil por onze dias foi demonstração de descrença na política, força popular e "prenúncio" das eleições de outubro

17:06 | 04/06/2018
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A insatisfação com o governo e o formato de política brasileiro foi destacada nas últimas semanas. A greve dos caminhoneiros durante onze dias revelou a fragilidade do governo e, por outro lado, a força da mobilização trabalhista. A classe contou com apoio de parte dos brasileiros e jogou uma das últimas pás de areia sobre o já fraco e impopular governo de Michel Temer (MDB). As paralisações deixaram ensinamentos ao poder, ao povo e ao País.
 
[FOTO2]Cientista político e professor da Universidade Federal do Ceará, Valmir Lopes frisa que a greve foi ímpar e prenunciou o cenário eleitoral deste ano. “O governo Temer acabou e vai ter um enorme trabalho para chegar ao menos até o período das eleições. Durante as paralisações, vimos uma profunda revolta contra a classe política e o desencanto nela como saída aos impasses nacionais”, comenta.
 

[SAIBAMAIS]
Para o especialista, essa descrença pode recair sobre a performance dos próprios candidatos em 2018. “A rejeição à política foi expressa. Há quadro de insatisfação geral principalmente quanto ao que afeta diretamente o povo. A economia não permanece estagnada como no fim do governo Dilma, mas há alta do desemprego e redução do poder de compra. A greve galvanizou, portanto, as insatisfações”, exemplifica. 

Comparativo
A mobilização e adesão às paralisações tiveram grande efeito pelo caráter nacional da principal pauta (preço dos combustíveis) e pelos serviços de transporte impactarem grande parte da população. Assim, segundo Valmir, a greve dos caminhoneiros alcançam peculiaridade e força se comparada a outras greves. 

Em relação às Jornadas de junho de 2013, a semelhança entre os movimentos foi a difusão rápida, com apoio de redes sociais e novas tecnologias, além de não manter lideranças formais claras. “Num aspecto a greve recente foi mais incisiva: o viés autoritário demonstrado de ambos os lados. Do governo, a tentativa de reprimir o movimento. Do outro, pedidos de intervenção militar e demonstração de desesperança com o curso da democracia, aplaudindo a figura da autoridade. É o apelo pela ordem”, explica o professor. 

Já no comparativo às greves gerais da década de 1980, a conotação política é semelhança. Contudo, a unidade e interação dentro dos movimentos sociais só seriam fortalecidas com a velocidade das redes de comunicação. Em 2018, por exemplo, o WhatsApp foi protagonista. 

Similar a 2018 só mesmo a greve dos caminhoneiros e comerciantes, em 1973, no Chile, a qual culminou no golpe de Salvador Allende. A história remete para os riscos de colapso no País, que pode ultrapassar o problema do desabastecimento e culminar com o agravamento de uma crise política. 

Na época de Allende, havia o contexto internacional da Guerra Fria e o financiamento dos Estados Unidos para as ações. E neste ano, houve denúncias de financiamentos à greve dos caminhoneiros brasileiros. Empresário chegou a ser preso suspeito de locaute. Outras dezenas de inquéritos foram abertos pela Polícia Federal para investigar a prática. 

Repercussão
Para o deputado federal José Guimarães (PT), a “grave” crise social destaca as fragilidades do governo Temer. “Foi símbolo de que não existe mais governo. As reivindicações devem ser naturais, mas pediram Garantia da Lei e da Ordem porque não conseguiram conviver com uma greve, não buscaram diálogo, são aversos à negociação popular”, pondera. 
 
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Guimarães criticou ainda pedidos de setores grevistas por volta dos militares. “Mas houve também reivindicações justas e teve adesão porque as pessoas não aguentam mais reajuste de preços toda semana. Quem sofre é a população”, aponta.

No entendimento do professor Valmir Lopes, o ex-presidente da Petrobras Pedro Parente foi a personificação da crise e a demissão foi a entrega da cabeça de quem entendia-se ser o responsável pelo problema. “Ele se tornou insustentável. Pro governo talvez seja importante essa saída, apesar da manutenção da política de preços. Então encerramos este capítulo com a ‘identificação’ de atores”.

Guimarães concorda quanto a conservação da política de preços. “Parente disse que projetou a imagem da empresa, mas na verdade ele acabou com a Petrobras. É a expressão maior da derrota do governo”, dialogou, mencionando questões como o pré-sal, gestão e comercialização e Fundo Soberano.

“É um governo do fim do mundo que ainda tem a coragem de mandar pro congresso reoneração de R$ 13,5 bilhões, tirando recurso da educação, de programas de inclusão social e da agricultura familiar”, finaliza o parlamentar petista. 

Carlos Marun, ministro da Secretaria de Governo, revelou na madrugada desta segunda-feira, 4, que a Petrobras deve reavaliar políticas de preço. "Eu, Marun, acredito que a Petrobras vai reavaliar [a política de preços]. Porque a Petrobras existe no Brasil. Ela vende no Brasil. Ela explora petróleo no Brasil, pode até ter essas invenções de Pasadena... Mas o Brasil é o grande mercado e é a essência da existência da Petrobras", disse, durante entrevista ao programa Canal Livre, da Band.

O ministro disse não acreditar em novas paralisações dos caminhoneiros, diante do fato de que boa parte das reivindicações da categoria foi atendida. "As informações que nós temos é de que existem alguns líderes que estão tentando fazer com que o movimento volte com intensidade. Nossa avaliação é de que isso não vai acontecer", disse, em referência às manifestações convocadas para esta segunda-feira, 4, em Brasília.

Perguntado sobre a política de preços, Marun disse que o "governo não vai interferir" na estatal. Em outro momento, porém, afirmou que a política de reajustes diários dos preços dos combustíveis não é "compatível com o mercado brasileiro".

Sobre o motivo da saída de Parente do comando na estatal, na sexta-feira, 1º, Marun desconversou e negou que o governo tivesse sido pressionado por agentes políticos para retirar o executivo do cargo. 

Questionado se o governo não foi incoerente ao aprovar a política de preços da Petrobras e, para encerrar a greve, ter reduzido e congelado o valor do diesel por 60 dias, Marun disse que a mudança de cenário exigiu uma nova postura. "A elevação de dólar e petróleo fez com que a política se tornasse incompatível ao Brasil", disse. Marun ainda afirmou que "combustível não é chocolate, que um dia você come um e no outro come outro", em referência à ausência de alternativas por parte do consumidor.

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