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Ceará tem o maior desmatamento de restinga do Brasil, segundo relatório

A região registrou supressão de 788 hectares, seguida pelo Piauí, com 244 hectares, e Santa Catarina, com 199

08:00 | 30/05/2017
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O Ceará é o estado brasileiro com o maior desmatamento de vegetação restinga, segundo aponta o relatório técnico da Fundação SOS Mata Atlântica e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, divulgado nesta segunda-feira, 29. A região registrou supressão de 788 hectares, seguida pelo Piauí, com 244 ha, e Santa Catarina, com 199 ha. Os dados do levantamento são equivalentes ao período de 2015 a 2016.


Conforme o relatório, o total de supressão de vegetação de restinga dos 17 estados com bioma da Mata Atlântica foi de 1.426 ha, registrando aumento de 110% em relação aos 680 hectares identificados no período anterior. Somente o desmatamento no Ceará representa 55% do valor.

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Para o professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Jeovah Meireles, o problema identificado pela pesquisa passa pela má gestão do poder público com a zona costeira ao longo dos anos. "É um sinal claro, evidente, de não existência ou não cumprimento de política de controle ambiental, de fiscalização, de saneamento integrado. Significa que você tem que ter ideia do todo, dos impactos acumulativos, até para definir políticas mais específicas para enfrentar essa questão", comenta.


De acordo com o geógrafo, a supressão da vegetação de restinga é regida, fundamentalmente, pela especulação imobiliária. O professor explica que áreas relevantes para a biodiversidade têm sido ocupadas, comprometendo a captura de dióxido de carbono, o controle de processos erosivos e da qualidade do solo e do aquífero. Jeovah cita casos de impacto de salinização do lençol freático em Iparana, Caucaia, e no Porto das Dunas, Aquiraz, devido à ocupação destas regiões.

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No Ceará, o professor menciona como pontos críticos da preservação da vegetação de restinga a região do Parque Natural Municipal das Dunas de Sabiaguaba, em Fortaleza, além dos municípios Acaraú e Itapipoca. Segundo o geógrafo, o aumento do controle das áreas de restinga passa por melhorias no processo de licenciamento; pela participação das comunidades diretamente atingidas por empreendimentos; pela delimitação dos territórios; pela definição de impactos acumulativos; e pelas políticas de alternativas locacionais para empreendimentos.

A restinga é o conjunto de formações vegetais que revestem as areias litorâneas, desde  o oceano até as primeiras encostas da Serra do Mar. A formação desses terrenos é muito afetada pela força do ventos e das águas marinhas. Com a ação do vento, as areias das praias são transportadas para pequenas elevações já existentes, formando as dunas.


Mata Atlântica

O estudo também apresentou o desmatamento no período de 2015 a 2016 nos 17 estados brasileiros com bioma de Mata Atlântica. O Ceará registrou uma variação de 149% de supressão, saltando de 3 ha (2014-2015) para 9 ha de área desmatada.

 

O Maciço de Baturité, região com a presença de Mata Atlântica, tem um bioma mais sensível por estar isolado em serras, explica o biólogo Fábio Nunes. O desmatamento tem provocado o aumento de espécies ameaçadas, como o caso do periquito da cara-suja e da galinha Uru.

 

"Aqui já se viu desaparecer algumas espécies, outras estão quase desaparecendo. A situação é grave. As espécies dependem exclusivamente desse ambiente, não tem para onde ir. Se desmatar aqui, as espécies desaparecem. Cerca de 18 a 20 aves dependem (do ambiente)", afirma ele que também é coordenador do projeto conservação do periquito da cara-suja.

 

Segundo o biólogo, é preciso acabar com a cultura de utilizar fogo no roçado da região. Outro problema apontado por Fábio é o avanço de construções luxuosas.

 

[SAIBAMAIS]Sema

A Secretaria do Meio Ambiente (Sema), por meio de nota, informou que vem buscando estratégias para garantir a preservação do bioma. A pasta cita a implementação dos Planos Municipais da Mata Atlântica (PMMA) nos municípios.

Conforme a Sema, foi assinado em junho de 2015 o Termo de Cooperação Técnica entre a Secretaria, a Fundação SOS Mata Atlântica e seis municípios cearenses: Pacoti, Guaramiranga, Palmácia, Redenção, Mulungu e Aratuba.

"O objetivo do Termo de Cooperação Técnica é promover a troca de conhecimentos técnicos e informações para auxiliar na elaboração e implantação do Plano Municipal de Conservação e Recuperação da Mata Atlântica nos municípios da APA da Serra de Baturité, unidade de conservação administrada pela Sema", comunicou a pasta.

De acordo com a Sema, foram realizadas oficinas em Pacoti e Redenção, possibilitando esclarecimentos e subsídios técnicos para construção dos planos municipais. A pasta também menciona o projeto "Florestamento, Reflorestamento e Educação Ambiental no Estado do Ceará", que tem como objetivo promover ações integradas de conservação do uso vegetal e do solo, atuando inicialmente em três áreas estratégicas: rio Pacoti, rio Cocó, rio Ceará e riacho Ipuçaba.

Ainda sobre projeto Reflorestamento, a Secretaria afirma que por meio de parceira com instituição privada está recuperando áreas inseridas na Bacia do rio Cocó e rio Ceará, com previsão de plantio de mais de 40.000 mudas de espécies nativas ao longo de 4 anos. Conforme a pasta, foram realizados três encontros para reestruturação do Comitê Estadual da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, com o objetivo de fortalecer a articulação interinstitucional voltado a promover políticas públicas e estimular projetos e atividades voltadas ao conhecimento, a conservação e ao desenvolvimento sustentável do bioma.

"Consideramos que os principais fatores para o aumento do desmatamento são a falta de conscientização da população a que se refere a importância da conservação da Mata Atlântica como bioma presente também no Nordeste. Ainda é muito forte a cultura de exploração para subsistência, gerando desmatamento. Sem perder de vista a especulação imobiliária por se tratar de regiões no Ceará potencialmente turísticas", informou a Sema.

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