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A transformação que a morte de Marielle pode provocar no Brasil

Caso de Marielle reflete o cotidiano das pessoas negras, periféricas e LGBTs no Brasil, segundo especialistas e militantes ouvidos pelo O POVO Online. A tragédia, avaliam, pode mobilizar a sociedade na busca por um País mais justo, menos violento e melhor representado nas esferas de poder

16:54 | 16/03/2018
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A morte da vereadora Marielle Franco (Psol), no Rio de Janeiro, mobilizou lideranças de movimentos sociais e grupos organizados de mulheres em todo o Brasil. Em Fortaleza, não foi diferente. De acordo com militantes e especialistas ouvidos pelo O POVO Online, o caso de Marielle reflete o cotidiano das pessoas negras, periféricas e LGBTs no Brasil. E pode ser um marco na construção de um Brasil mais justo e menos violento, dando maior representatividade às favelas e periferias. 
 
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Membro do Instituto Negra do Ceará (Inegra), a assistente social Iara Fraga avalia que o assassinato de Marielle é expressão do "enrigecimento do estado militarizado brasileiro". De acordo com a cearense de 29 anos, esse tipo de tratamento sempre foi regra para a população negra.

"A morte da Marielle mostra o chão que estamos pisando nesses últimos tempos, que é de uma dureza ditatorial", afirma. "Se isso aconteceu com ela, que é uma figura pública, sem nenhum esforço de velar nada, como é que vai ser com a gente?", questiona.

A notícia da morte da vereadora chocou as mulheres que fazem parte da Inegra. "O sentimento foi de querer fugir, sabe? De se esconder como faziam nossos antepassados", revela. "Mas é preciso pensar outras formas de sobreviver e de denunciar a violência cometida pelo estado".

O vereador David Miranda (Psol-RJ) vê a partida da companheira de Câmara como uma perda notável para a política. "Isso fez crescer uma força dentro dos movimentos de esquerda. Essa representatividade de que a população carioca estava carecida", pondera. "Eles mataram porque ela era mulher periférica. Era como eu. Também sou negro, de favela e LGBT. Isso nos aproximou".
 
"É preciso ter mais representação da favela"

David nasceu na favela do Jacarezinho, zona norte do Rio de Janeiro. Mariella era da Maré, outra grande favela do estado. "Ontem, enquanto carregava o caixão da minha amiga, pude ver muitas Marielles ali. Muita mulher negra empoderada. Espero que isso reflita de alguma forma nas eleições. É preciso ter mais representação da favela".

Para o vereador, a mobilização nas ruas de várias cidades brasileiras, incluindo Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Fortaleza, é extremamente significativa. "As pessoas procuram essa representatividade. E ela virou um símbolo de esperança para quem tá cansado da violência nas favelas. De quem tá cansado de ser aprisionado por causa da cor da pele".
 
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Tentativa de silenciamento 
 
Militante do Psol Ceará, a estudante de Ciências Sociais Isabel Carneiro vê a morte de Marielle Franco como uma tentativa de silenciar movimentos e vozes de ativistas que denunciam o atual modelo de segurança pública no Brasil.

"A crise é fruto desse modelo a partir da criminalização das drogas que tenta resolver tudo com militarização", pondera. Para Isabel, falta entendimento de que é o fenômeno do encarceramento que aproxima as pessoas das facções criminosas, algo que explodiu no Ceará nos últimos anos.

"Tem muita gente tentando negar o caráter político da Marielle. O que eu entendo porque só aqui no Ceará foram quatro chacinas neste ano, então existe esse histórico de violência. Mas ela tem seu diferencial do lugar que ela ocupava no parlamento. Ela denunciava e chorava essas mortes", afirma. 
 
População marginalizada 
 
A cientista política Carla Michele Quaresma destaca o fato do crime ter ganhado destaque pela posição política de Marielle, mas que ela é mais uma vítima dentro da realidade de autoritarismo político. "Nós vivemos em uma cultura tão autoritária que o dissenso incomoda, principalmente quando ela mostra a realidade das pessoas que vivem na marginalização social", aponta.  

"Isso denuncia um estado de coisas que durante muito tempo foi silenciado. As pessoas que fazem a luta das periferias são invisibilizadas, há um silenciamento", diz Quaresma. "Custa muito falar da defesa dos homossexuais, do movimento negro. O caso dela ganhou repercussão pela posição que ela ocupa, mas casos como este acontecem todos os dias. Existem muitas vítimas da violência que a gente nem toma conhecimento".  
 
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