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"Surubinha de Leve", a apologia e a cultura do estupro além do funk

O trecho "Taca bebida, depois taca pica e abandona na rua" descreve, de forma clara, uma situação de abuso sexual. A música alcançou marcas consideráveis pelo pouco tempo que esteve disponível no Youtube e Spotify

13:50 | 18/01/2018

Combater o assédio sexual e a violência de gênero no Brasil está longe de ser tarefa fácil. Entre campanhas de conscientização e mobilizações, inúmeros casos de estupro, feminicídio e violação do corpo e dos direitos das mulheres nos mostram o quanto a situação é complexa e desafiadora.
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Nesse sentido, a expressão "cultura do estupro" parece tristemente apropriada para explicar esses desafios. Ela diz respeito às estruturas e relações que sustentam, legitimam e normalizam a violência sexual contra as mulheres. Aqui, qualquer coisa pode ser mecanismo de disseminação e naturalização da ideia de que o corpo feminino é passível de violência e objetificação. Aquela piada de mesa de bar e aquele anúncio misógino são exemplos clássicos - que estão longe de serem os únicos - de como o problema consegue misturar-se às relações sociais e às expressões culturais a ponto de atenuar o fator violência e a desumanização. Aquele hit do Carnaval, com aquela batida viciante, também.

"Surubinha de Leve", funk do Mc Diguinho, é um exemplo recente, que alcançou marcas consideráveis pelo pouco tempo que esteve disponível no Youtube e Spotify. No aplicativo de streaming, o funk esteve no topo da lista de hits "Viral 50", enquanto colecionava, na plataforma de vídeos, 14 milhões de visualizações no clipe. Além disso, a música foi considerada por muitos como o "sucesso do Carnaval" e ganhou inúmeras versões. Nesta semana, virou assunto pelo País e Trending Topic nacional. Muito sucesso? Talvez. Mas, "polêmica" e "apologia ao estupro" definem melhor parte dessa repercussão.

O trecho “Taca bebida, depois taca pica e abandona na rua” descreve, de forma clara, uma situação de abuso sexual. A vítima, uma mulher embriagada, que, pela orientação da letra, depois de satisfazer as vontades de um homem será abandonada na rua. Não à toa, esta foi a parte da letra mais criticada nas redes sociais. As populares versões ‘respostas’ trouxeram vozes de mulheres que denunciaram a mensagem de violência disfarçada(?) de liberdade sexual. Internautas organizaram uma campanha para denunciar o conteúdo, que resultou na retirada da música do ar nesta quarta-feira, 17. Um tímido, porém importante passo na luta pelo fim da naturalização da violência.
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O problema é que o funk está longe de ser o único gênero musical que contribui para alimentar essa cultura. Pesem as críticas elitistas e as tentativas de criminalização e silenciamento do ritmo com base na sua origem (nos mesmos caminhos do samba, aqui no Brasil, e do jazz, nos EUA, aliás), o machismo e a mensagem de naturalização da violação do corpo e dos direitos da mulher aparecem, de diversas formas, com sutilezas e sofisticações, em todos eles. E às vezes não é tão fácil percebê-lo, quanto o foi em “Surubinha de leve”.

Diferentemente do que destaca a crítica moralista, o ponto não é o sexo em si, tão presente nas letras e danças de gêneros como funk, forró e axé. O combate e a conscientização deve ser com foco na violência sexual e no assédio. Se essa mensagem vende, a ponto de tornar-se a música mais reproduzida em uma lista de virais, no mínimo é o sintoma de uma ideia que consegue cada vez mais espaço na sociedade, entre as novas gerações. É claro que, se estamos falando de cultura (e entendendo que existe um aspecto social que precisa ser combatido), é preciso denunciar, questionar e expor as mensagens e apologias que expressam-se nos estilos mais populares, porque são eles que, de certa forma, mediam as relações sociais cotidianas.

Mas, além de atentos, é preciso estarmos abertos: a tal da cultura do estupro - a naturalização da violência sexual - pode não ter nenhuma ligação com aquela letra explícita. Pelo contrário, pode se apresentar e disseminar-se em meio a batidas suaves, vozes melodiosas, acompanhada de instrumentos clássicos e videoclipes conceituais. É preciso ter olhos (e ouvidos) críticos.

Laura Brito

 

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