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Morte de vereadora coloca intervenção no Rio de Janeiro em xeque

Confira análise do jornalista do O POVO, Henrique Araújo

17:23 | 15/03/2018
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A morte de Marielle Franco não é apenas uma tragédia. É uma morte política. A vereadora não é uma vítima da violência difusa no Rio, essa mesma que transforma homicídios em caminhadas pela paz ocupando ruas com todos vestidos de branco.

A morte de Marielle é principalmente um atentado à democracia e a todo o conjunto de vozes que se lançam contra a truculência policial no País e o poder das facções criminosas. É a morte de uma mulher negra também, antes que se esqueça.

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Embora a autoria do seu assassinato ainda esteja sendo investigada, o que se sabe até agora é que a militante de 38 anos denunciava sistematicamente o 41º Batalhão de Polícia fluminense, conhecido por ser o que mais mata no estado. Dentro dele se alojariam as milícias que achacam moradores dos morros, oferecendo e cobrando por serviços como TV e internet.

Como vereadora de primeiro mandato, a quinta mais votada do Rio, ela tinha função de relatora na Comissão da Câmara que fiscaliza a intervenção federal na área de segurança. Ali, acompanhava as ações do Exército nas comunidades.
[SAIBAMAIS]

À morte de Marielle, então, convergem outras mortes: a da mulher, da vereadora, da negra, da favelada, da agente público que zela pela segurança, da cidadã. Para cada uma dessas mortes há uma repercussão que torna o cenário de violência ainda mais desafiador. Para cada uma delas, um disparo que atravessou lataria e vidro do veículo que a transportava no final da noite de quarta-feira. Para cada uma há um pasmo que percorre as redes sociais e chega às ruas, virando multidão.

Um dia depois do crime e menos de uma semana após a chacina do Benfica, em Fortaleza, o governo federal anuncia um centro de inteligência no Ceará, estado onde quatro matanças deixaram 35 mortos nos três primeiros meses do ano. O gesto é parte de um esforço oficial para conter as facções, mas também ferramenta política. Como a intervenção no Rio.

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Às vésperas das eleições, cada morte vira teatro para discursos esvaziados de efetividade. Enquanto tribunais descaracterizam veículos de desembargadores temendo ação de facções, o governo aluga carros blindados para seus mandatários e a Assembleia Legislativa do Ceará enterra a CPI do Narcotráfico com medo de retaliação do banditismo, à maioria das pessoas resta a impotência.

E é nesse ponto que a morte de Marielle tem outra leitura política: nesse aspecto, a vereadora era o novo na política. Era parte da rua e do Legislativo. Era ativista, mas também intelectual, socióloga formada pela PUC-Rio e mestre em administração pública. Tinha um lastro dos movimentos sociais, conhecia a máquina pública, dialogava com a academia e estabelecia laços com as esquerdas.

Nesse sentido, Marielle era o novo que tanto se procura na política. Em meio a discurso de velharias e reedição de demagogias eleitoreiras, foi isso que esses nove tiros mataram na última quarta-feira.

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